terça-feira, 30 de setembro de 2008

Lettera a Signora Ladina

Gentildonna Ladina, Cara Mia


Poucas vezes em minha vida eu li textos que realmente merecessem ser lidos. Seu comentário, presente no texto “Abraço”, é um deles. Eu o imprimi e carrego comigo em minha maleta negra, desiludida e de ar muito grave.


Não é nem tanto pelo fato de escreveres muito bem, mas pela leveza (e certeza) com que te exprimes. Você acertou em cheio no alvo. Disse tudo o que se merece dizer.


Agradeço a Deus, Meu Senhor; Iavé, Deus de Israel e Allah, o Grande e Misericordioso, por ainda encontrar pessoas interessantes, com conteúdo e que tenham algo a dizer, em vez de manterem semelhantes grandezas confinadas em seus próprios juízos.


Eu nunca vi ninguém desmontar com tamanha proficiência, genialidade (e gentileza!), o mecanismo de minha própria comiseração. Foi como uma feliz vivissecção de minha alma, além de um verdadeiro ensaio Saramagano sobre o amor.


E, sim, ajudou sim. E muito. Decifraste o mistério: paixão. Diagnosticaste a patologia: medo da liberdade. Resumiste em cinco parágrafos a solução de um impasse humano de milhares de anos: o amor. Sinto-me feliz porque aprendi uma verdade tautológica e eterna com suas premissas.


Não tenho palavras a altura de minha gratidão. Agradeço a atenção, aprecio imensamente seu interesse e satisfaço-me com seus ensinamentos. Nunca alguém havia me vencido em meu próprio campo de batalha e segundo minhas peculiares - e confusas - regras.


Parabéns pelas palavras, pela sensibilidade e por ter parado sua caminhada, olhado as trevas no abismo abaixo (eu) e ter se dado ao trabalho de iluminar o (meu) interior.


Regaste o chão ressequido e, vejo, já nasce o broto de uma nova árvore... chamada esperança.


Grazie a Lei, Carissima Donna Ladina

Tanti Grazie


Agora volte ao quartel, mas não passe pelo mercado, pelo amor de Deus... rsrs.


Allan

O Retorno – Parte III


Nial parou na porta do quarto. Nathan estava deitado no sofá com as mãos apoiando a nuca e os olhos fechados. O irmão pensou que ele devia estar dormindo, porque sua respiração estava lenta e profunda.


No tórax desnudo percebiam-se os pronunciados feixes de músculos e muitas tatuagens.


“Pois não é que ele foi mesmo? E agora volta...” – pensou Nial.


- Você vai passar o dia aí? – perguntou Nathan, agora de olhos abertos. Os irmãos se abraçaram demoradamente.


- Você nos fez muita falta, principalmente para ser educado e gentil ao falar com esses vizinhos chatos que nós temos. – disse Nial.


- A-há. – riu sem muita vontade Nathan. Ele se sentou no sofá reclinável de um lugar, enquanto o irmão se acomodou em sua cama de solteiro.


- E como foi por lá? – Perguntou Nial.


- Do jeito que contei pelos e-mails. E pelas fotos no Orkut.


- Não, é sério: Como foi lá?


- Tudo o que eu imaginava que seria. E mais um pouco.


- Sempre é mais um pouco do que pensamos.


- Hum, poderia ter sido eu o autor dessa frase. Você está muito parecido comigo.


- Eu sei. Mamãe me disse a mesma coisa. Mas é porque, com sua partida, eu tive que preencher uma lacuna que apareceu com o tempo. – Nathan sentou reto e apoiou o queixo nas mãos. – Com sua ida se abriu um vácuo de humor, leveza e erudição.


- Eu não...


- Não se arrepende nem um pouco pelo que fez?


- Exatamente. Não me arrependo de nada.


- Eu sei. Eu também rezei pra que fosse assim. Aliás, rezar é um termo retórico. Continuo agnóstico, você deve saber. – após um instante de silêncio – É por isso que realmente preciso saber como foi lá.


