terça-feira, 3 de novembro de 2009
Lar
“Tenho certas desconfianças para com presuntos e seus congêneres.” Falou de si para si. “Mas este aqui está excelente!”, continuou, depois que deu uma boa dentada.
“Lugar melhor não há que o nosso lar” - é o que ele escreve à máquina.
Repouso para o sonhar,
nossa simples morada.
Possa ser castelo,
ainda que não tão belo
É sempre amada”.
Depois de escrever esses maus versos que doem de tão ruins que são, come mais um bocado do sanduíche. E depois bate as mãos uma na outra para limpá-las.
“Possa ser cabana,
mas tem de ser bacana
Quadro paredes, sim, senhor,
preenchidas com singelo e puro amor”.
A máquina de escrever deveria se negar a escrever tais idiotices. Mas a pobre nem resmunga.
O “morador” se ergue da cadeira, caminha até a janela e para diante do horizonte noturno recortado pelos perfis alaranjados dos prédios. As pessoas eram mais felizes quando as luzes das ruas eram brancas? Ou os besouros e mariposas atraídos acabavam com o charme?
O ventilador sussurra num canto do “quarto-e-banheiro”. Ou seria “quarto que é sala, cozinha, biblioteca, área de serviço e... quarto”?
É tão singelo, tão reduzido... pequeno, mesmo. Mas cabe um mundo de possibilidades dentro dele.
O homem sorri para seu “apertamento”, volta-se e marcha como um rei percorrendo seus domínios.
Senta na mesa e escreve outros versos ridículos
que ninguém se dará o trabalho de olhar.
E se sente absolutamente feliz em seu retículo
pois tem um canto para chamar de lar.
AXB
De algum lugar do passado
Foi um jantar beneficente realmente esplêndido e Nathan fez questão de comentar isso. Disse ao garçom que transmitisse seus parabéns ao cozinheiro pela soberbo banquete. Depois ele pediu licença aos comensais de sua mesa e se afastou, assim ficou livre para vagar pelo belo casarão de arquitetura antiga.
“Só mais uma semana, e então... a França. Finalmente a Legião Estrangeira”. - Pensou ele. “Tenho esperado este momento por toda a minha vida”.
Ele caminhou lentamente pelo corredor rica e detalhadamente decorado. Pela idade da casa, a reforma tinha sido recente. Ele adorava arquitetura, ainda mais a clássica da década de 1920. Compridas portas de madeira suavemente envernizadas, com molduras envidraçadas de textura rebuscada. Colunas trabalhadas. Era uma bela casa. As pessoas que construíram e que viveram ali devem ter sido muito felizes.
Era uma coisa que ele não conseguia explicar. Eram sonhos de infância que agora lhe pareciam muito detalhados. Não era à toa que algumas pessoas chamavam de “memória de outras vidas”. Não é uma coisa que um menino de cinco anos saiba, veja na televisão ou leia. Não com tantas minúcias. Não com tanta... força. Tanto sentimento, como uma saudade do que não se sabe. Como um trecho de uma canção tão linda que leva às lágrimas... mas não se lembra a melodia. Ainda que os acordes estejam na ponta da língua.
Sua mente estava imersa naquela atmosfera de passado e sonho enquanto ele vagava pelos saudosos passeios. Ele pedia silenciosamente uma resposta. Uma resposta para aquele nó em seu peito. Então ele sentiu o perfume. Um perfume antigo, cheio de melancolia e alegria esmaecida. Era o aroma da nostalgia. Era a fragrância da saudade. Era um cheiro que nem as rosas, nem qualquer outra flor do mundo, tinham mais. Era de um tempo feliz. De dias maravilhosos. Noite brilhantes e inesquecíveis. Era o cheiro carregado tristemente pelo tempo.
- É uma casa tão linda, não? – perguntou uma voz feminina às suas costas.
Nathan se virou para encontrar uma figura de sonhos: de pé em meio ao belíssimo jardim, uma moça de 20, talvez 24, anos, de cabelos tão pretos que não refletiam a luz das antigas luminárias, e cortados à moda das moças de Chicago da época de Al Capone. Tinha uma pele alva e suave.
