domingo, 8 de março de 2009

Capítulo Quadrino: Era uma vez...

Depois das revelações de Frank e de juntar algumas peças de um imenso quebra-cabeça em que me vi metido já havia algum tempo, coloquei todo mundo na Tuareg e seguimos para o cruzamento da Rua da Conceição com a São Paulo.

A Tuareg era minha caminhonete D-20, cabine dupla, preta, tunada e turbinada, ar-condicionado central e com quatro faróis de milha. Cabia todo mundo, menos o Frank, que ia no bagageiro.

Parei em frente da antiga casa de Martelo.

- Oxi, e o que é que a gente veio fazer aqui, mesmo? – perguntou ele. Eu fiquei um instante olhando a fachada do prédio que construíram depois que derrubaram a casa dela. Bonito pra caralho. Mas não vale a beleza que tinha o Castelo do Martel que só faltava ter uma catacumba! Vejam só.

Aí comecei a história:

“Você lembra, Martel, naquela festa de aniversário de quinze anos da tua irmã...”

- Debutante.

- É o quê, rapaz?

- Festa de debutante é o nome.

- Eu sei o nome.

- Então pra que você fala “festa de quinze anos”? Coisa de matuto, doido.

- Vai te foder e não enche meu saco. Eu sei o caralho do nome da porra da festa.

- Rapaz, é melhor tu ficar quieto, Martelo. Quando S fala mais de dois palavrões em cada frase é porque já tá muito puto. – atalhou João 8.

- He, he! Esses caras são foda, bicho! – riu Martelo.

- Continuando:

“Na... festa de debutante tinha um doido, parente teu...”

- Não!

- Não, o quê, homi!?

- Parente meu, não. É primo do meu pai!

Depois de um instante tenso de silêncio.

- Você se lembra desse doido?

- Lembro...

- Pronto: Tinha um doido, certa vez, numa festa. Não sei de quem ele era parente, nem sei de quem era a festa. Só sei que foi! E eu, como tenho um ‘chama’ desgraçado para bêbado e doido, esse homem veio direto falar comigo.

E eu, como quis dar uma de educado, e coisa e tal, pro pai da aniversariante, que eu não sei de quem é parente, fui todo solícito com ele. Depois que vi que o cara era meio pinel, mesmo, tirei-o de tempo e fugi dele por quase a festa inteira. Uma vez no Berro Cariri, lá no Crato, ele passou a noite me enchendo o saco, dizendo que eu era filho de um deputado não-sei-quem aí. Cara chato da porra.

Bom, só que lá pra meia-noite o indigitado me descobriu no terraço (e que terraço era aquele, hein, Martelo!) quase me agarrando com... uma moça que agora não vem ao caso contar, porque o namorado dela é muito gente fina e eu não gostaria que ele ficasse sabendo que leva chifre. Aí a menina correu. Mas, em vez de pular na minha frente estendendo a mão suja, as unhas todas roídas e pretas, ele caminhou calmamente para a bancada do terraço, apoiou as mãos (com certa elegância, poderia dizer) e disse calmamente.

- Bela noite, não? Ela até me lembra uma história que ouvi falar, certa feita. Uma história muito interessante. Deseja saber como era?

Eu, assustado com aquela transformação, só movi a cabeça afirmativamente.

- Há muito, muito tempo atrás, numa galáxia não muito distante, vivia um povo muito avançado e curioso. Curioso porque eles realmente queriam saber de tudo, absolutamente tudo, em termos de conhecimento científicos, históricos e informações inúteis. Embora, para eles, todo conhecimento tinha utilidade.

Crianças, do que aqui seria a primeira série do ensino fundamental, tinham como tarefas, e passatempos, catalogar quantos espirros ouviam no dia, quantos tropeços os adultos davam pelas passarelas magnéticas (embora fossem raríssimos tropeços). Os registros eletrônicos (deles) eram vendidos (no sistema de comércio singular deles) a peso de ouro (deles) na internet (deles!).

Com o tempo as crianças acrescentavam mais dados: Causas do espirro; se doença, qual; se mortal, qual a expectativa de vida, etc. É, eles sempre foram suscetíveis às doenças respiratórias. Os pulmões (deles, se é que aquilo pode ser chamado de pulmão) são muito sensíveis, as narinas super-desenvolvidas... enfim, seu sistema respiratório era mais um milagre entre os maiores milagres do universo. E, então... Desculpe-me, devaneio e o enfastio. Falarei com maior brevidade, afinal o tempo é curto... curto, essa é boa!

