Hoje faz cinco anos da minha colação de grau em Direito. Turma 2003.2. Reencontrei a Zeine Amaro no Fórum e ela me deu uma cópia das filmagens da Aula da Saudade.
Meu Deus, éramos tão jovens! Tão perfeitos, imortais e sonhadores. Tão inocentes das verdades do mundo, a cabeça plena de ideais e os bolsos cheios de nada. Éramos o futuro. Hoje somos o presente. A ponta de lança da elite profissional. Os “bam-bam-bans”. É interessante perceber que a passagem do tempo é diametralmente oposta a nossa existência, já que eu percebo que amanhã seremos o passado.
Por quê? Porque eu vejo a minha face risonha de há cinco anos no vídeo e, refletido no monitor, na penumbra do meu escritório, meu rosto grave de agora. Da mesma forma que vejo os neófitos formandos de agora com todo o frescor de sua juventude estampada no peito. A mesma ingenuidade que tínhamos.
Houve algo que passou nestes anos que eu não entendi. Ou não percebi. Eu era mais leve naquele tempo. E caminhava como se não houvesse pressa. Percebam meu deslize, agora: eu disse “como se não houvesse pressa”. E isso não existe. Fomos nós que criamos a pressa. Nós nos obrigamos a uma maratona de compromissos dentro de uma agenda lotada, Deus sabe lá por quê.
O mundo, a vida, o trabalho, nossas ocupações e decisões fazem uma cirurgia bárbara em nossas faces. Antes éramos uma Turma. Hoje somos individualidades de brilhos diversos que quando se encontram falam no passado, quando possível, quando dá tempo, no intervalo entre um “despacho” e outro com os juízes dos fóruns da vida.
Hoje eu não consigo descansar. Nessa noite de 05 de março de 2009, eu não consigo relaxar como dantes fazia. Era só chegar a casa, assistir um filme, ler um livro, jogar um pouco no computador e, logo, logo, vagava pelo reino de Morfeu.
Hoje permito que minhas obrigações me dominem mesmo fora do horário de expediente. Hoje autorizo que minhas preocupações como profissional, no interesse de meus clientes, suplantem as preocupações de minha vida pessoal.
Então me pergunto se a juventude é realmente a passagem do tempo ou se é o acúmulo de deveres e as conseqüências do peso das responsabilidades sobre nossos ombros.
Mais assustador foi perceber, quando deixamos o “ninho” da universidade, que o mundo não era tão atemorizante quanto parecia e que a vitória veio bem mais fácil do que imaginávamos. Mais vergonhoso foi perceber que nos tornamos tudo aquilo que juramos não nos tornar, quando ainda tínhamos sonhos.
O que havia de mais sublime e profundo em nós se perdeu, como um sonho que chega a fim. Eu não recordo mais o que queria quando saí da faculdade, porque agora aqueles ideais estão tão distantes quanto os resquícios de minha infância.
Hoje temos contas. Que pagamos. E trabalhamos para ter mais contas. Que pagaremos. Nossa vida se resumirá nessas contas. No que compramos e pagamos. Então fico triste, mortalmente triste, porque meus sonhos estão aqui na tela deste vídeo que minhas mãos tocam, mas distam meia década de agora, perdidos no abismo do tempo e da vida.
Entretanto, apesar dessa mudança drástica, agradeço a Deus por cada segundo desses cinco anos.
Carrego no peito cada momento, bom ou ruim, as pessoas que conheci, as coisas que aprendi e o quanto eu cresci. Foram os anos mais fantásticos da minha vida, responsáveis por tornar o rapaz que vejo neste vídeo, no homem de olhar profundo e ar grave que vejo hoje no espelho. Triste seria a vida se acontecesse o contrário.
Allan Xenofonte de Brito
05 de março de 2009.

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