- Meu filho, eu estou morrendo. - E eu, meio que melindrado, retruquei de imediato:
- E não estamos todos? – Mas eu já sabia o motivo daquela conversa. Ele tinha câncer. E essa doença cruel já havia se alastrado por seu corpo.
- A conta de meus dias está bem mais curta que a sua, tenha certeza, heh! – Deu aquela sua risada habitual. – E é tão bom, tão glorioso, poder ver tudo a meu redor com tanta clareza e nitidez. Eu agradeço a Deus poder chegar ao fim do meu “programa” assim lúcido.
Eu fiquei calado, sem ter o que dizer, mas logo ele atalhou:
- Vamos, não fique assim. Quero que você saiba de algumas coisas sobre a vida e a proximidade de seu findar.
A primeira coisa é: faça o que fizer de sua vida, esteja sempre atento às conseqüências. Se você planejar algo cujo fim não deseja de antemão, não o concretize. Isso se chama ponderação, que nasce da sabedoria e traz a dignidade consigo.
A segunda é: não viva sua vida com temor. A existência do homem já é demasiado limitada para que ele diminua ainda mais seus horizontes por causa do medo.
A terceira é: Faça com que sua vida valha a pena. Eu mesmo cheguei a pensar que minha existência não teve significado e que eu não fiz nada para ajudar o mundo ou tornar mais alegre a vidas das pessoas. Então eu olho para você e me vejo como num espelho de juventude. Você é a centelha da minha vida que permanecerá. Você é meu presente para o mundo e meu legado para o futuro. Você, seu irmão e seus primos, além de seu pai e suas tias, são o que resta de mim. O que continuará.
No mais, você decide.
Não vou ficar enchendo sua cabeça com as ruminações de um ancião. E não fique assim, tão triste. Tudo tem a sua hora. Eu mesmo já enterrei a mulher que amava, meus pais, irmãos e irmãs. Nada mais justo que me reúna a eles agora.
Meu filho, não te deixo fortuna ou fama assim tão grandiosa. Esse velho aqui só te deixa as lições que aprendeu com os próprios erros. Você herda todo o meu amor incondicional. Porque o vi nascer, crescer e se tornar o bom homem que você é hoje. Eu mesmo ensinei uma coisa ou outra que espero terem tido valia. Diga a seus filhos quem eu fui e o que fiz.
Agora vamos que sua tia está chamando para lanchar.
E bateu nas minhas costas, naquele seu jeito rápido e de leve, como de quem está envergonhado, e seguiu pelo corredor no seu passo lento. Lá dentro seus pássaros cantavam.
(xxx)
Meu avô Cirilo Cardoso de Oliveira faleceu aos bem vividos 78 anos de idade, em 10 de janeiro de 2008, numa bela e ensolarada tarde de sábado. Foi um dos homens que eu mais amei nessa vida, foi meu pai e amigo. Professor e conselheiro. Tinha um sorriso luminoso e uma ponderação sem tamanho. Vocês poderiam reconhecê-lo de longe: era um homem afável que caminhava devagar pelas ruas do Crato, assim, meio curvado, com um pé hesitante. E batia compassadamente o dedo no seu molho de chaves.
Eu absorvi a essência dos atos e palavras do meu avô, que sempre me ensinou a fazer a coisa certa, ainda que fosse a mais difícil. A sempre dizer a verdade, não importando o quão dura fosse. E respeitar as pessoas, quem quer que fossem, como pensassem ou agissem. Sou, graças a ele, um reflexo de seu caráter.
Ele foi um irmão muito querido por seus oito irmãos e irmãs, pai amado por seus três filhos e idolatrado por seus quatro netos. Foi estrela do rádio, galã e boêmio. Sogro denodado e um tio profundamente estimado por seus sobrinhos. Serviu ao Município do Crato, e a seu povo, com absolutos desprendimento e integridade durante todos os anos em que trabalhou como tesoureiro.
O mundo ficou mais triste sem o seu sorriso e eu menos sábio sem os seus conselhos. Não tenho mais sua voz acolhedora para consolar minhas agruras, nem seus olhos bondosos que, ao me verem, já diziam: “Eu já vivi isso e já sofri como você. Sei como se sente. O que posso dizer é que vai passar, meu filho. Porque Deus dá a lição necessária para que cada um de nós aprenda a viver. Depois nos cabe aplicar na vida o que aprendemos”.
Assim, direi aos meus filhos quem foi o meu avô: foi um bom homem, gentil e charmoso, de opinião e atitudes firmes, que na vida tropeçou e caiu, mas, como só fazem os mais fortes e valorosos, se reergueu e se manteve de pé com dignidade até o dia em que morreu.
Foi o ser mais maravilhoso que conheci e o exemplo de homem de bem que quero ser.
Allan Xenofonte de Brito
11 de janeiro de 2009.

2 comentários:
Se todas as pessoas bem soubessem que essa é a verdadeira herança que os nossos familiares podem e devem deixar para nós.
A riqueza de palavras, de gestos e de atitudes, a riqueza espiritual.
Se você me permite estou pegando para mim também essas lições.
Abençoado seja você e a sua família.
Abraço!
Allanzinho, Tini te ama e sente um orgulho danado de ser tua prima!!!!
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