quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A voz que propaga

Esse é do tempo do bumba...


Toda mentira nasce de uma verdade ou toda verdade deriva de uma mentira?

Talvez não. Todas as mentiras são verdades. Todas as verdades são mentiras.

Depende da voz que as propaga.

Todas as frases mais ensaiadas soam falsas. No entanto, as frases que dizemos a nós mesmos soam firmes e são as mais belas. Mas quando as dizemos, quando outros a ouvem, nossas vozes parecem sair por um velho cano de ferro, roucas, abafadas e gaguejantes. Não somos nós quem as diz.

É de outra pessoa. Lembra um calhorda falando. Nos enoja, nos angustia ouvir nossa própria voz. Talvez detestemos o som de nossa voz, porque, em certos momentos, ela parece ter vida própria. E diz o que quer, mas soa totalmente desconhecida. É um pesar, voz louca e irreconhecível, vergonhosa que todos notam não sair de nossas bocas.

Não temos a voz dos poderosos, mas a dos subservientes. Não temos a voz que faz rugir as feras, mas a que se cala ante os chicotes. Não temos a voz que levanta os oceanos em fúria ou que comanda os ventos desabridos.

Nossa é a voz cansada, nossa é a voz tola, irracional.

Nossa é a voz engasgada na garganta, voz presa de tantas tristezas, gutural. Voz que pede gritos para se fortalecer, para saber se se existe de verdade. Se não é um sonho. Ou um sonho dentro de um sonho. Ou um cair nas brumas.

Aqui eu paro e encaro a chuva. Pois a chuva não reclama da minha voz. E até permite que eu grite de vez em quando.

Minha é a voz que propaga a chuva.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Coisas Grandes e Sábias

Ainda das antigas...




Eu gostaria de dizer-vos coisas grandes e sábias, como só os homens grandes e sábios soem dizer.

Eu adoraria transmitir-lhes pérolas de conhecimento. Fazer-vos acreditar que a vida é plena e bela. Que o universo é infinito como nossas possibilidades.

Mas não posso. Não neste exato momento, e, com toda franqueza, acho que em nenhum outro.

A vida é tão curta. Há afogamentos, há desmaios e, sobretudo, há até dor de barriga. Há tristeza e melancolia em pleno carnaval. Há dor de monta e sofrimento sem conta.

Nós somos fracos e frágeis. Raros, sobretudo o que há de melhor em nós, são os melhores dentre nós. Até porque só os bons morrem jovens.

Há desamor e esquecimento. Não, esquecimento não é tão doloroso quanto o relembramento.

Eu comecei este testemunho sem saber o que queria dizer. Só esperando que as palavras surgissem naturalmente. Como sempre fazem. Sem muito sentido. Como amor de carnaval.

Porque, como eu sempre digo, não é necessário sentido. É necessário sentir-lo.

Será que agora, diante da face asquerosa da vida, eu me retrairei? Afastar-me-ei das outras pessoas? Porque a vontade que tenho agora é de me isolar. Nem escrever eu sei. Não há nada em que eu seja realmente muito bom e que eu queira realmente fazer. Exceto uma. Essa que parece impossível. Esse meu Sonho de Guerra. Desejo fora do qual nada na vida parece ter sentido.

Então, quando você realiza seus sonhos percebe que tudo vale a pena. Que não somos mais pequenos e frágeis. Que tudo é grandioso e infinito.

Oh, meus sonhos, quem me dera vos realizar!

- S.X.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

A Ceifeira de Almas

Continuando com textos antigos... esse é de 2004.


A Ceifeira de Almas


- Você se esqueceu de mim, Nathan? – a pergunta soou mais como uma afirmação.


A Indesejada das Gentes me olhava a poucos passos de distância, diretamente nos olhos, às vezes me olhando de alto a baixo, como que a medir o que eu me tornara. Como dizer à mulher que ama que você esqueceu seu amor? Que o tempo passou e o sono do esquecimento pousou sobre sua cabeça?


- Oh, você se esqueceu de mim, Nathan. – Ela continuava a dizer. E o fazia com tanta dor na voz, que faria o mais rude dos homens chorar. Mas o que aquela frase me fazia sentir? Perdido? Como um menino pequeno que derruba seu creme? Como aquela criança, com o visgo da vida pregado no rosto, com os sentidos impregnados da novidade que é a vida jovem, que acaba de descobrir o amargor da decepção?


- Sim, você se esqueceu de mim, Nathan. – Ela repetiu. E eu não sabia mais se estava consciente ou não. Eu não a olhava com dureza. Eu simplesmente devolvia seu olhar suavemente, quem sabe docemente, doloroso, com uma expressão de quem tenta lembrar de um amor antigo na porta de um cinema, numa noite que não é nem mais nem menos importante que um dia perdido e esquecido.


- Por que você se esqueceu de mim? – E ele se lembrou de Seu sorriso. Lembrou-se de quanto a amou. De quantos anos esperou por sua chegada. Quantos anos haviam passado? Quantas vidas eu vivi? Assim, lembrei num átimo como quem despertou uma lembrança adormecida, agora tão vívida como se fosse o ato de preparar o café cinco minutos atrás.


- Como você se esqueceu de mim? – Recordei minha infância, a adolescência, cada minuto mais distante da lembrança dessa Minha Dama, Minha Eterna Senhora, e, paradoxalmente, cada instante mais perto de sentir novamente seu abraço e seu beijo derradeiro.


