domingo, 22 de novembro de 2009
Tempo Perdido
Ela não sabe, mas acordará no dia 23 de novembro de 2029. Como de fato aconteceu. Ergueu-se da cama de solteira, que ela não percebeu agora tratar-se de uma enorme cama queen size. Abriu a torneira da pia do banheiro, que ela mal viu. E só quando ergueu os olhos para o enorme espelho que encimava a pia de mármore, percebeu, com um susto que tomou seu fôlego e quase a mata, que seu rosto envelhecera vinte anos numa só noite.
Ainda atordoada, ela começou a reparar no quarto gigantesco, no enorme closet e as incontáveis roupas belas e, aparentemente, caríssimas; além dos móveis de extremo bom gosto que guarneciam o suntuoso quarto.
Deu um pulo quando a empregada entrou de chofre no quarto avisando que o café estava pronto e perguntando se ela desejava fazer a refeição ali no quarto. Dorinha, o nome da moça que já trabalhava há cinco anos com a poderosa Dra. Suzuki, estranhou quando a senhora perguntou seu nome e o que fazia ali. “Esse povo que estuda demais e mexe com os miolos dos outros é meio doido.
Só algum tempo depois foi que ela descobriu, pelo jornal em cima do criado-mudo, e por isso se sentiu como num pesadelo, ou num filme de terror de roteiro fraco e barato, que duas décadas passaram sem que ela se lembrasse.
O celular, pelo visto era o seu, que por ser tão sofisticado, ela passou algum tempo até descobrir como atender. Era sua secretária. “Bom dia, Dra. Suzuki. Sua reunião com o Grupo MedSilver é hoje às nove. Há a consulta com o Dr. Campos de Medeiros da Medeiros International Holdings às dez.” E saiu passando toda a lista de “seus” compromissos até que, por volta das quatro da tarde, Marina descobriu que teria de participar do ensaio para o casamento de Larissa.
“Larissa Facó? Minha amiga está casando? Com quem?”. E ouviu a seguinte resposta: “Larissa Suzuki Zenault, sua filha. Não está lembrada, Dra.?”.
Esse foi o baque maior. Saber que também tinha outro filho, o mais velho, Aaron, não chegou nem aos pés.
“Uma filha, meu Deus, e está casando! Preciso de ajuda para entender esse... esse pesadelo.”.
Por sorte, achou o telefone de sua amiga “Larissa Facó”.
Foi atendida com uma certa frieza, o que estranhou.
- La, eu preciso de você. - A outra se sobressaltou:
- C-como? Deve precisar mesmo porque faz mais de quinze anos que você não me chama assim.
A antiga amiga resumiu sua situação e ouviu a outra mandar à secretária cancelar todos os compromissos do dia.
“Devo estar louca por acreditar nisso” - disse quando chegou.
“La, por favor, me conta o que aconteceu, acho que estou enlouquecendo!”
Diante do tom de voz de Marina, Larissa acreditou.
“Você escolheu ser neurologista, foi perto do fim do curso. Nunca entendi o porquê. Trabalhou muito, ralou bastante e estudava como nunca antes. E olha que você estudava pra caramba. Depois começou a fazer nome a ganhar muito dinheiro. Foi nessa época que nos afastamos.”.
“Nós, o quê?”
“Você começou a ficar muito metida. Nós nos desentendemos e... você não lembra nem disso?”
“Não. Continua.”
“Bom, pelo que eu soube, sua mãe morreu há três anos de câncer. E seu pai está internado numa clínica de repouso, que é um nome muito chique para asilo, ficou completamente esclerosado”.
Marina precisou de um tempo para absorver aquela notícia. Não estava gostando de quem havia se tornado.
“E... meus filhos? Eu tenho dois, você sabia?”
“Sei – disse a antiga amiga sorrindo – você a nomeou em minha homenagem e me pediu para ser madrinha de batismo, junto com o Guilherme.”
“Você se casou com o Guilherme?” - a crise de riso foi tão forte, que ela praticamente esqueceu onde estava.
“É – riu Larissa – lembrando bem...”
“Mas vocês viviam como cão e gato! E hoje?”
“Pois é, o tempo passou, ele se tornou um marido maravilhoso e um ótimo pai.”
“ Você teve filhos?”