Nathan se levantou, caminhou até a janela e olhou o horizonte. Passou alguns instantes assim.


- Marchar pela selva com cem quilos de material para carregar e seus companheiros cobertos de lama até a cabeça foi bom. O amanhecer no deserto quando se é o sentinela é muito bom.


Mas invadir o bairro nazista de Begran para acabar com aqueles palhaços foi a coisa mais fantástica que fiz em muitas vidas. Eu saí daquela cidade recoberto de ferimentos, carregando meu fuzil e achando que era um tipo de semideus. Foi realmente para aquilo que eu fui feito. E não há sensação igual a essa.


Acredite-me, falo com a propriedade de quem já experimentou de tudo um pouco: fazer amor com uma mulher bela e ardente, saltar de um avião, escalar uma montanha, ver uma criança nascer, receber uma medalha e ser homenageado pelo Presidente.


Nada disso chega perto da sensação de ser o melhor no que faz.


XXX

sábado, 20 de setembro de 2008

Tenção de poesia

Eu queria te fazer uma música bonita,

Testemunhando a vida que me fizeste ter

Narrando como me tiraste da desdita

Contando como terminaste meu padecer.


Mas saiba, amada Vésper, que não sou poeta,

Tenho apenas pensamentos loucos

Como quem dos mais negros sonhos desperta

Deixando escapar uns gritos roucos.


E nem sou trovador ou cancioneiro

Só faço uns poucos versos toscos

Prefiro certamente maio a fevereiro

por suas tardes de brilhos foscos.


Em vez dos climas primaveris

São outros ares que meus olhos anseiam.

Um dia ensolarado comigo não condiz

Só quando nele as belas moças passeiam.


Mais me apetecem os negros horizontes

Sob os quais a torrente vertida abunda

Banhando em êxtase nossas frontes

Bendita chuva que o meu coração inunda.


Vês, bela Dama, em minha rima não há critérios

Pois meto na mesma frase, pia batismal e cemitérios


Comecei por fazer-te uma simples homenagem

E o devaneio poético de mim tomou conta

Como vastas idéias que aportam em viagem

Ou ninfa louca que, em sonhos, nos apronta.


Assim, perdeu-se minha sobriedade

Visto que permeada de tristeza

Saiu uma rima mais fiel à tua beleza

Que à amargura de minha saudade.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O Casamento de Minha Dama

Quando minha dama me convidou para seu casamento
Com outro, devo dizer de passagem,
Senti no peito, de morte, um intento
E na alma tremer tempestade e voragem.

Mordido por um mortal percevejo
Logo eu disse: estamos muito mal,
Pois é a primeira vez que vejo
me chamarem para o meu funeral

O noivo era um tipo bisonho
De cara amassada e nariz redondinho
Tinha um ar tristonho
De pássaro novo que caiu do ninho

A noiva toda faceira, achando que com aquela besteira me veria passar mal,
ficou logo arretada, pois duma forrozada levantei poeira no meio do arraial

Disse-me um amigo: ômi, deixe esse castigo
Saia daqui e desapareça, pois se no chão tu der outra pancada,
sai com a vista vazada e um furo n’umbigo

Pensei bem, pois a ninguém agradou esse meu desatino
Saí daquelas bodas que me causaram tanta agonia
Caminhei sem prumo, chorando feito menino
pelo sertão noturno que só a lua cheia vigia.

Sentei num toco árvore, bem ao chão rente,
e quedei-me a prantear minha tristeza
Solitário e abatido neste pobre batente,
Porque não prendi meu amor com firmeza.

Assim termino essa história doída:
Melhor morrer de morte matada
Que passar sem amar na vida,

Mas nem que morras de pancada,
nunca deixe de dizer, rapaz,
o que sente à mulher amada.


xxx

sábado, 13 de setembro de 2008

A Melodia, substantivo feminino


De todas as artes humanas, a que mais me emociona é a música. E como sempre amei o sexo feminino com profundo ardor e devoção, foi inevitável que meus amores se entrelaçassem a canções.