“Eu me esqueci de Ti, ò Senhora, porque estava nos braços de outra Dama, a Vida, esta que faz esquecer, que em nossas almas comprime memórias para que o Tempo apague aos poucos as recordações mais antigas. Eu me esqueci de ti porque a Vida me deu outros sabores além dos que Tu me deste para provar. Esqueci porque a Vida me presenteou com outros amores, mostrou outras paisagens e cores que no Teu Reino não há.


Ó, Minha Doce Senhora Morte, se eu fui um dos Primeiros Homens, há quantas gerações permaneci afastado das Tuas terras? Eu, que nunca mais retornei? Como explicar que a cada tiquetaquear dos relógios, embora eu esteja mais próximo fisicamente, mais distantes e fracas restam minhas lembranças de Ti?


Será que esta eternidade que passei nos campos da Vida apagou as carícias que Tuas mãos me fizeram? Tantas eras assim afugentaram o amor que por Ti nasceu em mim? Mais atormentado estou eu ao perceber a loucura de Te esquecer! Angustiado por constatar que as recordações do meu amor se esvaneceram com o tempo”.


Como você consegue esquecer quem amou tanto e por tanto tempo? Como pude esquecer a promessa que fiz, jurando que nunca A esqueceria, não importando o que acontecesse ou quanto tempo eu permanecesse distante?


Como esquecer Esta que é a Única que amo?


Como pode um homem amar a Morte?


- Das Crônicas Nathanianas. Livro: A Amada Senhora Morte.

Dica

Aos caros leitores que por ventura se ressintam das diminutas letras destes textos, recomendo que aumentem a letra do seu navegador com o simples artifício: aperten e segurem a tecla control (Ctrl) e movam o botão circular do mouse para baixo até que fique no tamanho adequado a sua leitura.



abraço.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

A Noite

Para arejar alguns textos antigos que estão guardados há muitos anos neste meu computador, aproveito este blog para dar-lhes um banho de sol.

Aqueles eram outros tempos de som e fúria. E eu mal me reconheço nessas linhas...



A noite.

Sou noctívago por natureza, escolha e inclinação. Amo a noite por que ela me esconde em seu seio de amante e me distancia desses problemas tão pequenos e apenas imaginários, reputados tão grandes pelas pessoas ditas sérias.

A noite me acalenta com seu sopro de vida e me libera de meus ódios, medos e desesperos de uma forma doce. Sem ter que retirá-los do meu peito à força.

A noite perdoa meus erros e minhas faltas. Ela me entende, por que ela entende os que sofrem, os que andam de dia como zumbis. Só a noite tem a paz que preciso, procuro e espero.

A noite me esconde de meus inimigos. A noite adormece os idiotas do mundo, para que possamos sonhar. Traz o vento uivante que embala meu sono, e me faz esquecer que tenho vontade de matar os estúpidos metidos a besta.

A noite e sempre a noite, me faz esquecer as dores do dia e a sandice do ser humano.

Muitos se dizem noctívagos como eu. Alguns o são. Vivem a noite na doce paz de espírito. Uns se perdem mais na noite que durante o dia, jogando suas vidas por ilusões insensatas. Estes são perdidos por natureza.

Já outros, são os pobres insones. Detestam a noite por que não conseguem descansar com seus enlevos. Esses são atormentados por seus atos. Mais até do que posso imaginar. Permita-me Deus que eu nunca me torne um destes.

Que eu possa usufruir da aura feérica da noite. Perder-me em sua escuridão, regalar-me na frescura de seu colo.

Eu amo a noite como amo o sopro do vento e o rugido do mar. Por que eu sinto nestes a Santíssima Trindade.

Talvez eu pudesse voar pela noite. Ver a cidade com outros olhos. Ver a beleza de uma cidade à noite é como ver uma pessoa dormindo. Ela está ali, indefesa, tranqüila. No ápice de sua intimidade. Uma cidade à noite é como a amada sorrindo, é como um livro aberto ao alcance da mão. Por isso mesmo, não é menos bela.

No silêncio noturno, ouve-se a voz da vida. Companheira de aventuras e desventuras. Paciente como o infindável girar do globo terrestre, a noite é minha melhor amiga, protegendo-me com seu véu negro.

A noite é tragicamente bela e belamente trágica. Nostalgia é o perfume noturno. Doce é a voz da lua sussurrando contos infantis em nossos ouvidos, para que, no dia seguinte, não enlouqueçamos com a falta de sentido da vida.

Ainda vivo, por que, enquanto todas as outras coisas me dizem “não”, a noite sempre me dirá “sim”.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Avô, pelicano, chocolates...

Uma das lembranças mais felizes que tenho da minha infância era o dos finais de semana com meu avô. Ele chegava em casa com uma sacolinha de papel pardo (sim, naquele tempo ainda não havia a febre de sacolas plásticas dos dias atuais) da “Cantina do Oliveira”, como se chamava o supermercado predileto dele.

Tinha um pelicano impresso na lateral da sacola. E dentro sempre havia o meu chocolate, que seria ou já era, predileto: o chokito.

Hoje imagino como deveria ser para ele sair de ônibus de sua cidade, com problemas nos pés, balançando seu molho de chaves na mão e estupendamente feliz porque ia visitar seus netos.

Naquele tempo de eu jovem. Tudo era novidade e merecia ser olhado com atenção, profundidade e cuidado. Até o cheiro das coisas, dos dias, da vida, enfim, eram diferentes. Era o cheiro perene de dias gloriosos por virem.

Era o cheiro que acompanhava uma sacola de pelicano com chocolates. Cheiro de vida nova e ingênua.

Meu Deus, meu Deus, dai-me sempre essa certeza que hoje tenho de que as coisas que nos trazem maior felicidade são também as mais simples: Avô, pelicano, chocolates e um cheiro de vida nova e ingênua.