A Ceifeira de Almas
- Você se esqueceu de mim, Nathan? – a pergunta soou mais como uma afirmação.
A Indesejada das Gentes me olhava a poucos passos de distância, diretamente nos olhos, às vezes me olhando de alto a baixo, como que a medir o que eu me tornara. Como dizer à mulher que ama que você esqueceu seu amor? Que o tempo passou e o sono do esquecimento pousou sobre sua cabeça?
- Oh, você se esqueceu de mim, Nathan. – Ela continuava a dizer. E o fazia com tanta dor na voz, que faria o mais rude dos homens chorar. Mas o que aquela frase me fazia sentir? Perdido? Como um menino pequeno que derruba seu creme? Como aquela criança, com o visgo da vida pregado no rosto, com os sentidos impregnados da novidade que é a vida jovem, que acaba de descobrir o amargor da decepção?
- Sim, você se esqueceu de mim, Nathan. – Ela repetiu. E eu não sabia mais se estava consciente ou não. Eu não a olhava com dureza. Eu simplesmente devolvia seu olhar suavemente, quem sabe docemente, doloroso, com uma expressão de quem tenta lembrar de um amor antigo na porta de um cinema, numa noite que não é nem mais nem menos importante que um dia perdido e esquecido.
- Por que você se esqueceu de mim? – E ele se lembrou de Seu sorriso. Lembrou-se de quanto a amou. De quantos anos esperou por sua chegada. Quantos anos haviam passado? Quantas vidas eu vivi? Assim, lembrei num átimo como quem despertou uma lembrança adormecida, agora tão vívida como se fosse o ato de preparar o café cinco minutos atrás.
- Como você se esqueceu de mim? – Recordei minha infância, a adolescência, cada minuto mais distante da lembrança dessa Minha Dama, Minha Eterna Senhora, e, paradoxalmente, cada instante mais perto de sentir novamente seu abraço e seu beijo derradeiro.
“Eu me esqueci de Ti, ò Senhora, porque estava nos braços de outra Dama, a Vida, esta que faz esquecer, que em nossas almas comprime memórias para que o Tempo apague aos poucos as recordações mais antigas. Eu me esqueci de ti porque a Vida me deu outros sabores além dos que Tu me deste para provar. Esqueci porque a Vida me presenteou com outros amores, mostrou outras paisagens e cores que no Teu Reino não há.
Ó, Minha Doce Senhora Morte, se eu fui um dos Primeiros Homens, há quantas gerações permaneci afastado das Tuas terras? Eu, que nunca mais retornei? Como explicar que a cada tiquetaquear dos relógios, embora eu esteja mais próximo fisicamente, mais distantes e fracas restam minhas lembranças de Ti?
Será que esta eternidade que passei nos campos da Vida apagou as carícias que Tuas mãos me fizeram? Tantas eras assim afugentaram o amor que por Ti nasceu em mim? Mais atormentado estou eu ao perceber a loucura de Te esquecer! Angustiado por constatar que as recordações do meu amor se esvaneceram com o tempo”.
Como você consegue esquecer quem amou tanto e por tanto tempo? Como pude esquecer a promessa que fiz, jurando que nunca A esqueceria, não importando o que acontecesse ou quanto tempo eu permanecesse distante?
Como esquecer Esta que é a Única que amo?
Como pode um homem amar a Morte?
- Das Crônicas Nathanianas. Livro: A Amada Senhora Morte.

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