terça-feira, 14 de abril de 2009

Capítulo Sexto: Uma batalha.

Foi uma vez em que me meti em encrenca da grossa. Resolvi apelar para Frank, o Outro. Frank, o Dilacerador e sua turma de cupinchas: os Irmãos do Caos, como se autodenominavam.

Serviço caro, mas o melhor. Armamento pesado e de primeira qualidade. Já tinha comprovado a qualidade e eficiência dos serviços de Frank, o Outro: mandíbulas quebradas, ossos fraturados, tendões desligados, contusões das mais variadas formas e tamanhos, até tapinhas que só causavam rubefação.

Uns porretas, aqueles caras. Fico muito feliz e satisfeito que exista gente no mundo que fique feliz e satisfeita dando porrada em gente escrota.


Bom, mas contando do início:

Num domingo desses eu estava deitado na rede de Tia Maroly debaixo do pé de cajarana lá no sítio do meu avô. Tranquilão, tinha tomado umas doses de cachaça com o Capitão, que é como os netos chamam “seu” Bernardo, meu avô materno.

Aí calha de eu ouvir aquele barulhinho de ventilador à distância. e eu: “Lá vem.” O som foi aumentando e logo, logo, o helicóptero da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos da América pousava na roça de arroz do meu avô. Eu fiquei logo puto.

O Coronel Willis me chega ao pé da rede todo desconfiado e os pés melados de lama até as canelas. O helicóptero lá, assustando o gado e os três porcos de vovô. Eu, que estava com o lençol cobrindo o rosto, disse:

- Diga.

Como ele me conhecia bem, foi direto ao assunto, do jeito que eu gosto: A NSA, ou ASN, caso queira, estava precisando que eu montasse uma operação negra aqui no Brasil. Willis disse que havia uma autorização do Lula para aquela ação em particular. Eu nem olhei o dossiê. Só pra ver Presidente Obama zelando pela Paz e Segurança do Mundo, olha só.


“Operação Negra” é um tipo de missão clandestina. Quem autoriza não pode aparecer de forma alguma. Tanto que nem existe autorização. Só a ordem e o cumprimento. A ordem era: localizar e eliminar uma comunidade de vampiros que se instalou na cidade de Granjeiro, CE, substituindo os moradores. E só.


O cumprimento:

Toda boa missão de espionagem envolvendo “Seek and Destroy” (Localizar e Destruir), que dá um bom enredo e é a cara do Frederick Forsyth, começa com o levantamento do local.

Granjeiro é uma cidade fantasma, mesmo antes dos vampiros. Segundo os dados possui cinco mil almas dentro de suas fronteiras. Paupérrima e desconhecida. O melhor acesso para lá é indo do Juazeiro, passando pelo Crato, indo até Várzea Alegre, por dentro desta cidade, pegando a rodovia CE sei-lá-que-número, e daí até Grangeiro. Muitas subidas, curvas fechadas, meu tipo de pista predileto.

Se você for por Caririaçu terá uma bela surpresa: mais de trinta quilômetros de estrada de carroça, trilhas de barro, pedras, pontes antiqüíssimas, alguns abismos e muita poeira. Eu voltei por este trecho me sentindo num rali.

O prédio da Justiça fica num ponto alto, donde se pode divisar as casinhas, a igreja-matriz, o açude que banha os pés da cidade e, do outro lado de uma depressão no terreno, o hospital municipal.

No meu disfarce mais batido, que é o de advogado-descolado-vestido-de-terno-creme -com-camisa-rosa-e-e-sapatos-caramelo, passei no Fórum de Granjeiro: só havia uma funcionária, mas essa não tinha cara de vampira. Informou-me que todos os processos estavam na vizinha comarca de Caririaçu, à qual Granjeiro é vinculada.

Pois bem, agradeci a informação, entrei no Uno Mille vermelhinho da família e aproveitei para conhecer a cidade. Uma rua corta o povoado ao meio. Só uma. Só tem essa.

Nunca, em toda minha vida, vi tantas mulheres lindíssimas, de cabelos lisos e compridos, olhares faceiros, mas um tanto pálidas, a me olharem voluptuosamente e lamberem, com línguas enormes, os dentes pontiagudos por trás das meias-portas dos casebres mal-ajambrados.

Achei o lugar lindo. Mas voltei intrigado. Terminei o mapa e tracei o plano de ataque. Isso foi o “onde”. O Coronel Willis me liga e diz o “quando”:

- À noite.

- É o quê? – perguntei e fiz uma careta.

- Eles estarão mais expostos.

- E nós, não?

- Vocês terão um blindado...

- Pra eles partirem no meio com um golpe de caratê? Não, obrigado.

- Soro do super-soldado?

- Tá me achando com cara de “Capitão-América do Sul”?

- Uma micro bomba atômica? – perguntou numa careta.

- Jesus, Maria e José!

- Então o quê?

- Da velha maneira.

- All right. Old fashioned way...


Dia D, doze horas para Hora H:

- E aí, chefia, como vai ser? – Perguntou Frank, o Dilacerador.

- Na marra e no tapa.

- Então tá bom.


A versão oficial foi uma epidemia de dengue hemorrágica. Era sangue por toda parte. Por fim, tocaram fogo na cidade. E nós dissemos a nossas famílias que estávamos pescando, viajando, jogando sinuca, essas coisa.

Tivemos duas baixas, nada demais. Um aleijado, levou um soco de um chupa-sangue mesmo na base da coluna. Outro, surdo devido a um tiro perto do ouvido de uma Ithaca calibre 12, com balas-bentas especiais do Vaticano, e cujos projéteis atravessaram a casa de ponta a ponta.


Tudo estava tranqüilo, todos felizes, dinheiro no bolso. Só que aí apareceu a merda da verdade e a mulher de Frank ficou sabendo que eu o contratei, sob os auspícios da NSA e dinheiro sujo do Governo, para matar uma cidade de vampiros.

Ainda hoje tem raiva de mim porque eu o coloquei em perigo. Ela deveria ter acreditado na história do chifre, que era a falsa, mas que todo bom corno gosta de acreditar.


Bom, sobre isto, a merda da verdade, tenho algumas considerações a fazer.



Continua...

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