Então chamei o meu amigão gente fina, o Célio Come-Casadas, que era o melhor especialista da região em calhas e bicas (e outras coisas mais), para resolver o problema. Bom, cheguei no referido local, a empregada enfezada estava virada num traque e o Célio já tinha arregaçado o telhado de ponta a ponta da casa. Ele não alisava, literalmente.
Aí tive que subir no telhado. E olha que detesto escada. E detesto altura. E hoje detesto telhado, também. Aí cumprimentei-o. O cara era realmente gente fina. Falou que precisaria de um pedreiro. Detesto pedreiros. Detesto cimento e detesto ter de pagar serviços sem saber de antemão quando vai terminar e por quanto vai sair a obra, que pode, ainda por cima, terminar igualzinho a expressão cagada da palavra.
Aí, como quem não queria, ele fez uma observação casual sobre uma ripa, mas a conversa descambou para uma doidinha que ele tinha traçado na semana anterior: Wanessa, do Crato, deixa que ela era de Nova Acopiara. Sendo que eu estava namorando, pelo menos por aquele fim de semana, uma Wanessa, do Crato, que era de Nova Acopiara.
E eu estiquei os ouvidos: “como é que é?”. Aí ele falou que tinha faturado a menina, sem dó nem piedade numa festa em Iguatu. E deu a ficha completa, não deu pra ter dúvidas: era a “minha” Wanessa. Que bandida! E posando de apaixonada. Nesse momento ele passou para todos os detalhes: e “não-sei-que-lá”, e “na frente e atrás”, “e ela dizia não sei o quê” e “gemia não sei como”. Essas merdas que o cara ouve e acha muito bom quando não é mulher dele.
Terminou dizendo que saiu todo apertado, a mulher parecia um alicate. Ou uma chave de grifo, que era como ele chamava uma chave inglesa, que é como alguns chamam uma torquês, embora esta não tenha nada a ver com os outros dois nomes, porque é uma ferramenta totalmente diferente.
Desgraçada. E na noite anterior disse que não podia fazer comigo porque estava menstruada. Tava era toda doída. O apelido de Célio também era “Tripé”.
- Mas só fiz isso porque a piranha é ex de um amigão meu, o Nelsão. Cara gente fina. Tão gente fina que tá ajeitando a atual namorada pros amigos. Ele gosta de fazer esquema com ela, às vezes deixa o amigo sozinho com ela no carro, às vezes faz os três juntos... e ainda teve uma vez que ele levou dois amigos, aí foi aquela lambança! Você precisava ver o tipo da namorada dele, menina bonitinha, loirinha do cabelo curtinho, bem delicada, docinha mesmo, toda rosadinha, e nós lá, metendo na frente e atrás. Você precisava conhecer. Aliás, será que você não conhece...?
É claro que eu conhecia, embora tenha dito que não. Era uma ex-namorada minha. Já fazia tempo, mas aquela por quem eu tinha muita consideração.
Rapaz, eu não sei: pensei em matar o Célio da forma mais requintadamente dolorida e vagarosa possível, depois queria sair e matar o Nelsão, fosse quem porra fodida fosse. Pensei em enfiar-lhe uma telha boca adentro. Depois em meter-lhe um caibro em outro canto.
- E aí, vai fazer o serviço? – perguntou ele.
- Nada. Vendo a casa por sessenta mil, quer?
- Pago cinqüenta.
- Fechado.
- Vou falar com papai, ele disse que ia me ajudar a comprar uma casa nova. A mulher tá me enchendo o saco. Tem como financiar?
Resumindo, meus caros: por conta de um comentário besta do Célio, a merda da verdade apareceu, e em conseqüência eu:
01) fiquei sem namorada (não ia continuar com ela depois daquela putaria);
02) fiquei sem amigo (agora não queria ver o Célio de jeito nenhum, mas que merda!);
03) fiquei desgostoso com minha ex (sem comentários);
04) fiquei sem a casa (vendi barato demais);
Isso é o que acontece quando a merda da verdade vem à tona. Principalmente quando você fala histórias que não deveriam ser contadas.
Mas a forma como agi no caso do telhado foi uma boa. Não tive que fazer a merda do serviço de pedreiro. E isso não tem preço.
Continua...

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