Acho que sempre procurei uma mulher que fosse uma melodia realmente bonita, não que apenas valesse a pena ser “cantada”.


Uma bela música começa quase sem se sentir, quase sem se dar conta que é uma canção. Mas há um instante em que você para e diz: “mas que música bonita!” Depois está assobiando a melodia por todos os lugares em que passa. Com um pouco mais de tempo, você não consegue mais esquecer. Está lá quando vai dormir e continua quando acorda.


E o dia mais feliz da sua existência é aquele que você finalmente descobre qual é a música da sua vida. Ela pode ser vigorosa como uma composição de Beethoven, ou suave como um ninar de Brahms. Pode transpirar paixão como um mambo ou ser plena de sedução como o tango.


Muitas vezes é triste e dolorosa e quanto mais parte o coração, mais se quer ouvir. Pelo menos para alguns. Não importa como são, mas como soam. Tanto faz se são bregas, desde que vibrem em seu coração tão agradavelmente quanto em seus ouvidos.


Quanto a mim, alguns cantos fazem doer, mas outros timbres, rejubilar. E eu continuarei as ouvindo enquanto puder e darei graças a Deus por tanto!


Porque, cá entre nós, o som mais pungente, doloroso e eloqüente que uma mulher pode fazer ressoar contra você é o próprio silêncio.


- AXB

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Os Contos de Niljhabend – Um Feiticeiro Ancião

Numa vila localizada nas montanhas da Germânia havia uma feira que acontecia nos dias sagrados. Todas as crianças das redondezas acompanhavam seus pais àquela feira, pois havia um homem que contava histórias longas e emocionantes histórias. Ele chegava junto com as primeiras luzes do dia. Usava um longo hábito cinza com um capuz sobre a cabeça e que escondia seu rosto. Seu caminhar era lento, sutilmente arrastando uma perna e apoiando o corpo com um longo cajado de madeira.


Era um ermitão que vivia em uma pequena cabana na floresta. Tido por alguns como bruxo, por outros como um sábio estudioso que se enclausurara por vontade própria e considerado pela maioria como um simples e útil velho contador de histórias que mantinha as crianças quietas até que os pais concluíssem seus negócios.


Ele sempre iniciava suas histórias assim:


“Eu sou Ioan Trinitatus, nascido nas terras romanas. Conheci uma época em que a magia vivia sobre estas terras, tempos em que os dragões rasgavam os céus como espadas, e os homens ainda eram heróis e ousavam enfrentar e vencer os deuses antigos. A história que vou contar acorreu naquele tempo.


Era uma vez um garoto nascido numa família de comerciantes de riqueza recente. Atravessavam reinos vendendo suas velas famosas por durarem mais, e possuírem maior luminância, que as comuns. Ele era uma criança calada e aparentemente perdida num mundo só por ele conhecido.


Ora, as pessoas ordinárias desconheciam que aquele garoto havia nascido com a marca dos Fiadores da Magia, aqueles que podiam usar as forças invisíveis aos demais viventes a seu favor, assim.”


De repente surgiu uma bola de fogo na mão direita do contador de histórias. Mas, tão rápido quanto apareceu, o fulgor logo se extinguiu. As crianças espantadas murmuraram em uníssono: “Ooohh!” E aplaudiram em seguida.


“Um dos escravos da família percebeu, a despeito dos demais, as possibilidades do jovem. Percorrendo todas as bancas de sábios e feiticeiros da cidade, adquiriu alguns dos muitos pergaminhos existentes que tratavam de histórias de magia. O garoto cresceu aprendendo pequenos truques e escondendo suas habilidades de todas as outras pessoas. Um dia, quando tinha 17 anos, o escravo, que lhe era tão querido e a ele afeiçoado, deu-lhe um aviso: “Meu senhor tem um potencial tão grande quanto a dos sacerdotes da minha cidade natal, na Pérsia. Não deixe que tal poder se perca, nem que seja usado para o mal. Grandes poderes trazem grandes responsabilidades. O senhor deve buscar o sábio Serigius Gurg que vive nas florestas da Gália Cisalpina e aprender mais sobre essa Força.