“Sim, dois homens”.
“E eu, um casal. - após um momento, o sorriso se apagou de seu rosto – acho que estou louca, não lembro de nada disso. No entanto, meu rosto está aqui para que eu veja a verdade”.
Após um instante de silêncio, perguntou: “Mas... quem é o pai dos meus filhos. E onde está ele?”
“Ah, minha amiga, essa é a resposta mais complicada. Se você só se lembra da noite de 22 de novembro de 2009, então sabe que estava namorando o Alexandre, não?”.
“Sim, o que houve?”.
“Você se casou com ele”.
“Casei?” - E um sorriso enorme nasceu em seu rosto. “E onde ele está?”.
“Vocês se separaram há uns dez anos”.
O sorriso sumiu.
“Por quê?”
“Dentre outras coisas: o seu trabalho. Você estava tão obcecada que esqueceu até das crianças que foram morar com ele após a separação”.
Ela se levantou, caminhou até a varanda e apoiou as mãos no parapeito de granito.
“Meu Deus, eu sou uma pessoa horrível!”
“Bem, os meninos te perdoaram, de qualquer forma. O Alexandre é um pai excepcional e conseguiu desempenhar o papel de mãe também, enquanto você estava fora, dando palestras”.
Marina se sentia completamente derrotada. Ainda conseguiu fazer algumas perguntas, mas sob a condição que seria examinada pela amiga.
Antes de Larissa sair, ela perguntou, por fim: “Como foi que Alexandre me pediu em casamento?”
“Ele fechou um clube na beira-mar, acendeu mil velas e enfeitou o lugar todo, cobriu o chão da praia com pétalas de flores e, com um joelho fincado no chão, abriu uma caixa com as alianças mais lindas que você havia visto na vida e perguntou se você queria passar o resto da vida a seu lado. Pelo menos foi assim que você me disse à época.”
“E eu disse sim” - ela sorriu.
“Quem não diria?”.
Mais tarde, no ensaio do casamento, depois de todos os exaustivos compromissos do dia, em que ela aparentemente sabia tudo o que se pode saber sobre sistema nervoso, embora não gostasse muito dessa matéria na faculdade, a filha, que era realmente a sua cara, pulou em seu pescoço. O noivo era um rapaz muito bonito e que parecia ser uma ótima pessoa.
Todos estranharam as lágrimas de alegria e os abraços apertados. Principalmente Aaron, seu filho primogênito.
“A última vez que vi mamãe tão solta assim, eu devia ter uns oito ou nove anos de idade.”
Então o pai da noiva chegou. O bom e velho Alexandre Zenault. Deu um abraço apertado na filha e outro no futuro genro.
“Ele não mudou nada. Continua abraçando as pessoas como se fosse a última vez na vida”.
Depois de cumprimentar a todos, finalmente seus olhos encontraram a figura de Marina. Ele foi caminhando lentamente até ela. Com aquele seu passou lento e estudado, o charme transbordando de seus gestos. Tão elegante quanto da última vez.
Seu cabelo estava todo grisalho, tinha uma ou duas rugas de expressão e um olhar seguro.
Estendeu a mão e disse: “Olá, Marina, como vai?”
Ela se desvencilhou de sua mão e o abraçou. Era o mesmo abraço de vinte anos antes. Para ela parecia realmente que se passaram vinte anos.
Mas ele lembrava daquele abraço. Ele lembrava. No começo estranhou, quis repeli-la. Mas ela estava chorando, soluçando, realmente, em seu peito.
Deu-lhe um nó na gargante. “Tanta coisa acumulada no tempo, sabe?” - ele pensou. E retribuiu com aquele abraço apertado, também em lágrimas.
“Você me perdoa?” - ela perguntou baixinho.
Ele só conseguiu balançar a cabeça.
“Você não casou novamente, não foi?”
“Não”.
Então ela se aninhou em seu peito como se ali fosse o lugar mais seguro do mundo.
“Eu estou dizendo, mamãe está muito estranha...” - disse Aaron para a irmã que chorava de alegria vendo os pais abraçados.
Quando Marina acordou, vinte anos antes, com a cabeça latejando e o mundo rodando a seu redor feito um carrosel. Jurou de pés juntos:
“Nunca mais, nunca mais eu bebo conhaque de alcatrão!”.