Ela era alta para a média das mulheres que ele conhecia. E para um olhar rápido, mas de profissional, parecia ter um corpo bonito, se não escultural, por baixo do diáfano vestido preto. Ela era toda uma cópia dos costumes da época em que a mansão fora construída. Nathan não soube dizer se achou isso por que a casa estava influenciando seus pensamentos, ou se por que sempre admirara a graça daqueles tempos.
O que importa, é que ela estava ali. E não parecia um fantasma. O rosto dela, sorridente, tinha um ângulo muito belo. Não era nem quadrado, nem oval. De certa forma, era impreciso como um rosto que se tenta lembrar dos detalhes e não se consegue. Tinha olhos amendoados com um tom de mistério por causa da maquiagem escura. Seu nariz era afilado, perfeito. Tinha uma boca suave, belos lábios e pequenos dentes brilhantes. Ela era simplesmente linda.
O sangue de Nathan dava espasmos lentos e cadenciados nas artérias de sua garganta. Sua boca secou. A respiração parou. E seu rosto demonstrava a mesma expressão de alguém que encontra uma pessoa que pensava estar morta. Por um meio segundo que ele pensou ser um século, ele ficou suspenso. Então retomou o controle de si, respirou fundo e disse com um sorriso radiante:
- Maravilhosa. Algumas pessoas se dariam por satisfeitas em poder olhar uma vez na vida e guardar tal beleza na memória. Outras gostariam de olhar para sempre. Há certos tipos de casa, como essa, em que eu entro e sinto como se conhecesse... Eu adoro casas assim, me fazem muito feliz.
A moça riu docemente. Havia notas musicais em seus lábios.
- Você sente a mesma coisa que eu. Isso é estranho para você? Eu estou meio confusa...
- Não. Não é estranho para mim. É mais como se eu estivesse esperando isso a minha vida inteira.
- A gente já se conhece...
- Há muito tempo. – ele respondeu resolutamente.
- É, há muito tempo.
- Você quer passear comigo?
- Adoraria.
Raras são as vezes na vida em que os sonhos invadem o mundo desperto. Bem aventurados aqueles que se deparam com um acontecimento desses. Ele lhe ofereceu o braço gentilmente. Ela aceitou, faceira. E saíram a caminhar lentamente pela alegremente melancólica luz do corredor. Então ele lembrou. Uma lembrança doce, mas pesarosa.
- Quer se sentar aqui? – ele perguntou diante de um banco.
- Você sempre gostou desse banco.
- É. – respondeu sorrindo.- É o meu lugar com você.
Sentaram-se e ficaram alguns instantes num silêncio denso.
- Eu tenho tanto o que falar... Queria te dizer tantas coisas importantes... Mas agora eu não consigo lembrar de nada mais importante que estar aqui. Eu vi você em meus sonhos, sabe? Eu sinto que conheço você, mas não lembro. É como uma palavra que se sabe, mas não se recorda precisamente: uma memória surge no baú das minhas lembranças. Rápida. Fugidia por entre muitas outras coisas, e logo... logo não está mais lá. E aí me dá tanta saudade, não sei de onde, não sei do quê. E às vezes eu me sinto partido ao meio. E, então... então...
Continua...
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Domingo de Outubro
Há um cheiro de infinitude no ar. Os pombos ciscam à minha frente e mal se afastam ante minha presença. Eles têm os pescoços acobreados como alguma verdade do passado e testemunham o mesmo brilho de sol que eu, como se fôssemos os irmãos que creio sermos.
As ruas murmuram gracejos. As risadas são o vibrar do pneu dos carros sobre o asfalto, correndo ao longe. Domingo é um dia de descanso. Hoje até as torneiras estão silentes, as pias sem obrar. O martelo não bate, as pás estão encostadas.
Caminho devagar aspirando aquele ar divino. As mãos cheias de sacos de compras.
Numa casa de teto baixo, um tanto acanhada, de humilde jardim, mas, ainda assim, belo, toca preguiçosa num radiozinho de pilha uma canção que fala de mar, sol e amor.
O tempo passa lento e feliz, o que não impede que logo depois eu chegue em casa e me dê vontade de voltar e caminhar o dia inteiro pelas ruas desertas, ouvindo os discretos sinais de existência das pessoas por trás dos umbrais das casas.