Então ele partiu, deixando toda a família e o mundo conhecido para trás. Sofreu inúmeros perigos, passou fome e sede, mas encontrou o sábio Serigius Gurg, que o acolheu depois de alguns testes. Ali passou cinco anos se aprofundando nas artes mágicas. Quando aprendeu tudo o que seu mestre podia ensinar, foi enviado por este à Ordem dos Magos ao leste, há muitos dias de viagem, numa terra sem nome, fria e escura.


Lá, antes de ultrapassar os portões da cidadela dos magos, deixou para trás seu nome e acolheu um novo: Octavius, e que seria famoso no futuro pela alcunha de o “Irmão dos Ventos”. Ele foi um dos heróis mais importantes daquela era, embora poucas pessoas saibam de suas façanhas. Ele lutou contra um mal que ameaçava dominar toda a terra.


Mas agora é tarde, crianças, vão encontrar seus pais. Por hoje chega de histórias.”


Levantou-se com dificuldade e saiu caminhando apoiado em seu cajado, o corpo inclinado levemente para frente.


Assim eram os contos de Niljhabend.

XXX

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Um dia esquecerei

Um dia esquecerei o que dizias quando, no banheiro,

lavando com teu sabonete, o meu rosto,

nu e relaxado sob o chuveiro,

ao percorrer meu corpo, teu olhar tinha um desejo posto.


Um dia esquecerei o que fazia quando me jogaste na cama

Ainda molhado e não mais relaxado, tocaste minha pele,

Tua mão quente e teu olhar carente pediam: “diz que me ama”.

Tomei-te nos braços, beijei-te o regaço como quem as horas repele.


Um dia esquecerei o que querias quando no nosso leito

Acariciei os teus seios, passeei na tua pele e afaguei tua alma.

Tua carne era minha, tristeza não tinha, tudo era perfeito.

Depois do amor, entregues ao sono num universo de calma.


Um dia esquecerei aquele abandono quando depois do sono

A minha mão com a tua mão envolvias.

Sob teu olhar de amante, eu te perguntava: Ressono?

Tu, radiante e perfeita, folgavas e rias.


Um dia esquecerei o que sentia e pensava quando fui deveras feliz.

Com terno amor e infinita paixão construímos nossa alegria.

Agora vestida de negro e com ar congelante tu és a atriz

Que encena a peça mais triste do palco da minha melancolia.



- AXB

Despedida de ShadXen

À persona de Shadzeen (ou Shadxen, caso queiram) sou muito grato. Foi o Sandman quando quis sonhar e ter os olhos velados. Foi Conan quando precisava me erguer e partir em dois o objeto da minha ira.


Mas isso é coisa de adolescente. É uma máscara. E, como toda máscara que fica cerrada ao rosto por tempo demasiado, acaba a face tomando a aparência da fantasia.


Hoje de manhã quando acordei, Lorde Shadxen ia longe na curva da estrada que passa pelas Montanhas dos Heróis, que ficam nas terras do sonhar.


Ele parou um instante, olhou para mim do alto de seu corcel negro, sorriu e acenou. Aos poucos seu manto escuro sumiu na imensidão das serras.


Ele não falou, mas foi como se quisesse dizer que agora eu devia caminhar com minhas próprias pernas.


E é o que farei.


AXB

domingo, 7 de setembro de 2008

Esfarelando

Estou me esfarelando como o reboco da casa nos dias de chuva...

Tenho me sentido assim desde o dia em que te mandei embora, pela segunda vez. Nesse dia eu mordi minha carne com tal força que na boca ainda tenho vivo o gosto de sangue.