FIM
domingo, 15 de novembro de 2009
Calçada Vermelha
No meio da calçada vermelha, de uma rua de pedra lavrada, eu parei e pensei na vida e na morte e no tempo e nas coisas do mundo.
Naquela calçada vermelha, sob o céu azulino das plagas iracemanas, após uma vereda de chão carmesim das flores caídas dos jambeiros, estava o significado de toda existência.
Que é:
Que é?
Digo depois. Agora quero reavivar um fato: Quando comentei das minhas andanças e passeios pelas ruas desta urbe esplendorosa e profunda, alguém me perguntou: "E não é perigoso caminhar sozinho pelas ruas desertas a essas desoras?"
E eu respondi: "Viver é perigoso. Se meus passeios acrescentam apenas alguns décimos a mais nos percentuais de riscos previsíveis, eles valem toda pena e toda probabilidade".
No mais, o significado da existência: alcançar a plenitude. O que é plenitude? Felicidade. "Não seria satisfação?" Não, felicidade traz satisfação. Satisfação por si só traz tédio. E mais: felicidade que nasce em nosso interior, independente de qualquer coisa material.
Tendo tudo ou posse de nada. Felicidade por ver uma árvore em flor, ou um canteiro bonito. O cantar de um pássaro, um adulto a sorrir de uma brincadeira de crianças. Ao esperar a hora de seu fuzilamento. Ser feliz doando sangue. Ser feliz depois de levar uma paulada e ser assaltado.
O Nirvana, para alguns. Shibumi, para outros. Mas isso não importa, não estava aqui da primeira vez que escrevi.
Sim... Ser feliz, chorando ao fim de um livro triste. Ser feliz varrendo a casa.
Ou caminhando na calçada vermelha, sob o céu azulino e o sol amarelento das ruas desertas. Sem precisar de nada mais: nem do chão a seus pés, nem do céu acima.
AXB
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Inveja
Hoje eu tenho inveja do bocejo das vendedoras de perfumes entediadas.
Hoje eu tenho inveja da insana e leve alegria dos festivos doidivanas.
Hoje eu tenho raiva, e inveja, do mundo.
Em minha mudez, minhas reflexões, minha concentração e sapiência, em meu quarto que é meu apartamento, que podia ser o mundo inteiro, eu invejo o que não tenho, pois se tivesse, não me satisfaria. Pelo contrário, me enfadaria.
Invejo o enfado, invejo a estreiteza de mente das gentes, invejo a pieguice, o lugar-comum. Invejo o comum, o ilustre desconhecido, o transeunte.
Invejo caras-e-bocas. Invejo o segurança. Invejo a pança do chefe. Invejo o boné e o pé dolorido do empregado.
Invejo o que não é de se invejar, a tristeza, a solidão que sinto, a companhia dos amigos ausentes.
Invejo a inveja e esse sentimento de ira que faz parecer brotar do peito o próprio inferno, como se ardessem brasas em minha pele e eu vivesse imerso em um caldeirão de óleo fervente.
Invejo, e odeio (ah, como odeio!), a prosa e o verso, e o contra-verso e o reverso. Inverto, imerso, contraverto. É Inveja, tudo inveja.
Invejo o belo rapaz, sua carreira estável, seus dólares e sabe-se lá o que mais. Invejo-o principalmente por sua jovem e bela esposa. E o doirado dos pêlos dela.
Invejo a noite, o silêncio, o sussurrar do vento. E invejo principalmente as palavras, essas malditas palavras, que eu queria saber dizer e não sei.
Invejo minha vida sem mim. Invejo as frases que não disse e as grandes obras que não criei. E invejo esse instante magnífico em que escrevo toda minha inveja, como pecado que é, e, soltanto esso, continuo sentindo-a e inebriando-me com ela.
Invejo sobretudo você, que agora lê o que não escreveu, que come o que não plantou e se enriquece com o que não colheu.
Invejo esta sua felicidade tão aparente enquanto encerra este texto.