Curiosos, deveras. Descobriram um planetinha, admiraram-se de seus habitantes, uma vera e inexaurível fonte de informações, e resolveram ficar para assistir. Assistir no sentido de “só olhar”. E não “auxiliar”. Mas de vez em quando, “mexer” ou “cutucar”. Colonizaram o satélite natural do planetinha, um “sofá” bastante confortável e arregalaram os olhos (deles, se aqueles troços são olhos, mesmo) com tanta novidade.

Eles amaram o seriado “Babilônia” e a saga de todos os seus reis. Os documentários “Os Egípcios” e “Os Incas” foram reprisados durante anos. Tratavam, entre outras coisas, das adaptações culturais dos conhecimentos científicos que, vez por outra, forneciam ao povo do planetinha.

Choraram com “A paixão de Iesus Hristus” que foi um estrondoso sucesso interplanetário. Seus admiradores, quase noventa por cento da população, eram tão fanáticos que seguiam no dia-a-dia a sua filosofia de vida. Só perdendo em número, e ainda assim só recentemente, para a Aliança dos Novos Cavaleiros Jedis.

Sobre o Hristus havia uma piada famosa:

“Depois que o Filho do Homem foi tentado pelo diabo no deserto, este desistiu e voltou para seu laguinho de enxofre. Logo em seguida uma comitiva de Espectadores foi encontrá-lo para enaltecê-lo. Iesus voltou o rosto molhado pelas lágrimas dos anjos que o banhavam e disse: depois do diabo vêm vocês?” Ele realmente era dotado de um senso de humor divino.


Eles perceberam, especialmente nos últimos cem anos, que a função daquela raça do planetinha era, maravilhosamente, gerar informação. E como a função deles era procurar, catalogar, processar e armazenar informações, ocorreu uma simbiose secreta entre as duas raças. Sem interferências. Às vezes havia uma ajudinha aqui, uma visitinha acolá, nada demais. Um ônibus de turismo extraviado uma vez a cada quinhentos anos. Tiveram que eliminar os dragões alados da primeira vez. Da última, não podiam derrubar os jatos sem levantar suspeitas.

Houve um caso extremamente interessante: foi um alvoroço quando os seres do planetinha mandaram uma nave ao satélite natural. Tiveram que remodelar tudo: passar uma vassoura, recolocar umas pedras, transferir algumas colônias de nudismo para os subterrâneos, etc. Mas nada pagou a emoção que sentiram com os primeiros passos e a frase de Neil Armstrong. Pessoas choravam nas ruas. Uma senhora disse: “Nunca vi nada tão tocante, até parecia nossa história”.

É nessa parte que a história fica boa. Há trinta anos surgiu uma promoção de uma empresa produtora de desentupidor nasal que premiou os ganhadores com “Uma Vida no Planetinha”. Os 4400 ganhadores tiveram o DNA modificado e foram inseridos naquela sociedade, em substituição aos filhos verdadeiros. Eles foram chamados de: “Os que Foram”. Ou: “Os Trocados”. E ainda houve quem idiotamente os chamasse de “Changelings”, desvirtuando uma lenda terráquea.


Nessa hora eu o interrompi e disse: “Mas o que é que você quer dizer com essa história?”

“Espere um pouco, Senhor S. É agora que esta história fica realmente interessante. Não era uma promoção real, era um projeto secreto do Governo. Uma pesquisa com dois objetivos: saber como influir nos rumos da vida do planetinha e como seus cidadãos reagiriam se realmente fossem do planetinha.

Pondere, Senhor S, os seres do referido planetinha estão se matando, envenenando o meio ambiente e sempre criando outras formas inventivas de se eliminarem individualmente e em massa. Há muita gente ganhando muito dinheiro com as transmissões intergalácticas dos campeonatos de softball e os conflitos armados do planetinha, meu caro. Imagine só as cifras relativas aos bonequinhos e miniaturas sem ter de pagar royalties e direitos autorais!”

- Um absurdo. – respondi. – Isso tudo é absurdo.

- Exacto. – disse, como se falasse por um dicionário do tempo da Velha Reppublica. – Eles estão por aqui, queira acreditar. As questões técnicas são muito poucas e bobas: Reengenharia genética, memória molecular, nano-bionicismo, liga ósseo-muscular sintética, renovação e reestruturação celular por ativação telecinética, etc, etc e etc. Seria enfadonho terminar de enumerar.

- Como? – foi a única coisa que saiu de tão estupefato que estava.

- A real questão não é “como”, mas, sim: Porquê?

- Porque, o quê?

- “Porque eles ainda não apareceram entre nós?”.

- Por quê?

- Exacto.

- Sim, por quê?

- Ah, por isso...


Com um movimento ágil, o doido me derrubou com uma rasteira, me imobilizou e abriu o fecho da minha calça. Quando finalmente dei por mim, ele tinha meus bagos na mão e uma faca na outra.