Todos ressonando em sua paz dominical rotineira e profundamente conhecida.
A tudo isso, meus amigos pombos assistem. Depois giram as cabeças em voltas curtas e bruscas, olham-me, sorriem com seus bicos, ciscam mais um pouco e depois saem voando no céu de um domingo qualquer de outubro.
AXB
Ores
por todos os fatores
e fadigas ad honores.
Lanço meu louvores
a mais bela das flores,
do vento os frescores,
do mais doce dos odores.
O que se dirá de suas cores
e de todos os seu pendores?
Vou-me embora para as Açores!
Que me importam os licores,
os ardis e seus olores?
Que me prendam os pretores!
Que me persigam os caçadores!
Oh, vis perpetradores!
Ignóbeis cometedores
de lástimas e plenas dores.
E se tu fores?
E se cairdes de amores,
Bela rosa de olhares comprometedores?
De minha vida, quais setores
causam-me mais rubores
que a peleja dos pescadores?
apesar inexistentes meus artísticos pendores
já vi piores horrores,
que estas rimas incultas, meus senhores.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Cuando Calienta el Sol
Ouço um murmúrio a meu lado e quando ergo meu Ray-Ban Aviator Caravan vejo minha bela Mariko sentando na cadeira ao lado.
Ela é minha flor de cerejeira, minha gueisha. Todo seu pudor de japonesa, todo seu mistério de mulher oriental transmudados em graça e doçura. Uma dama sedutora, de sensualidade rebuscada e discreta, com seus pequenos e estudados gestos. Ela me olha e sorri como se eu fosse o melhor dos homens.
O sol brilha, o mar é cristalino e o sorriso de Mariko refulge como uma supernova, aquecendo meu coração. A vida é maravilhosa.
Então, por que eu sinto medo? Por que essa sensação de iminente desgraça? A sensação que tenho é a de alguém que está ouvindo a mesma música que agora soa pela praia e, de repente, começasse a se ouvir “L’Ultima Neve della Primavera”.
A intuição iminente de tragédia.
O quarto do hotel é de um branco imaculado. A roupa de cama, a estampa das cadeiras, as toalhas. Formam um belo contraste com o verde-mar das paredes de vidro da varanda. Impecável. O ar-condicionado ligado deixa o quarto ainda mais agradável. A meu lado, Mariko ressona em sua siesta. Tudo transmite um ar de elegância e conforto. Paz e tranqüilidade.
Mas aqui, na minha cabeça, não cessa esse temor do instante seguinte. Algo acontecerá a qualquer momento.
A noite é fantástica. Poucas vezes em minha vida participai de um luau tão animado, e eu participei de muitos, inclusive alguns foram verdadeiras orgias! Mas esse aqui foi efetivamente o melhor. Como uma noite de perfeição. Não sei como conseguem colocar uma orquestra inteira com os pés na praia. Mariko está radiante. Nunca a vi tão bela. Dançamos ao som de nossa canção, repetidas vezes graças a meus insistentes pedidos ao Maestro Luiz Rodriguez.
Brindamos com o melhor champanhe, saboreamos o banquete e nos amamos sob o aroma luxuriante das argemonas e das dálias. E tão certo quanto intui, os agouros se concretizariam. Mas naquele momento eu esqueci tudo e vivi a pura felicidade nos braços daquela linda a amorosa mulher sob os auspícios das brisas noturnais de Acapulco. Seus risos e os sons daquela noite ainda ecoam na minha memória.
+++
Dez anos depois daqueles dias em Acapulco, eu estou sentado num banco do Memorial Lincoln em Washington. A tarde é fria como uma pedra de túmulo. Acho que o termômetro sou eu. Não creio que há nada mais enregelante que minhas veias.
Meus instintos não mentiram para mim, o que se sucedeu àquelas férias no México ultrapassam qualquer medidor de desgraça que eu já tenha visto, dos furacões aos terremotos, passando por tsunamis.
Mariko faleceu dando a luz a nosso primeiro filho, Angelo, que expirou depois de uma dolorosa semana de tratamento. Os médicos não puderam fazer nada para nenhum dos dois. Eu sei disso, eu conferi, eu corrigi, eu verifiquei milhões de vezes o procedimento para buscar algum culpado. Vivo, não havia.