AXB
Uma Segunda Chance (continuação de De Algum Lugar do Passado)
- Shhh. Não precisa dizer nada, querido. – disse ela, docemente, colocando um dedo sobre os lábios dele. E depois de um instante a olhar silenciosa e devotamente o rosto dele, sorriu e continuou: - Senti tua falta. Faz mais de sete anos que a guerra acabou. Quase dez desde aquele dia em que apareceste esbaforido, indignado, dizendo que havia de fazer alguma coisa. Ajudar os franceses e os ingleses. Que o Kaiser era isso e aquilo outro.
Enquanto ela dizia aquelas palavras fluidas, que tanto encantavam seus ouvidos, ele acariciava a pele suave de sua mão. “Meu Deus! Quanta saudade eu sinto agora”.
- Tua mãe recebeu uma carta numa língua estrangeira e três medalhas. Depois disso ela entra em teu quarto todas as tardes e chora por horas e horas... hoje à noite eu tomei o conteúdo de um frasco que mamãe guarda na cristaleira. Fiquei com tanto sono...
Nathan a olhou com uma pungência tão dolorida que ela se emocionou. Era tanto enlevo, era tanto carinho em seu coração que ameaçava explodir seu peito. Ele então se ajoelhou diante dela, tomou suas mãos e as beijou, as lágrimas caindo abundantes pelo seu rosto.
- É passado muito tempo. Apesar de você mesma saber que, se tivesse outra chance, eu iria novamente, você me perdoa?
- Oh, meu querido, eu nunca te condenei. Era um lugar que você tinha de ir. Uma coisa que tinha de fazer. Era seu Destino.
Ele sorriu com as palavras dela.
- Então, ouça meu desejo: quando acordar amanhã, quero que você procure um rapaz decente que te ame tanto quanto eu. Ele terá esse mesmo sorriso. Os olhos dele brilharão quando te vir. Case-se com ele. Tenha filhos e seja feliz.
- Oh, eu satisfarei teu desejo, querido. Agora, senta aqui e me abraça. Quero sentir, ainda uma vez, os teus braços me envolverem e o mundo parar. Ah, enxuga tuas lágrimas. Tristeza, para quê? Eu mesma fiquei tão triste... tão triste. Eu rezei com todas as forças, com toda a força de meu ser, pedindo para te rever uma vez... ainda que uma única vez. Tanto e com tanta força... – ela apertava fortemente a mão de Nathan. – Então lia os poemas da Florbela e chorava, chorava... – ela disse com lágrimas nos olhos. - E agora... eis você aqui! Eu pedi tanto, tanto...
Ele sorriu para ela. Acalmou sua mão. Enxugou suas grandes lágrimas e beijou sua face. Ela sorria muito satisfeita, malgrado os olhos marejarem. Conversaram ainda por um tempo, quando ela sentiu que tinha que ir embora. Ele sorriu, aquiesceu e disse:
- Sim, entendo. Vá. Mas antes... – pegou suas mãos, puxou-a para junto de si e no meio de um forte e quente abraço, olhou-a nos olhos e beijou-a lentamente.
Ela se foi. A marca quente de seus lábios ainda nos lábios de Nathan. Um vazio enorme assolou seu peito. Mas, logo, ele sorriu. Subitamente a melancolia foi substituída pela alegria. Uma segunda chance. Poucos a têm. Ele sorriu mais uma vez para a casa e um lampejo de como ela devia ser a noventa anos atrás lhe perpassou o pensamento. Voltou sorrindo ao hall no mesmo momento em que tia Glocélia o esperava.
Ela ainda perguntou alguma coisa que ele respondeu avoado. “Esses jovens! Tão apaixonados...”, pensou Glo consigo mesma. A dona do buffet olhou para Nathan perplexa. Cutucou uma senhora idosa a seu lado e comentou:
- Olívia, esse rapaz é idêntico ao namorado de vovó que morreu na Primeira Guerra Mundial!
- Aquele bonitão ali? É... realmente! Você ainda tem aquela foto antiga, dele e da sua avó?
- Tenho. Mas deve estar dentro de alguma caixa aí empoeirada ou embolorada pelo almoxarifado. A pobre! Nunca mais foi a mesma, desde que ele morreu. Nossa! Fiquei arrepiada...
- É, eu conheço a história, afinal nossas avós eram amicíssimas. Ela dizia que viu a amiga passar sete anos como louca. Só chorando. Então, numa bela manhã, conheceu teu avô, médico recém formado voltando do Rio e recomeçou a viver. Não fosse isso, você não estaria aqui hoje, amiga.