No peito não tenho coração. O único órgão que se manifesta tem um som de teclado antigo, com aquele tom triste tal qual uma corneta num toque fúnebre.

Num dia desses, caminhando pelas ruas da cidade que não mais me pertence, vi ao longe um vulto de moça... que era como o teu. Pensei que era você. E o coração falhou uma batida... quando voltou a bater, deu uma pancada tão doída, como se martelassem o peito com uma picareta.

Acho que fiquei lívido. Caminhei o resto do meu doloroso dia com a mão no peito.

É hora de deixar você para trás, meu amor...

Estou morrendo um pouco a cada dia. Vejo suas fotos às escondidas. Mantenho uma parte de você viva. Mas não posso viver assim, é... simplesmente enlouquecedor.

Devo partir pois o mundo me lembra você do alvorescer ao fim do dia.


E fico assoviando uma canção do Charles*, "Et Pourtant", que diz:

"Uma bonita manhã sei que despertarei

Diferentemente de todos os outros dias

E o meu coração livre, enfim, do nosso amor

E no entanto, e no entanto


Sem remorso, sem uma lamentação partirei

seguirei sem esperança de regresso

Distante dos olhos, distante do coração, esquecerei para sempre

E o teu coração e os teus braços

E a tua voz

Oh, meu amor!


E no entanto, no entanto, eu só amo você

E no entanto, no entanto, eu só amo você

E no entanto, no entanto, eu só amo você

E no entanto


Arrancarei, sem uma lágrima, sem um grito

As linhas secretas que rasgam a minha pele

Me liberando de você para encontrar o descanso

E no entanto, e no entanto


Andarei para outros céus, outros países

Esquecendo a tua cruel frieza

As mãos cheias de amor oferecerei à felicidade

E o dia e as noites

E a vida

de meu coração


E no entanto, no entanto, eu só amo você

E no entanto


É necessário que eu reencontre a minha razão

A minha indiferença e os meus impulsos de alegria

Que eu parta para escapar de ti

E no entanto, no entanto


Em outros braços quando esquecerei até o teu nome

Quando puder reconsiderar o futuro

Tornar-se-ás para mim uma remota lembrança

Quando o meu mal e o meu medo

E as meus lágrimas

Vão terminar


E no entanto, no entanto, eu só amo você".


E isso é de matar.


XXX


* Charles Aznavour, cantor francês, que, à propósito, se apresentara no Siará Hall em Fortaleza, CE, dia 19 desse mês.

O Abraço

Eu já havia desistido de tentar entender porque não consigo te esquecer, Vésper, quando, um dia, olhando pela janela do carro, vi um casal de namorados abraçado. Era como se os dois estivessem paralisados. Na verdade era como se o próprio tempo tivesse se detido para dar mais tempo àquele par. Então, antes do semáforo abrir, eu concluí, me reportando a você, claro, que não conseguia te esquecer por causa do nosso abraço.


É certo que não te deixo ir de meus pensamentos porque a lembrança do amplexo que unia nossos corpos está gravada na minha memória, como a impressão do que é macio e caloroso está gravada na mente do ser humano, e este se lembrará nitidamente de tais sensações ainda que se passem muitos anos sem senti-las.


Acho que isso justifica a acenestesia que domina minha vida. Não tenho nenhum bem-estar desde que meus braços se afastaram dos teus braços. Porque todos os abraços que tive depois dos teus sempre me deixaram uma pontada de dúvida depois de um tempo, de outros a sensação foi imediata.


Porque um abraço com cheiro de rosas, sob um odor teu, que não sei como era igual ao meu, acariciar tuas costas, afagar teus cabelos longos, sentir teu respirar sobre meu peito e te segurar com força até que murmurasses... é um fato histórico: não se esquece assim tão facilmente. Ainda mais se for único. Ou pelo menos tiver sido único.