Depois veio o Vietnam e a ilimitada capacidade humana de perpetrar a dor e a crueldade em seus semelhantes. É enlouquecedor se perceber louco. As coisas que você faz numa sanha de auto destruição... até o momento que nem se incomoda com o cheiro do sangue seco, preso na sua pele.
Vocês, ilustres espectadores do teatro das sombras onde se encena a peça da minha vida, devem ter percebido que passamos por maus bocados durante nossas existências. Isso é fato. Todo mundo sofre. Mas o dia seguinte é melhor. Pode ser. Às vezes acontece. Isso é bom... viver. Mas há um momento, depois de alguns acontecimento, que não há vida, mesmo seu coração estando batendo dentro do peito. E você se torna inimigo de tudo, principalmente de si mesmo.
Quando não achei um culpado vivo pela morte de minha família, eu passei a culpar o maior de todos os mortos. Sim, o que fez todos os vivos: Ele. E o amaldiçoei, neguei seu nome, não três vezes, mas uma três mil. “Nunca mais”, eu gritava, meu olhar vergastando o céu, “nunca mais!”. A fúria sob minha pele, percorrendo meu corpo.
Ora, mas que bobagem. O que Ele poderia fazer? Levou um tempo, mas eu consegui saber quem tinha feito tudo. No Laos, uma mulher que dizia falar com espíritos, numa aldeia perdida no delta do Mekong, olhou para mim e disse que eu era o maior servidor do “Mal”. Assim em letra maiúscula. “O caído”, “o caído”, como se fosse eu quem tivesse caído.
Não era assim, quem tinha me derrubado e me arrastado para o fundo da lama infecta dessa existência renegada já havia caído há muito tempo. Quando o mundo era uma criança. Sim, aquele ser alado metido a besta que se achava muito gostoso porque tinha uma lanterna nas mãos. “Estrela da manhã”, era seu título de idiota. Bom, então entendi tudo. E fiz uma trégua com Deus e pedi uma nova, uma novíssima, aliança contra nosso inimigo comum. Que agora vai sentir com quem está se metendo.
Estou aguardando a chegada de um tal de John Constantine que, segundo minhas fontes, vai me ensinar um truque ou dois nessa briga. Pois vocês sabem o que dizem dos boinas negras, não? “Eles não morrem, apenas se reagrupam no inferno para atormentar o demônio”.
Fim(?)
* Há consideráveis e sérios anacronismos neste texto. Peço que relevem. Este é apenas uma peça de fantasia acerca da impoluibilidade dos chamados “Anos Dourados”, sua aura etérea, seus gins-tônicas e cubas-libres. Nada mais dourado, portanto mais refulgente, que o sonhado... nada é perfeito, a não ser a própria fantasia.
Para Johnie Oct,
que certamente entenderá esta história.
como um brinde ao amigo ausente
e não a outros comediantes.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
É tarde
é tarde, muito tarde, e desperto não há ninguém
além de mim.
No andar de baixo, no salão
ainda ecoam os últimos acordes da orquestra
o espocar dos champanhes, o trinar da festa.
Ainda um par de dançarinos? Não, não.
É tarde, o sono não vem.
Tarde, muito tarde,
recordo meu bem
que me deixou numa noite fria de novembro.
Lembro também
Dum dia que em minha memória arde,
sim, era uma tarde de dezembro.
É tarde, simplesmente tarde
pra dizer o que devia,
pra honrar o que fazia.
Mas é cedo, para deitar no leito,
ter meu sonho refeito
e encontrar no sono
a santa paz do abandono.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
A verdade da música dita erudita
Tu, ca nun chiagne!
Comm'è bella 'a muntagna stanotte
Bella accussí, nun ll'aggio vista maje
N'ánema pare, rassignata e stanca
Sott''a cuperta 'e chesta luna janca
Tu ca nun chiagne e chiágnere mme faje
Tu, stanotte, addó' staje
Voglio a te
Voglio a te
Chist'uocchie te vonno
N'ata vota, vedé
Comm'è calma 'a muntagna stanotte
Cchiù calma 'e mo, nun ll'aggio vista maje
E tutto dorme, tutto dorme o more
E i' sulo veglio, pecché veglia Ammore
Tu ca nun chiagne e chiágnere mme faje
Tu, stanotte, addó' staje
Voglio a te
Voglio a te
Chist'uocchie te vonno
N'ata vota, vede a te!