- Hum. Engraçado. Eu, às vezes, a pegava pelos cantos, bem velhinha, os olhos perdidos no horizonte e sorrindo. Ela me percebia, ria, afagava meus cabelos e então me levava para cozinha para me dar um pedaço daqueles bolos maravilhosos dela. Gostava tanto dela que batizei minha filha com seu nome.
- E por falar nisso, onde está Isabelle?
- No cursinho. Está estudando como louca para passar no Vestibular de Medicina.
- Qual é a idade dela?
- Tem dezessete. Logo, logo, fará dezoito. A mesma idade da minha avó quando o namorado partiu para se juntar aos franceses na Primeira Guerra Mundial.
Continua...
(?)
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Lar
“Tenho certas desconfianças para com presuntos e seus congêneres.” Falou de si para si. “Mas este aqui está excelente!”, continuou, depois que deu uma boa dentada.
“Lugar melhor não há que o nosso lar” - é o que ele escreve à máquina.
Repouso para o sonhar,
nossa simples morada.
Possa ser castelo,
ainda que não tão belo
É sempre amada”.
Depois de escrever esses maus versos que doem de tão ruins que são, come mais um bocado do sanduíche. E depois bate as mãos uma na outra para limpá-las.
“Possa ser cabana,
mas tem de ser bacana
Quadro paredes, sim, senhor,
preenchidas com singelo e puro amor”.
A máquina de escrever deveria se negar a escrever tais idiotices. Mas a pobre nem resmunga.
O “morador” se ergue da cadeira, caminha até a janela e para diante do horizonte noturno recortado pelos perfis alaranjados dos prédios. As pessoas eram mais felizes quando as luzes das ruas eram brancas? Ou os besouros e mariposas atraídos acabavam com o charme?
O ventilador sussurra num canto do “quarto-e-banheiro”. Ou seria “quarto que é sala, cozinha, biblioteca, área de serviço e... quarto”?
É tão singelo, tão reduzido... pequeno, mesmo. Mas cabe um mundo de possibilidades dentro dele.
O homem sorri para seu “apertamento”, volta-se e marcha como um rei percorrendo seus domínios.
Senta na mesa e escreve outros versos ridículos
que ninguém se dará o trabalho de olhar.
E se sente absolutamente feliz em seu retículo
pois tem um canto para chamar de lar.
AXB
De algum lugar do passado
Foi um jantar beneficente realmente esplêndido e Nathan fez questão de comentar isso. Disse ao garçom que transmitisse seus parabéns ao cozinheiro pela soberbo banquete. Depois ele pediu licença aos comensais de sua mesa e se afastou, assim ficou livre para vagar pelo belo casarão de arquitetura antiga.
“Só mais uma semana, e então... a França. Finalmente a Legião Estrangeira”. - Pensou ele. “Tenho esperado este momento por toda a minha vida”.
Ele caminhou lentamente pelo corredor rica e detalhadamente decorado. Pela idade da casa, a reforma tinha sido recente. Ele adorava arquitetura, ainda mais a clássica da década de 1920. Compridas portas de madeira suavemente envernizadas, com molduras envidraçadas de textura rebuscada. Colunas trabalhadas. Era uma bela casa. As pessoas que construíram e que viveram ali devem ter sido muito felizes.
Era uma coisa que ele não conseguia explicar. Eram sonhos de infância que agora lhe pareciam muito detalhados. Não era à toa que algumas pessoas chamavam de “memória de outras vidas”. Não é uma coisa que um menino de cinco anos saiba, veja na televisão ou leia. Não com tantas minúcias. Não com tanta... força. Tanto sentimento, como uma saudade do que não se sabe. Como um trecho de uma canção tão linda que leva às lágrimas... mas não se lembra a melodia. Ainda que os acordes estejam na ponta da língua.
Sua mente estava imersa naquela atmosfera de passado e sonho enquanto ele vagava pelos saudosos passeios. Ele pedia silenciosamente uma resposta. Uma resposta para aquele nó em seu peito. Então ele sentiu o perfume. Um perfume antigo, cheio de melancolia e alegria esmaecida. Era o aroma da nostalgia. Era a fragrância da saudade. Era um cheiro que nem as rosas, nem qualquer outra flor do mundo, tinham mais. Era de um tempo feliz. De dias maravilhosos. Noite brilhantes e inesquecíveis. Era o cheiro carregado tristemente pelo tempo.