É uma coisa que acontece em nossas vidas como uma epifania: sentir o vento acariciar nossa face, o mundo parar, o silêncio se assentar, os problemas meus e do mundo fenecerem e o brilho das estrelas, como fotografias antigas que são, paralisarem-se. E me sentir seguro. E me sentir amado.


Bom, são essas coisas que vêm à nossa mente numa noite de sábado, quando as crianças não brincam mais na rua, há um vento frio no ar, mas ainda não é inverno e a alegria dos amigos de sempre não nos diverte mais. É qualquer coisa como escolher músicas de cantores antigos e ouvi-los cantar com nossa voz as suas próprias mágoas passadas. Um bem não sentir-se sozinho em nossa dor que não traz qualquer alento ou diminuição em nossa solidão.


Tudo isso por conta do teu abraço que um dia foi meu, mas hoje não mais me enlaça.

Numa agourenta noite de agosto

Numa agourenta noite de agosto, Melquisedeque estava tomando banho. Ele estava meio receoso, olhando repetidamente a porta do banheiro, através do vidro do boxe. As gotas da água fria que caíam do chuveiro ao contrário de acalmá-lo, só o deixavam mais preocupado.

Então, enquanto ensaboava o braço, percebeu um movimento fora do banheiro, no corredor, com o canto do olho. Um homem entrava no recinto com uma pistola prateada apontada para ele.

O susto foi tão grande que ele ficou alguns instantes sem reação. O homem continuava mirando diretamente seu rosto sem qualquer indício de hesitação ou insegurança.

- Você deve ter vindo para me matar, não é? – perguntou Melquisedec. O homem aparentemente era do tipo que não falava em serviço. Diante de seu mutismo bastante confirmador, continuou – Antes de você atirar, posso saber quem mandou você?

- Sua ex-amante, Pompília. – finalmente o homem abriu a boca.

- Ah, entendo. – antes que o assassino entendesse o que estava acontecendo, a um gesto do homem que estava se banhando, a arma foi arrancada de suas mãos por alguma força invisível e atravessou o boxe com tal violência que as lâminas de vidro que o circundavam explodiram em minúsculos fragmentos.

Antes que todos caíssem no chão, uma figura enorme, vestida de negro e com a cabeça coberta por um capuz, surgiu no ar. Com outro rápido gesto o ar se encheu com um barulho horripilante, tal qual mil demônios gargalhando e gritando no ar, acompanhado de uma ventania como se um furacão tivesse acabado de se formar dentro do banheiro.

O teto explodiu e a figura negra partiu voando, levando consigo o assassino girando no ar como um peão. Cruzaram o céu numa velocidade tão grande que mal foram percebidos pelas pessoas.

Chegaram na lateral de um prédio de três andares. A figura negra flutuava diante do último andar quando, a um gesto, o prédio se abriu no meio. Algumas pessoas caíram, outras se desmancharam no ar, como que centrifugadas. O barulho de demolição foi ensurdecedor.

Então, diante da porta de um apartamento, uma moça tinha o rosto deformado pelo pavor. A figura negra deve ter dito algo, mas não se sabe o quê. Voltou-se para o pistoleiro e girou uma mão cadavérica, cujos ossos brilhavam sob a luz da lua. Em um piscar de olhos o homem foi desmembrado, seus pedaços caíram no raio de um quarteirão.

Virou-se para moça e disse algo. Calculo que foi algo apropriadamente triste e belo, mas não sei ao certo. Só sei que fez outro gesto e o prédio inteiro explodiu em chamas. A figura negra sumiu.

Não sei, mas, se tivesse acontecido comigo, eu teria feito do mesmo jeito.

XXX

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Apenas mais um dia de feira.

O soldado vestiu a calça e se recostou na cama. Olhou para a moça, acendeu um cigarro, pigarreou e, por fim, disse:


- Se você quer que eu diga que não me importo, saiba que não vou fazer isso. Quero que saiba que fiquei muito chateado. Quero dizer, me magoou muito quando soube. Aliás, eu tive um ataque, pra ser bem sincero. Faltou força nas pernas. Pensei que o chão estivesse me engolindo. Fiquei sem ar, engasguei o choro. Mas sabe por quê?


