O covil era um antro de feitiçaria disfarçado de inferninho. Seu nome era Secos e Molhados. Ainda hoje fica na Rua São Pedro, entre grandes prédios comerciais no centro da cidade. De dia o movimento é fraco, mas nem assim inexistente.
Mas é à noite que o Secos e Molhados mostra sua real força. A entrada é uma porta de menos de um metro de largura. Duas pessoas não passam por ela ao mesmo tempo. Embora, desde que me entendo por gente, nunca a vi fechada.
As entradas ficam atulhadas de bicicletas “barra circular” da Caloi. As calçadas, de motos caindo aos pedaços e uma ou outra mobilette do tempo do bumba. E a rua, de chevetes, corcéis n.º I e fuscas amassados. Deve ter sido assim desde os tempos do Padre Cícero, com as devidas adequações históricas.
Mas a história que quero lhes falar me remete às primeiras vezes em que fui a um cabaré. Eu molecote de catorze anos, ainda de suspensórios, cismei de andar com as partes rígidas onde quer que fosse, mas sem me dar muita conta disso, nem a devida importância.
Meu pai, percebendo aquele desmantelo, mandou logo Fortunato, homem de confiança, bom de faca, bala e mãozada, me levar ao randevu dos Secos e Molhados. Certo que foi uma precipitação de meu pai, eu ainda não era homem, só menino descobrindo certas brincadeiras novas. Mas, como dizia Célia Rasga-Lata: nenhum cliente sai insatisfeito.
A Madama da casa, sabida que só ela, disse na frente de Fortunato: “Não tá vendo que esse menino é muito pequeno, omi? Que ele ainda não pode com corpo de mulher em cima dele? Seu patrão tá ficando doido é? Vá se divertir, já tá tarde e eu boto o menino pra dormir. De manhã você o leva pra casa.”.
Aquilo me tranqüilizou. Fosse o que fosse que meu pai tinha mandado fazer, agora não era pra eu fazer mais. Mandou uma mocinha novinha, pouco mais velha que eu, muito gentil e paciente, me levar pro quarto dela e me deitar na rede.
A moça, Alequissandra, como soube depois, muito prestimosa, e habilidosa também, passou comigo na cozinha e me deu um copo de leite quente. Levou-me para o quarto, onde tirou minha roupa com o intuito de me vestir num moletom.
Ela tinha uma beleza brejeira, olhos muito vivos de um castanho-escuro e os cabelos negros amarrados numa trança bem feita. Tinha o corpo cheio, mas não parecia ser gorda. Só sei que dava gosto ficar olhando para ela.
A única coisa de diferente era uma fina corrente de prata que ela trazia amarrada no tornozelo e arrastava pelo chão da casa. Sempre mantinha os olhos baixos quando próxima à Célia e lhe falava só quando indagada, respondendo com respeitosos murmúrios.
Quando a moça tirou minha camisa e abaixou minhas calças, lá estava ele. Teso. Ela deu umas risadinhas, me vestiu e colocou na rede. Quando me cobriu com o lençol, passou, acidentalmente, a mão sobre o dito cujo. A resposta foi imediata. Assim, ela ficou alisando aquilo prali, praculá. E quando eu vi, deu uma cócega tão grande que eu mijei na rede.
Fiquei chateado, mas a moça não disse nada. Pegou um lenço e me limpou. Enrolou-me nas cobertas e deu-me um beijo na testa. Dormi de imediato.
Deus sabe que eu passaria o resto da minha vida fazendo isso: dormindo logo em seguida. E olha que eu dormi muito. Daquela vez sonhei que engravidava a rede.
Pois é, o tempo passou, vieram meus dezasseis anos. Dessa vez fui com tudo para o Secos e Molhados. Fui preparado para beber uns quarenta litros de leite e vestir quantos moletons aparecessem.
Só que dessa vez foi diferente. Um pouco. Alequissandra estava lá, do mesmo jeito que a vi dois anos antes. Toda rosadinha. Em vez de passar pela cozinha, ela me levou para um dos quartos donde rebrilhava uma luzinha vermelha na cabeceira da cama.