- É uma casa tão linda, não? – perguntou uma voz feminina às suas costas.
Nathan se virou para encontrar uma figura de sonhos: de pé em meio ao belíssimo jardim, uma moça de 20, talvez 24, anos, de cabelos tão pretos que não refletiam a luz das antigas luminárias, e cortados à moda das moças de Chicago da época de Al Capone. Tinha uma pele alva e suave.
Ela era alta para a média das mulheres que ele conhecia. E para um olhar rápido, mas de profissional, parecia ter um corpo bonito, se não escultural, por baixo do diáfano vestido preto. Ela era toda uma cópia dos costumes da época em que a mansão fora construída. Nathan não soube dizer se achou isso por que a casa estava influenciando seus pensamentos, ou se por que sempre admirara a graça daqueles tempos.
O que importa, é que ela estava ali. E não parecia um fantasma. O rosto dela, sorridente, tinha um ângulo muito belo. Não era nem quadrado, nem oval. De certa forma, era impreciso como um rosto que se tenta lembrar dos detalhes e não se consegue. Tinha olhos amendoados com um tom de mistério por causa da maquiagem escura. Seu nariz era afilado, perfeito. Tinha uma boca suave, belos lábios e pequenos dentes brilhantes. Ela era simplesmente linda.
O sangue de Nathan dava espasmos lentos e cadenciados nas artérias de sua garganta. Sua boca secou. A respiração parou. E seu rosto demonstrava a mesma expressão de alguém que encontra uma pessoa que pensava estar morta. Por um meio segundo que ele pensou ser um século, ele ficou suspenso. Então retomou o controle de si, respirou fundo e disse com um sorriso radiante:
- Maravilhosa. Algumas pessoas se dariam por satisfeitas em poder olhar uma vez na vida e guardar tal beleza na memória. Outras gostariam de olhar para sempre. Há certos tipos de casa, como essa, em que eu entro e sinto como se conhecesse... Eu adoro casas assim, me fazem muito feliz.
A moça riu docemente. Havia notas musicais em seus lábios.
- Você sente a mesma coisa que eu. Isso é estranho para você? Eu estou meio confusa...
- Não. Não é estranho para mim. É mais como se eu estivesse esperando isso a minha vida inteira.
- A gente já se conhece...
- Há muito tempo. – ele respondeu resolutamente.
- É, há muito tempo.
- Você quer passear comigo?
- Adoraria.
Raras são as vezes na vida em que os sonhos invadem o mundo desperto. Bem aventurados aqueles que se deparam com um acontecimento desses. Ele lhe ofereceu o braço gentilmente. Ela aceitou, faceira. E saíram a caminhar lentamente pela alegremente melancólica luz do corredor. Então ele lembrou. Uma lembrança doce, mas pesarosa.
- Quer se sentar aqui? – ele perguntou diante de um banco.
- Você sempre gostou desse banco.
- É. – respondeu sorrindo.- É o meu lugar com você.
Sentaram-se e ficaram alguns instantes num silêncio denso.
- Eu tenho tanto o que falar... Queria te dizer tantas coisas importantes... Mas agora eu não consigo lembrar de nada mais importante que estar aqui. Eu vi você em meus sonhos, sabe? Eu sinto que conheço você, mas não lembro. É como uma palavra que se sabe, mas não se recorda precisamente: uma memória surge no baú das minhas lembranças. Rápida. Fugidia por entre muitas outras coisas, e logo... logo não está mais lá. E aí me dá tanta saudade, não sei de onde, não sei do quê. E às vezes eu me sinto partido ao meio. E, então... então...
Continua...
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Domingo de Outubro
Há um cheiro de infinitude no ar. Os pombos ciscam à minha frente e mal se afastam ante minha presença. Eles têm os pescoços acobreados como alguma verdade do passado e testemunham o mesmo brilho de sol que eu, como se fôssemos os irmãos que creio sermos.