- Não. – Respondeu a moça seminua sob os lençóis, estendendo a mão para tocar a dele.


- Porque fiquei preocupado com você. Quer dizer, primeiro eu fiquei com um vazio me sugando por dentro, pensei no que você deve ter sentido... lembro de tudo o que você falou, do medo que tinha e tudo...


- Não... não me lembra disso, por favor.


- Também fiquei com muita raiva. Pensei que você tinha mudado completamente, que não era mais a mulher que tinha conhecido... amado, na verdade. Sabe, eu pensei: “Quem é ela que não assume a responsabilidade pelos seus atos?” Onde está aquela mulher forte? Hã? Onde está aquela mulher que amei?”.


Ela ficou em silêncio. Olhando para o chão. Então ele continuou:


- Mas... depois de um bom tempo, finalmente percebi que a culpa foi minha. Que fui eu que te mandei embora da minha vida. E você não tinha mais nenhuma satisfação a dar para mim. Que tudo aconteceu como conseqüência de meus atos.


Ela se espreguiçou e aproximou do rosto dele para lhe dar um terno beijo.


- Bom, depois veio a guerra. Mas no meio de tanto horror eu só pensava em você... você sabe porque eu fugi de você?


- Vamos esquecer isso, tá bom? – ela se levantou da cama, contrariada.


- Olhe pra mim. Eu tenho... eu preciso te dizer isso.


Ouviram um barulho no aposento contíguo ao quarto de hotel em que estavam. Ela vestiu uma blusa e correu para lá. Uma criança, aparentemente com um ano de idade, pulava dentro de um cercado.


- O que foi, meu filho? – a moça pegou a criança nos braços, que gargalhou.


- Ver vocês dois é a coisa mais linda desse mundo. – disse o homem, com um jeito mais sério que o comum, parado ao lado da porta.


- Você não fica chateado por ele não ser...


- Não. Até porque... – ficou um instante em silêncio.


- O quê?


- Até porque eu não posso ter filhos.


- O... quê? – ela perguntou tomada pela surpresa.


- Era isso o que eu queria dizer. Eu sou infértil. Soube disso num dos muitos testes que fiz naquele tempo. Você deve lembrar. Eu lembro como você ficou chateada com tudo.. o que... aconteceu. Mais ou menos como eu fiquei.


A moça colocou a criança de volta no cercado e apoiou as mãos nas laterais do berço com uma expressão de quem estava aturdida.


- Nossa! Nessa posição toda pensativa você fica parecendo comigo.


Ela se virou e aplicou várias tapas na cara e no peito dele.


- Seu desgraçado! Por que não me disse?


- Pare. – disse ele com firmeza - O que eu podia fazer naquela época? O que eu podia te dizer? O que podia oferecer? Nada. A chama da minha vida estava apenas contando as horas para se apagar. Não podia ser renovada, nem passada adiante. Talvez tenha sido isso o que mais me doeu quando eu soube que você estava grávida de outro. Saber que eu não podia...


Ela ficou de pé com os braços cruzados. Estava prestes a dizer algo, mas não conseguia concatenar as idéias. Ele sentou na beira da cama. Apoiou as palmas das mãos uma contra a outra e depois as estendeu na direção dela.


- Meu amor... eu amo teu filho como se fosse meu. E quero criá-lo com você. Porque eu te amo.


Ela sorriu.


- Agora me dê um abraço, porque tenho que voltar ao quartel.


Ele saiu e nunca mais voltou. Coisas da guerra. Coisas da vida. Explodiram uma bomba enquanto ele passava pelo mercado. Mas os noticiários não deram muita atenção. Afinal, era apenas mais um dia de feira.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Num dia de feira

A mulher caminhava pela feira quando viu, ao longe, um rosto familiar. No mesmo instante surgiu dentro de si a sensação de rever um fantasma. Quando o homem finalmente estava próximo o suficiente para não deixar de vê-la, baixou os olhos e escondeu seu rosto.


