segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

O Que me Persegue

Essa é das antigas...


O QUE ME PERSEGUE

Uma pequena peça

(Oberon) A mesma maldição que nos persegue é a mesma bênção que procuramos, por qual tão ansiosamente desejamos alcançar.


(Nostromo) Nada importa?

(Oberon) Não algumas vezes.


(Nostromo) E noutras?

(Oberon) Não sei. Parece-me que pisamos em cacos de vidro, mas não sai sangue de nossas feridas. Caem lágrimas.


(Nostromo) Por quê? Por quem?

(Oberon) Alguns dizem que são pelos outros. Outros o dizem que são por eles mesmos.


(Nostromo) Egoístas?

(Oberon) Sim. Ou não. O ato de amar outrem tão abnegada e tresloucadamente é perigoso. Terminamos por acabar com o amor verdadeiro em nosso interior. Não sobra mais nada, sequer para nós.


(Nostromo) Autocomiseração?

(Oberon) Não. Não existe isso, a não ser na cabeça dos existencialistas e dos psicólogos. O que existe é autodestruição.


(Nostromo) Explicação?

(Oberon) Suponho que não há, meu caro. Embora todos tenham e nenhuma valha.


(Nostromo) E há algum motivo?

(Oberon) Todos temos os nossos, você tem o seu e eu o meu. Ninguém explica o do próximo. Esse sentido de se aniquilar, de se arrebatar à loucura do esquecimento, desespero e angústia de nunca ter coragem. E pior: o arrependimento, remorso de nunca o ter feito, ao se deparar com a verdade.


(Nostromo) Perdão?

(Oberon) Há. Mas somos nós mesmos que temos que conseguir. Ou ainda, apenas eu, talvez, possa me perdoar. A questão é: Eu o farei? Como? Quando? Onde? Por quê?... Por quê?


(Nostromo) Não há por que...

(Oberon) Creio que não... quanto maior o pecado, maior a cruz. Tomara Cristo não me ouça, por que isto soa meio herege.


(Nostromo) Então, nada mais importa?

(Oberon) (Oberon) Bem, como já lhe disse: não algumas vezes.


(Nostromo) Eu não posso acreditar...

(Oberon) Entendo, afinal, você também não pode ser perdoado...


(Nostromo) Mas eu lutei tanto... com todas as minhas forças...

(Oberon) Eu também. E sinto como se nada tivesse valido a pena... sabe, algumas vezes eu desejo nunca ter nascido. É o sabor de algo perdido, que me persegue...

O mal do ser humano não é sua ambição, não é a civilização nem a esterilização.

O mal do homem é ser humano.



CONTINUA?(...)

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