As ruas murmuram gracejos. As risadas são o vibrar do pneu dos carros sobre o asfalto, correndo ao longe. Domingo é um dia de descanso. Hoje até as torneiras estão silentes, as pias sem obrar. O martelo não bate, as pás estão encostadas.
Caminho devagar aspirando aquele ar divino. As mãos cheias de sacos de compras.
Numa casa de teto baixo, um tanto acanhada, de humilde jardim, mas, ainda assim, belo, toca preguiçosa num radiozinho de pilha uma canção que fala de mar, sol e amor.
O tempo passa lento e feliz, o que não impede que logo depois eu chegue em casa e me dê vontade de voltar e caminhar o dia inteiro pelas ruas desertas, ouvindo os discretos sinais de existência das pessoas por trás dos umbrais das casas.
Todos ressonando em sua paz dominical rotineira e profundamente conhecida.
A tudo isso, meus amigos pombos assistem. Depois giram as cabeças em voltas curtas e bruscas, olham-me, sorriem com seus bicos, ciscam mais um pouco e depois saem voando no céu de um domingo qualquer de outubro.
AXB
Ores
por todos os fatores
e fadigas ad honores.
Lanço meu louvores
a mais bela das flores,
do vento os frescores,
do mais doce dos odores.
O que se dirá de suas cores
e de todos os seu pendores?
Vou-me embora para as Açores!
Que me importam os licores,
os ardis e seus olores?
Que me prendam os pretores!
Que me persigam os caçadores!
Oh, vis perpetradores!
Ignóbeis cometedores
de lástimas e plenas dores.
E se tu fores?
E se cairdes de amores,
Bela rosa de olhares comprometedores?
De minha vida, quais setores
causam-me mais rubores
que a peleja dos pescadores?
apesar inexistentes meus artísticos pendores
já vi piores horrores,
que estas rimas incultas, meus senhores.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Cuando Calienta el Sol
Ouço um murmúrio a meu lado e quando ergo meu Ray-Ban Aviator Caravan vejo minha bela Mariko sentando na cadeira ao lado.
Ela é minha flor de cerejeira, minha gueisha. Todo seu pudor de japonesa, todo seu mistério de mulher oriental transmudados em graça e doçura. Uma dama sedutora, de sensualidade rebuscada e discreta, com seus pequenos e estudados gestos. Ela me olha e sorri como se eu fosse o melhor dos homens.
O sol brilha, o mar é cristalino e o sorriso de Mariko refulge como uma supernova, aquecendo meu coração. A vida é maravilhosa.
Então, por que eu sinto medo? Por que essa sensação de iminente desgraça? A sensação que tenho é a de alguém que está ouvindo a mesma música que agora soa pela praia e, de repente, começasse a se ouvir “L’Ultima Neve della Primavera”.
A intuição iminente de tragédia.
O quarto do hotel é de um branco imaculado. A roupa de cama, a estampa das cadeiras, as toalhas. Formam um belo contraste com o verde-mar das paredes de vidro da varanda. Impecável. O ar-condicionado ligado deixa o quarto ainda mais agradável. A meu lado, Mariko ressona em sua siesta. Tudo transmite um ar de elegância e conforto. Paz e tranqüilidade.
Mas aqui, na minha cabeça, não cessa esse temor do instante seguinte. Algo acontecerá a qualquer momento.
A noite é fantástica. Poucas vezes em minha vida participai de um luau tão animado, e eu participei de muitos, inclusive alguns foram verdadeiras orgias! Mas esse aqui foi efetivamente o melhor. Como uma noite de perfeição. Não sei como conseguem colocar uma orquestra inteira com os pés na praia. Mariko está radiante. Nunca a vi tão bela. Dançamos ao som de nossa canção, repetidas vezes graças a meus insistentes pedidos ao Maestro Luiz Rodriguez.
Brindamos com o melhor champanhe, saboreamos o banquete e nos amamos sob o aroma luxuriante das argemonas e das dálias. E tão certo quanto intui, os agouros se concretizariam. Mas naquele momento eu esqueci tudo e vivi a pura felicidade nos braços daquela linda a amorosa mulher sob os auspícios das brisas noturnais de Acapulco. Seus risos e os sons daquela noite ainda ecoam na minha memória.