Após dez anos sem ver aquele homem, a única vontade que ela tinha era a de olhar bem fundo em seus olhos e dizer tudo o que sentira durante todo aquele tempo.


- Olhe para mim. – disse ela, postando-se diante do homem. Ele parou de caminhar, inteiramente consciente da presença dela, mas não conseguiu erguer a face e encará-la.


- Olhe para mim! – ordenou a mulher. A única reação dele foi um crispar de lábios.


- OLHE PARA MIM! – ela berrou no meio da multidão que a mirou aturdida. Dessa vez ele olhou e seus olhos estavam tão marejados que pareciam querer explodir em lágrimas. Até que, finalmente, longas e dolorosas lágrimas escorreram pela face do homem. – Já faz dez anos, pelo amor de Deus! Eu mereço pelo menos isso! Não me amaldiçoe assim! Fale comigo...


- Quando eu soube, - começou ele, lentamente – do... do que aconteceu depois que parti... senti uma dor tão forte que cheguei a pensar que me desmanchava em pedaços. Eu me tremia tanto que parecia estar em dois lugares ao mesmo tempo. Tive raiva, me banhei em ira. Até cheguei a te odiar. Quis te amaldiçoar, cheguei a invocar a juras mais nefastas, mas aí...no vazio do meu coração, eu percebi que a culpa de todo aquele sofrimento era minha, somente minha.


“Porque foram meus atos que causaram tanta tragédia. Eu fiquei decepcionado comigo mesmo de tal forma que pensei seriamente que deveria estar morto para não sentir semelhante dor. Mas dor de quê? Dor no espírito? A alma não sente dor, só sofrimento.


Esse sofrimento acontece porque as coisas acontecem contra nossas vontades. Mas eu não tinha o direito de sofrer nada. O que não me impediu de sofrer por você. Porque eu imaginava o que você estava sentido. E sabia que era eu quem devia estar lá para segurar sua mão e dizer que estava tudo bem. Porque você sempre esteve no meu coração e no seu altar, aqui no relicário do peito meu. E eu sempre rezei por você.


Eu sei que você já se cansou de ouvir isso, mas... bem, por favor, me perdoe.”


Aquela mulher já sofrida, no alto de seus trinta e um anos de idade, um olhar sábio e envelhecido pelas tempestades, estendeu as mãos para tocá-lo. Suas unhas se cravaram no peito do homem.


- Devolva-me esses dez anos. Devolva-me minha vida!

- Eu não posso... não posso. Eu ainda tenho pesadelos com uma mulher vestida de preto erguendo uma criança ensangüentada nos braços e dizendo: “Você é culpado disto”.

- Eu pensei que ia morrer... – ela chorou com a cabeça em seus ombros.

- E eu que já estava morto.


Ele a olhou e gentilmente afastou uma mecha de cabelo que cobria o rosto dela. E viu os mesmos olhos que o amavam como tantos anos antes o havia feito.


- Tive notícias suas... Você fez tantas coisas que eu... – ele a interrompeu, colocando a mão sobre seus lábios, pegou as sacolas dela que estavam caídas no chão e uma cesta de frutas que ele levou à feira.


- Onde está seu marido? – perguntou ele, levando-a junto de si enquanto atravessava a multidão que os observava.


- Eu... eu me separei. Faz algum tempo já. E você, se casou?


- Casar, eu? Ora vamos... não tinha nenhuma vontade. Além do mais, cá entre nós, eu não reencontrei a mulher da minha vida. Não, eu não esqueci nada.


E saíram caminhando até o pôr-do-sol.


Ou era amanhecer? Não sei. Não lembro. Mas era assim, num dia de feira.

XXX