- Não, pelo amor de Deus! Solte meus ovos! – pedi desesperado.

Antes que eu pudesse pensar, ele fez uma incisão bem curta e, de dentro dela, puxou algo que se espalhava por dentro de mim, da cabeça aos pés.


- Ca-ra-lho, bicho! Ele arrancou teus ovos? – perguntou Martelo, aflito.

- Não. A sensação que tive era como se um arame viesse se arrastando de cada parte do meu corpo. Depois me soltou. Aí, guardei as jóias da família de forma bem segura dentro da cueca e me levantei devidamente ultrajado.

Em sua mão havia uma diminuta fita negra, com um quarto da largura de uma fita durex e pouco mais comprida que a largura de seu dedo indicador.

- Que diabo é isso? – perguntei.

- Esse era seu Bloqueador. Misto de ser vivo e máquina. Impedia-o de ser quem você realmente é. Controlava parte de seus movimentos e, realmente em parte, controlava você. Evitava seus verdadeiros reflexos. Impedia-o de virar carros com um simples chute, desses que manda uma bola canarinho vermelha para o terreno do vizinho por cima do muro.


Quando ele a apertou entre os dedos, uma extremidade se arredondou e aumentou de tamanho, a extremidade inferior se dividiu em vários filetes. O troço se debatia na mão do doido como um minúsculo polvo negro. Era um bicho feio de se ver, ainda mais sabendo que tinha saído... de onde havia saído.

Então apertou novamente, no mesmo lugar, e ele voltou a ser o pedaço de fita isolante menos assustador de antes.

- Tome. – disse o doido estendendo a mão. – Guarde na carteira como souvenir.

- Não tem perigo de esse troço voltar a ser um polvo de novo?

- Não.

- E querer voltar pro... aos...

- Hum-hum. Não.

- Nem se ele for apertado por acidente...

- De forma alguma.

- Sabe, né? A carteira... fica perto... do... dos...

- Na dúvida, guarde dentro de um cofre, bem longe de você. – diante de meu olhar de horror, disse: - Brincadeira! Vocês não têm senso de humor, mesmo. – e mais sério:

- Tenho que ir, meu tempo está acabando. Ouça-me, você precisa saber que há um mecanismo chamada Retorno, pelos termos do Contrato. Mas alguns na terra deram outro nome para ela: Pedra Filosofal.

- Assim com a inicial maiúscula?

- É, assim mesmo. Com ela você pode retornar à sua vida real. Não deixará de ganhar os brindes, está no contrato. Se não me engano o atomizador de asteróides vem com bateria extra incluída. E depois, nesses quase trinta anos, a poupança que você fez deve ter rendido uma quantia considerável. – e começou a descer as escadas.

- Escute, isso tudo é loucura. Nem sei como pude acreditar que você realmente retirou esse troço de mim e que ele realmente é um Bloqueador.

- Você sabe. Você lembra. Olhe o céu que a Lembrança das Estrelas virá. Procure os outros. Você os achará se souber como olhar. – e sumiu de vista.


Ergui o olhar. Foi como se estivesse vendo as estrelas pela primeira vez e, ao mesmo tempo, é como se eu sempre estivesse lá, nadando entre elas, o manto negro da noite escorregando pela minha pele, junto com a miríade de pontos de brilho vivo, como se fosse uma piscina de gelatina.

Nem sei quanto tempo fiquei naquele deleite, quando fui acordado por um convidado que me perguntava algo. Pedi licença e saí.


- Foi há um ano, quando você se mudou às pressas para Fortaleza e não avisou ninguém? – perguntou João 8. – Sabia.

- Passei oito meses pesquisando. Mas não encontrei nada, até ler sobre a Pedra Filosofal. – Foi quando voltei, há exatos dois meses.

- A que transforma tudo em ouro? – perguntou Martelo.

- A Máquina das Puras Possibilidades? – perguntou Frank.

- Sim. Pelo menos é o que eu acho. Haveria duas fontes de energia assim tão poderosas neste planeta? – eu comentei.

- E como é o nome desse povo, desses alienígenas? –perguntou João.

- Isso eu não sei, ele não disse.

- Não pode. História com aliens tem que ter o nome da raça. – retrucou.

- No filme Alien, mesmo, não tem. Nem no Predador. – Eu argumentei.

- É, bom argumento. – concordou ele.

- Bicho, isso é sério? – perguntou Martelo.

- É. – respondi.

- Isso é loucura! Olhe só você, você nem parece um alienígena. Bem, um pouco, só. E em algumas ocasiões, na verdade. - comentou

- E isso não é tudo. Hoje eu percebi que vocês quatro também são como eu.


Continua...

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