+++
Dez anos depois daqueles dias em Acapulco, eu estou sentado num banco do Memorial Lincoln em Washington. A tarde é fria como uma pedra de túmulo. Acho que o termômetro sou eu. Não creio que há nada mais enregelante que minhas veias.
Meus instintos não mentiram para mim, o que se sucedeu àquelas férias no México ultrapassam qualquer medidor de desgraça que eu já tenha visto, dos furacões aos terremotos, passando por tsunamis.
Mariko faleceu dando a luz a nosso primeiro filho, Angelo, que expirou depois de uma dolorosa semana de tratamento. Os médicos não puderam fazer nada para nenhum dos dois. Eu sei disso, eu conferi, eu corrigi, eu verifiquei milhões de vezes o procedimento para buscar algum culpado. Vivo, não havia.
Depois veio o Vietnam e a ilimitada capacidade humana de perpetrar a dor e a crueldade em seus semelhantes. É enlouquecedor se perceber louco. As coisas que você faz numa sanha de auto destruição... até o momento que nem se incomoda com o cheiro do sangue seco, preso na sua pele.
Vocês, ilustres espectadores do teatro das sombras onde se encena a peça da minha vida, devem ter percebido que passamos por maus bocados durante nossas existências. Isso é fato. Todo mundo sofre. Mas o dia seguinte é melhor. Pode ser. Às vezes acontece. Isso é bom... viver. Mas há um momento, depois de alguns acontecimento, que não há vida, mesmo seu coração estando batendo dentro do peito. E você se torna inimigo de tudo, principalmente de si mesmo.
Quando não achei um culpado vivo pela morte de minha família, eu passei a culpar o maior de todos os mortos. Sim, o que fez todos os vivos: Ele. E o amaldiçoei, neguei seu nome, não três vezes, mas uma três mil. “Nunca mais”, eu gritava, meu olhar vergastando o céu, “nunca mais!”. A fúria sob minha pele, percorrendo meu corpo.
Ora, mas que bobagem. O que Ele poderia fazer? Levou um tempo, mas eu consegui saber quem tinha feito tudo. No Laos, uma mulher que dizia falar com espíritos, numa aldeia perdida no delta do Mekong, olhou para mim e disse que eu era o maior servidor do “Mal”. Assim em letra maiúscula. “O caído”, “o caído”, como se fosse eu quem tivesse caído.
Não era assim, quem tinha me derrubado e me arrastado para o fundo da lama infecta dessa existência renegada já havia caído há muito tempo. Quando o mundo era uma criança. Sim, aquele ser alado metido a besta que se achava muito gostoso porque tinha uma lanterna nas mãos. “Estrela da manhã”, era seu título de idiota. Bom, então entendi tudo. E fiz uma trégua com Deus e pedi uma nova, uma novíssima, aliança contra nosso inimigo comum. Que agora vai sentir com quem está se metendo.
Estou aguardando a chegada de um tal de John Constantine que, segundo minhas fontes, vai me ensinar um truque ou dois nessa briga. Pois vocês sabem o que dizem dos boinas negras, não? “Eles não morrem, apenas se reagrupam no inferno para atormentar o demônio”.
Fim(?)
* Há consideráveis e sérios anacronismos neste texto. Peço que relevem. Este é apenas uma peça de fantasia acerca da impoluibilidade dos chamados “Anos Dourados”, sua aura etérea, seus gins-tônicas e cubas-libres. Nada mais dourado, portanto mais refulgente, que o sonhado... nada é perfeito, a não ser a própria fantasia.
Para Johnie Oct,
que certamente entenderá esta história.
como um brinde ao amigo ausente
e não a outros comediantes.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
É tarde
é tarde, muito tarde, e desperto não há ninguém
além de mim.
No andar de baixo, no salão
ainda ecoam os últimos acordes da orquestra
o espocar dos champanhes, o trinar da festa.
Ainda um par de dançarinos? Não, não.
É tarde, o sono não vem.
Tarde, muito tarde,
recordo meu bem
que me deixou numa noite fria de novembro.
Lembro também
Dum dia que em minha memória arde,
sim, era uma tarde de dezembro.
É tarde, simplesmente tarde
pra dizer o que devia,
pra honrar o que fazia.
Mas é cedo, para deitar no leito,
ter meu sonho refeito
e encontrar no sono
a santa paz do abandono.