Tradução:
Tu, que não choras!
Como é bela a montanha esta noite,
Bela assim não a vi nunca!
Uma alma parece, resignada e cansada,
Sob a coberta desta lua branca.
Você que não chora e chorar me faz,
Você, esta noite, onde está?
Quero você!
Quero você!
Esses olhos querem,
Outra vez, ver você!
Como é calma a montanha esta noite,
Mais calma que agora, não a vi nunca!
E tudo dorme, tudo dorme ou está morto,
E eu só acordado, porque vivo é o amor.
Você que não chora e chorar me faz,
Você, esta noite, onde está?
Quero você!
Quero você!
Esses olhos querem,
Outra vez, ver você!
***
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
O Vôo Estrambólico dos Bem-te-vis.
Pela janela do departamento, eu vejo o vôo estrambólico dos bem-te-vis.
Sentado em minha cadeira giratória, no escritório, eu ouço seu canto agudo e bastante alegre.
O mundo para. O sol brilha sobre as plantas do imenso jardim. E eu me sinto mais vivo.
Aí, logo em seguida, dá que vejo o meu sorriso no reflexo das paredes de vidro e me sinto meio morto.
Pelejo, mas não consigo te esquecer.
O bem-te-vi me vê. Então penso que a esta hora, numa árvore vizinha a teu quarto, canta também um bem-te-vi. Aí fico imensamente feliz porque lembro que vi e que vivi.
E saio do meu gabinete assobiando feliz. Muito feliz.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Pra não ficar na saudade...
E quanto mais se diria de um lírico, culto e um tanto místico (no sentido de fervor religioso):
Apocalypsis Ioannis
Capitulum Sextus, Versiculum Octus
"Et vidi: et ecce equus pallidus; et, qui sedebat desuper, nomen illi Mors, et Infernus sequebatur eum; et data est illis potestas super quartam partem terrae interficere gladio et fame et morte et a bestiis terrae".
---
Poderoso, não?
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Sob a vista do beiral
O velho senhor Edge sentou no sofá de couro do Hotel Rei de Cuba, fez alguns movimentos com a boca, que era seu jeito de começar histórias longas, e, por fim, começou a falar:
- Ele olhou para trás e disse para mim: “Está vindo uma tempestade, Edge”. - o velho passou alguns instantes calado, a frondosa barba branca pousada sobre a pálida pele de pergaminho. Depois moveu a cabeça para sua esquerda, os olhos encoberto pelos óculos escuros, apesar de ser noite. - Então ele voltou sua face para o horizonte que avistava da janela do quinto andar. E pulou.
“Foi um movimento gracioso, como se ele realmente fosse um grou. Depois, a queda. Acharam o corpo lá embaixo. Como é que eles dizem? Geléia! Isso. Sim, choveu naquele dia. Sim, a tempestade que ele previu realmente se abateu sobre a cidade, como um sucesso dos anos oitenta sobre os corações das jovens moças daquele tempo. Você sabe, com todos aqueles, como eles chamam? Não sei, com todos aqueles toques de sintetizadores e teclados berrantes e estroboscópicos. Arpeggiones, é isso.”
“Bom, mas sobre a tempestade... nuvens carregadas, negras e relampejantes... sim, tudo aquilo. Aspecto tenebroso. Mas voltando a “ele”... pois é, pensaram que ele estava morto. Choraram sua morte, ninguém entendeu o motivo de seu “suicídio”. Ficou a interrogação no ar: “por quê? Por quê?”.
“Você quer saber a verdadeira história? Ele não caiu. Ergueu os braços para os lados, lançou-se no ar com um impulso vigoroso e descendeu do ar em loops extremamente rápidos. Caiu, sim. Caiu com estrépito: o solo afundou e parte da cerâmica do piso foi lançada no ar por causa do impacto. Um dos joelhos estava no solo, o pé direito plantado no chão, quase que literalmente”.
- Parecia um deus antigo da Guerra. Eu lhe digo, até um cego como eu podia ver aquilo.
