quinta-feira, 9 de abril de 2009

Lembranças

Eu lembro de uma vez que dormi na casa do meu avô em tempos de São João. A casa ficava nas terras do meu avô paterno, que eram um meio termo entre sítio e fazenda. Lembro do vento que assobiava no telhado. Lembro do casaco jeans que eu usava. E do arrastar das chinelas de couro de meu avô.

E eu me sentia feliz. Só por aquilo. Só por aquela sensação, que hoje eu defino como “sensação de estar vivo”. E estar ali. Ouvir a conversa das pessoas sentadas ao redor do fogo. Uma vez ou outra o barulho das botas remexendo o cascalho. A vida era, então, uma grande brincadeira e cada dia guardava algo de novo para ser descoberto. Eu não cansava de ver a luz do amanhecer pelas frestas das telhas. Parecia que o teto estava recoberto de luminosas pontas de lanças passando em revoada.
Havia sempre uma dádiva no amanhã. E o amanhã, maravilhoso por não se alcançar.

Hoje me sinto mais velho que minha própria idade em umas dez vezes. Sinto que alcancei meu amanhã. Como se tivesse achado a resposta para todas as perguntas e o jogo no grande tabuleiro da vida já houvesse perdido a graça. Eu, que era um menino com tantos porquês na ponta da língua, hoje fico calado como quem vai embora depois de cometer uma gafe.

As pessoas se tornaram tão repetidamente enfadonhas a cada geração que se segue. E nem as palavras me trazem mais calmaria ou alento. Tudo é tão rápido: o que desejamos, de ser satisfeito, e o que gostamos, de desgostar.

Hoje todos os tetos são de laje ou de telhas suprimidas a gesso. Não há nada de interessante nas aventuras que escrevo. Sigo mortalmente cansado na rotina à qual estou preso. Até o dia em que eu largar tudo e correr o mundo. Que não se cansa de ser novo e sempre renovado.

Aí será como aquelas madrugadas de São João, em que a vida era maravilhosa em cada instante, o futuro era cheio de possibilidades, e a felicidade era simples como o arrastar das alpercatas de couro de meu avô.



XXX

1 comentários:

João Octávio disse...

Como sempre, belo texto. Quanto à afirmação final, correta como sempre. Que tal discutirmos/ampliarmos essas idéias em uma noite qualquer, com um bom som ao fundo e uma cerveja gelada para não deixar a garganta secar?