O Armazém Kibebe é a Valfenda da minha realidade. Lá não há elfas lindíssimas e totalmente sexy de orelhas pontudas e com aquela cara de que conseguem enlouquecer qualquer Passolargo, passomédio ou até mesmo um passocurto.
No entanto, lá há a cerveja mais gelada da região, mais saborosa que lembas, e de existência muito mais curta porque não pára nos copos dos Confrades comensais. O garçom é mais atento que Sauron, sempre de olho em tudo, e mais rápido que a carreira dos três últimos membros da Sociedade do Anel no resgate de Merry e Peppin.
É nossa fortaleza, refúgio nas horas mais incertas, sempre entre as dez e as vinte e duas horas dos fins de semana, santuário e ponto de encontro. Como já disse, eu cheguei por último.
Lá estavam os Confrontadores:
Sir John Eight, o Vice-cara, também conhecido como João 8. O grande Mago Octavius, Senhor das Ominosas Atribuições. Saboreava sua Brahma entre enternecido e jubiloso. Apesar disso, mantinha-se atento, sentado que estava na cabeceira da mesa. Tinha os gestos inquietos de quem espera algo magnífico acontecer a qualquer momento. Talvez a frase perfeita surgir do ocaso, talvez sua eleita surgir em seu corcel branco. O cavalo, não o carro. Digo isso para o caso de você ficar com dúvida.
Wolverine, o Destruidor, Quebra-Ossos e Torce-Pescoços, estava lá, taciturno como sempre. Jaqueta preta, capacete debaixo da cadeira, as costeletas lustrosas como as desenhadas pelo Jimmy Lee. Nosso Tropa-de-Choque pessoal. O encouraçado, panzer e arrasa-quarteirão da Confraria. Os músculos se remexiam impacientes sob a roupa. Pelo jeito, ele estrangularia o primeiro que espirrasse de um jeito feio. Tratei de assuar logo o nariz.
Marcelo, o Flagelo, também chamado de “Impiedoso Martelo”. Descendente dos últimos guerreiros Karirys, forte, bravo, enérgico. O espírito de nosso grupo. O de risadas francas, mas de ira profunda aos inimigos. Ai de quem ousasse se intrometer em seu caminho. Sentado de braços cruzados, balançando as pernas em evidente desconforto por estar ocioso.
E Frank, o ocultista. Nosso bibliotecário das Verdades Abscônditas, estudioso de todas as realidades, Filósofo das Portentosas Suposições Não Neurastênicas. Estava nervoso, estado de espírito que dificilmente se encontrava. O que me deixou mais curioso.
Reunidos os Confrades, Wolverine, que havia requisitado a Assembléia, iniciou os trabalhos. Tomou um grande gole de refrigerante de cola (não digo o nome para não fazer propaganda, nem pagar os direitos da marca), como quem toma coragem para falar de assunto enredado.
- Estou aqui para convocar uma Cruzada! – disse de uma vez.
Todos se espantaram imediatamente, entre murmurosos “oh”s e “ah”s, alguém levantou a voz:
- Uma Cruzada? – Era João 8. Fez um instante de silencioso suspense, ajeitou os óculos daquele jeito que parecia ser casual, mas que era estudado e cheio de significados. Então continuou: – Mas a Cruzada é nossa movimentação máxima, equivalente a uma Declaração de Guerra. Que assunto teria a importância de ativar semelhante aventura?
- He, he! Cruzada é foda, bicho... – comentou Martelo.
- Uma mulher... – ia respondendo Wolverine.
- Ah, isso sim é um motivo justo, nobre e de grande monta! – comentou João 8.
- É... afinal há mulheres que sempre dão uma boa cruzada... – filosofou Wolverine.
- É, Cruzada! – era o grito de declaração de João 8.
- Cruzada! – todos nós gritamos em uníssono.
- Calma, antes eu queria...
- Cruzada! – gritamos novamente, mais alto.
- Deixem-me falar...
- Cruuuuuuu-zadaaaaaaaa!!! – nesse momento, já estávamos histéricos. Acaso possuíssemos espadas e machados, já os estaríamos brandindo dependurados sobre as cadeiras do bar.
- Cala a boca, porra! – gritou Wolverine e tacou um tapa na parede. Ele não podia bater na mesa porque essas mesas de plástico de hoje em dia são umas merdas de frágeis, não são como aquelas mesas de madeira do tempo em que meu avô era jovem, galã e boêmio.
Mesas de madeira de lei, nas quais verdadeiras mãozadas podiam ser desferidas tranquilamente. Mãozadas estas que possibilitavam o clima, ambiente e momento perfeito para ébrias declamações, daquelas mais profundas e inspiradas, em alto e bom som. Para todo o bar ouvir. Até da rua, se fosse possível.
Declamações dos mais variados tipos e objetivos, das piadas mais imorais às declarações de amor mais ridículas. Ah, tempos bons aqueles. Não se fazem mais mesas como antigamente.
Bom, depois de todos acalmados pelas palavras coléricas de Wolverine, finalmente nos sentamos para ouvir os detalhes do pedido de lançamento da Cruzada.
- É o seguinte, há uma relíquia chamada Machina Puræ Possibilitatum.
- Máquina das Puras Possibilidades.
- É. Você já conhecia, Frank?
- Não. Mas é do latim...
- Certo, agora fica calado. Vocês se lembram de Silverfox?
- A tua ex. – falou João.
- Isso. É algo que tem a ver com ela. Mas não quero falar sobre isso agora. Só quando encontrar a Máquina das Puras Possibilidades.
Nesse meio tempo Frank já estava desesperado
- Caras, preciso da ajuda de vocês.
- O que foi? – perguntou Wolverine.
- Meu caneco está decididamente em perigo.
Continua ...

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