- Eita, como tu cresceu! – disse ela à guisa de conversa. E foi logo tirando minhas roupas.
Quando arriou minhas calças, levou uma cabeçada no queixo.
- Valei-me! – e ficou olhando entre intrigada e extasiada. – Cresceu, mesmo.
Fiquei admirado pelo fato de ele responder com a cabeça quando ela começou a acariciá-lo.
Depois ela o beijou levemente. Eu que estava com as mãos apoiadas na penteadeira dela para não cair para trás, nem vi quando ela o colocou na boca. Meus olhos se entortaram, pensei que ficaria vesgo. Logo em seguida me veio um “Ai”. E eu sujei todo o rosto dela.
Pensei que, dessa vez, ela fosse ficar chateada. Que nada, abriu um sorriso largo, limpou o rosto com um lenço e o dobrou com muito cuidado.
- Guardei a primeira. Agora guardarei essa. Você nunca se encontrou com outra mulher?
- Bom, teve a Rosinha, a gente andou de mãos dadas no jardim da casa dela...
- Mas ela pegou aqui? – e pegou no meio das minhas pernas com força, segurando as minhas partes entre seus dedos.
- Jesus! – gritei de surpresa – Não... a Rosinha? De jeito nenhum! – fiz uma cara de nojo. Ela sorriu.
- Você pensa assim hoje, mas vai chegar um dia em que essa moça... o que é isso?
Eu estava teso de novo.
Pelo que lembro, ela guardou a terceira, quarta e quinta. Depois eu dormi. Só acordei de manhã, com os galos cantando e o sol azulando o horizonte. Procurei Alequissandra, mas não a encontrei. Voltei pra casa, onde recebi uma bela duma reprimenda da minha mãe.
- Onde já se viu! Passar as noites nos cabarés e só chegar com as matinas! Puxaste mesmo a teu pai, aquele ali adora uma quenga.
No dia seguinte veio um capanga de Célia atrás do Fortunato. As negras que me disseram. À tarde Fortunato chamou-me num canto e perguntou: “O Sinhôzim sabe da mulher-dama Alequissandra?”. Não sabia.
Voltei ao cabaré, procurei por ela. Gritei ao procurá-la. No arroubo da minha juventude fiz um teatro infeliz, arrumei confusão, meti-me em desordens e brigas, só não fui preso porque meu pai era o meu pai. Procurei-a insistentemente. Célia Rasga-Lata recusava-se a ficar na minha presença.
Um dia, depois de algum tempo, cheguei embriagado ao Secos e Molhados. Levei uma arma, dei tiro nas portas. Por sorte não havia nenhum dos clavinoteiros de Célia. Entrei em cada quarto, percorri da entrada até o quintal. Que foi onde encontrei a porta do Covil, uma das inúmeras fronteiras entre o reino da realidade e o do Faz-de-Conta.
Levei um bom tempo para entender aquele lugar. Mas eu me informei, li, pesquisei, conversei com as pessoas certas.
Já se passou muito tempo, mas eu lembro bem. Passei a procurar sua trança em outros cabelos e a ver seu sorriso em outras bocas. Mas nada daquilo era o que queria encontrar. Descobri que a Rosinha era uma safada gulosa. Célia Rasga-Lata morreu anos depois.
Quando eu já estava quase esquecido de tudo aquilo, vi na biblioteca de Harvard um livro sobre mitologias da Idade Média. Falava da “Seiva do Herói”, mas não informava de que planta era essa seiva. Comentava sobre os poderes mágicos de cura e força.
Havia uma nota de rodapé bastante insignificante que se referia a um autor, um monge do extremo setentrião da Germânia, que mencionava o poder que “as cinco primeiras seivas vertidas em látegos” possuíam o condão de libertar fadas e ninfas de encantos de aprisionamento.
Guardei o livro e deixei a vida de pesquisas. Eu não era mesmo um herói.
Todos os Confrades sabiam dessa história. E temiam o que poderia acontecer comigo dentro do Covil. Mas eu tinha que voltar lá. Como um último adeus.
Continua ...

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