segunda-feira, 2 de março de 2009

Capítulo Experimental II: O que não se faz num antro de bruxas.


Entramos no Secos e Molhados e passamos direto para o covil. Ninguém perguntou nada. Sequer olharam para nós.

A bruxa-porteira do covil pediu quinze reais de cada um. Já começou ruim. Fomos levados a uma recepcionista zarolha sentada diante de um computador coberto de teias.

João contou o caso à zarolha que simplesmente balançava a cabeça e murmurava algumas afirmações. Computou alguma coisa no aparelho e ficou aguardando. Em seguida pediu que aguardássemos a bruxa-mãe.

A sala da recepção tinha o teto baixo, as paredes escuras carcomidas e um cheiro de urina de gato simplesmente insuportável.

A bruxa-mãe chegou depois do que pareceu ser um século para mim. Vinha com seu séquito de lambe-cus. Lembrava um pouco a antiga, e finada, Célia Rasga-Lata, e me olhou com um olhar tão maligno que eu tremi.

Diante de nossa espera silenciosa, a bruxa-mãe disse que só poderia fazer o ritual se oferecêssemos um objeto que tenha sido recebido como presente, ao mesmo tempo dado com amor e que representasse fé.

Enquanto todo mundo quebrava a cabeça para entender o fraseado, meu coração deu um pinote. Eu já sabia o que elas queriam: o meu meio-relicário do Imaculado Coração de Maria.

Dele eu não abriria mão nem a pau. E já fui logo bolando uma presepada.

Se vocês estão pensando que eu meti bala nos bolsos e estava preparado para a pancadaria, se acharam que eu ia dar uns pulinhos kung-fu, e meia dúzia de mãozadas: estão enganados.

Até pensei em derrubar o pau da barraca, mas daria muita confusão para os caras. Wolverine talvez até gostasse de arengar pra cima das sirenes, mas não era caso pra isso. Era caso para: “O que não se faz num antro de bruxas” da Glória Kalil.

- Aqui está. – puxei a camisa pra frente e tirei o cordão do pescoço. E para a bruxa que estendeu avidamente a mão para pegá-lo:

- Cuidado, dona. Esse objeto é único em minha estima. Queimaria meus livros para recuperá-lo.


Fizeram, com seus devidos bricabraques de feitiçaria, os hocus-pocus e parangarico-tirimíruaru aparente necessários para libertar Frank da maldição do homem. Foi um ritual muito chato em sua tosca tentativa de ser assustador. Como encerramento, disseram:

- Como última parte do encantamento para desfazer a maldição. Você deve colocar flores no túmulo do homem para acalmá-lo. Para que ele volte a acreditar na gentileza e bondade humana.


Fora toda a idiotice daquela conversa, houve algo que estranhei demais. Como nosso assessor para assuntos mágicos, perguntei a Johnie Oct:

- Encantamentos realmente desfazem maldições?

- Bom, depende... Se for uma maldição arcana... há certos rituais de encantamento... mas se for uma maldição divina, no sentido de... bom, pelo ritual que elas fizeram, acho que...

- Ora, você está parecendo comigo atendendo alguém no tempo em que eu era advogado. Vamos embora. Já cansei-me disso.

- “Já me cansei” – corrigiu Martelo.

- Não enche o saco, Marcelo!

- Esse S é foda, bicho! He, He!


Bom, continuando, lembro que na saída eu disse: “Quero meu relicário”. E elas: “Não”. E eu: “Por que não?”. E elas: “Porque não pode”. E coisa e tal do tipo: “Porque esse tipo de objeto sagrado dado por um herói para saber de não-sei-o-quê...”.

Aí deu merda.


Tava apertado, arriei as calças e obrei no pé da porta. Aquele montão. E no dia anterior o menu foi peixe, afinal foi uma sexta-feira e eu ainda sou bastante católico. Ao primeiro grito histérico da bruxa-chefe-que-segura-os-relicários-numa-caixa-de-chumbo, abriram a porta, mal me dando tempo de sair da frente. Foi aquela talagada espalhada no carpete da sala-de-cerimônias-para-otários.

Urinei em cima de um ídolo de pedra em outra sala. Taquei fogo na sala de torturas. Brinquei de bila com as runas. Joguei os búzios no aquário das piranhas. O funaré foi tão grande que eu já andava sem as calças que era para arejar minhas “coisas”.

As bruxas quiseram engrossar com a gente. E nessa hora eu me orgulhei da hombridade, vulgarmente chamada macheza, dos meus confrades.

João 8 deu um chute tão bem dado na bunda de uma bruxa anã que se aproximava com uma escopeta na mão que a dita atravessou a janela e caiu de cabeça no corredor da casa.

Wolverine agarrou um tambor que estava num canto imundo daquela casa que já era suja e arremessou de borco sobre quatro feiticeiras-ninjas, ou que pelo menos estavam enfaixadas como tal. O tal tambor tinha piranhas dentro. Daí você imagina a cena: piranhas voadoras esfomeadas mordendo outras. Mordendo as bruxas, quero dizer.

Frank rebolou um livro tão grande em cima de umas Encantadoras de alta estirpe, que pareciam muito com madres-superioras, que elas caíram com estrépito no chão, ficando lá até o momento em que saímos.

Martelo mereceu a alcunha, como valente filho da tribo Kariry, arranjou um martelo de bigorna e um tacape e, com um em cada mão, derrubou uma dúzia de ranzinzas que tentava me atacar. Devo a eles minha vida.


Foi nesse instante que percebi o que parecia ser destinado a acontecer, como o vislumbre de uma profecia muito antiga na iminência de ser cumprida. Tranqüilos e infalíveis. Exatos e poderosos. Homens assim eram chamados de “Filhos dos deuses” na antiguidade. Mas isso eu revelarei futuramente.


Por enquanto basta saber que quando vi, ao longe, alguém se aproximar com meu meio-relicário na mão, aquietei-me. Peguei, coloquei no pescoço e agradeci.

Chamaram-me com tantos nomes feios que eu quase esqueço o meu. Rogaram tantas e tão variadas pragas que, se eu não tivesse o corpo fechado, teriam os vermes me roído até as pregas.

Foi por uma boa causa. Eu não teria me desfeito daquele relicário por nada deste mundo.



Continua...

0 comentários: