segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Capítulo Duo: Como se reúnem os Confrades?

No qual é reunida a Confraria


Li, certa feita, um livro sobre sociedades secretas de um desconhecido escritor juazeirense que versava sobre a Confraria:
“Não sei ao certo quando surgiu a Confraria. Não houve data específica de nascimento ou de lançamento de seu manifesto de fundação. Surgiu. Não foi cercada da mesma pompa, mas teve a mesma importância para o mundo que a Declaração de Independência dos Estados Unidos da América.

Sua finalidade era de natureza dúbia e obscura. Ninguém de fora do Círculo Interno sabia com certeza o que era, o que fazia, ou para que servia a Confraria. Alguns cidadãos, sobretudo os mais pacatos sequer desconfiavam de sua existência.

Mas, realmente, a coisa mais estranha sobre a Confraria era justamente seu rol de membros. Essa Sociedade Secreta arregimentava os tipos mais estranhos, com habilidades inenarráveis e idiossincrasias das mais diversas: da mais pacífica às totalmente explosivas.

Havia uma interminável lista de sinais secretos a serem dispostos pela cidade avisando de uma reunião da Confraria. Os significados variavam de um simples aviso de Reunião Ordinária, que podia acontecer no meio da semana, à Reunião Máxima, que coincidia, não se sabe se propositadamente ou apenas coincidentemente, com a Renovação da Entronização do Coração de Jesus na casa de João 8, que por decisão das parcas era também o lar da Matriarca da Família Trindade.

Um ramo de juazeiro no bolso da estátua do Padre Cícero, que se situa na Praça homônima, significava a Agregação da Germinância, reunião em que seriam discutidos novos e ascendentes assuntos de interesse da Confraria. O estudioso e filmatelista Manuel da Solaris certa vez cogitou que tais reuniões se referiam às artes, discussões de novos livros e filmes, mas nada disso foi jamais comprovado.
Na Rua São José, poucos metros abaixo da concorrente Clóvis Bevilaqua, há uma casa tão antiga que em sua calçada ainda há argolas de metal presas ao chão para amarrar os cavalos, ou talvez escravos. Ou gado. Não sei. Uma fina corda amarrada na terceira argola, da esquerda para a direita, significava o Acolitato da Liberdade. Seja lá pra que essa reunião servisse.

Os crucifixos iluminados do alto do Santuário dos Padres Salesianos também tinha seus significados. Alguns pensavam que dizia respeito às cores litúrgicas. Ledo engano. As garras de poder dos Confrades se estendia até aos prédios religiosos.
Inclusive a mão da gigantesca estátua do Padre Cícero, que guarda a cidade do alto do Horto das Oliveiras, possui seus significados: um pequeno gesto segurando a bengala já informa aos Associados dos encontros da Confraria. Só Deus sabe como eles o fazem.

Fumaça avermelhada logo pela manhã se dirigindo ao leste marca certamente para o ocaso solar seguinte a Noite dos Longos Fogos. Há indícios de desvairado consumo de tabaco nessas ocasiões. Nada provado, entretanto.”

Pois bem: quanta besteira! O benefício de se ter três aparelhos celulares, um de cada operadora, é gastar poucos bônus em ligações locais para convocar meus Confrades. O local escolhido: O Santuário. Também chamado de Armazém Kibebe. Sabe onde fica? Também não lhe direi.

Combinamos para as dezenove horas. Faltando quinze minutos, remarcamos para as vinte. A Reunião realmente começou às vinte e uma horas. Caro leitor, evite comentários sobre atrasos perto de mim. Fui o último a chegar, para variar.
Antes de tratar do início da reunião, cabe uma consideração...

continua em uma semana...

Ma Reine du Printemp

Vous qui regardez moi avec vos yeux brillants

Pardonez mes manières simples et ignorantes

Quand Je dis qui vous êtes la déesse de les fleurs

Et que Vous étendre dans mon monde le bonheur.


Votre visage de taches de rousseur de l'automne,

Est la mer et le vent que les jours m'apportent,

Avec les fils du cuivre qui glissent de votre tête.

Ma joli Reine du Printemps, c’est que Vous êtes.


Vous êtes me nuit, l'éclat intense de la lune

Et la brise tardive qu’amene un lisse rhume.

Votre peau c’est doux comme cela couvert du lait

Et soyeux comment le matin que beaucoup me plaît.


Vous ne voyez pas que quand vous passez

on s’élève des rouges roses beaucoup des rumeurs

qui me laissent etourdie, agité et insensé

mais que remplit mes jours avec tout les couleurs?


Votre fidéle et éternel serviteur,

X.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A Saga da Máquina das Puras Possibilidades

Capítulo Uno: No qual tudo começa


Tudo começou numa terça-feira. Eu cheguei em casa mais cansado que de costume. O trabalho no escritório foi um saco. Minha gravata devia estar pendurada em algum dos armadores de rede espalhados pela casa. Estava exausto, suando profusamente feito um porco, e aborrecido. Mais melancólico que de costume.


Daí o celular toca. Um dos três que eu tenho. E quem era? O Wolverine. Júnior Wolverine recebeu esse apelido, bem merecido, na minha opinião, porque realmente se parecia com o Wolverine das histórias em quadrinhos dos X-Men. Você deve conhecê-lo. Se não: foda-se, vá ler outra coisa. Era entroncado, forte pra burro e mantinha um corte de cabelo idêntico ao personagem. Até as costeletas eram as mesmas.


Tinha um gênio enfezado, mas muita paciência. Que o diga João 8 em suas bebedeiras. Como era rotina no grupo, também era perito em revistas em quadrinhos, jogos de interpretação, os famosos RPGs e filmes sobre bárbaros. Especialmente Conan. De todos os caras que conheci que provavelmente se imaginaram vivendo como um aventureiro na idade média, ele era o único que se encaixava fisicamente no papel.


- E aí, Jr? O que é que eu posso fazer por você?


- Bicho, você já ouviu falar na Máquina das Puras Possibilidades?

Foi assim que ele disse. Pude até ver as garrafais letras maiúsculas num letreiro. E piscando em neon vermelho! Sabe, se essa história virar filme, com certeza esse momento será coroado com minha imagem ao telefone em pausa, até que se leia esse comentário.


Mas o assunto não me era de todo estranho. Na noite anterior, sem nada pra fazer, morgando em frente à televisão, eu vi uma propaganda de uma marca de vodca que falava da noite das puras possibilidades. Que porra era aquilo? Quem em sã consciência inventaria uma frase falando de puras possibilidades?


- Puras possibilidades... ainda vai. Mas, máquina...


- Preciso falar com você pessoalmente. Você pode reunir a Confraria?

Era uma das minhas tarefas, visto que eu tinha três celulares, cada um de uma operadora diferente, ligar para cada um dos integrantes da Confraria.


- Tá bom. Tá bom.


- Valeu, S.


Esse é o momento em que eu me apresento: sou S. Assim, só uma letra. Diz pouco, mas significa tudo. Às vezes me chamam por outro nome, mas isso não tem importância.


Minha profissão é resolver os problemas dos outros. Cobro caro, sou bem pago. Ando sempre com um cartão de visitas no bolso para os casos mais sérios. Ele é todo negro e aparentemente não possui nada escrito. Você saberá se eu passei por alguma cena de homicídio. É meu mister vigiar a noite. Prazer, eu me chamo S. Mas para você é Senhor S.


Continua em uma semana...

My Sweet J

Esse poeminha é para Jéssica: Pode deixar que eu te espero, menina...


There’s someone I see like a brute diamond stone,

A girl who can really shake my heart and bones

With a thin and tall body besides a dazzler smile,

She is in my diurnal thoughts, without denial.


I claimed her to extirpate my sorrows

Like a merchant who happiness borrows.

She don’t knows that puts me in fire

With her mighty flame of pure desire.


Light the candles with a single match,

Bring me a charming flower and stash,

Kiss me slowly under the moonlight

And I’ll see of yours eyes, the bright.


Build our garden and bring me a rose

Laught, hold me and scratch my nose

My happiness, my clearance of the day,

My kind princess, my pure and sweet J.


AXB

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

O Que Resta de Mim

Meu avô sentou-se a meu lado no batente da casa 96 da Rua Pedro II, seu lar por mais de quarenta anos, e me olhou direto nos olhos, com aqueles olhos francos que ele tinha. Fitou-me por uns instantes, sorriu suavemente e, por fim, disse:


- Meu filho, eu estou morrendo. - E eu, meio que melindrado, retruquei de imediato:


- E não estamos todos? – Mas eu já sabia o motivo daquela conversa. Ele tinha câncer. E essa doença cruel já havia se alastrado por seu corpo.


- A conta de meus dias está bem mais curta que a sua, tenha certeza, heh! – Deu aquela sua risada habitual. – E é tão bom, tão glorioso, poder ver tudo a meu redor com tanta clareza e nitidez. Eu agradeço a Deus poder chegar ao fim do meu “programa” assim lúcido.


Eu fiquei calado, sem ter o que dizer, mas logo ele atalhou:


- Vamos, não fique assim. Quero que você saiba de algumas coisas sobre a vida e a proximidade de seu findar.


A primeira coisa é: faça o que fizer de sua vida, esteja sempre atento às conseqüências. Se você planejar algo cujo fim não deseja de antemão, não o concretize. Isso se chama ponderação, que nasce da sabedoria e traz a dignidade consigo.


A segunda é: não viva sua vida com temor. A existência do homem já é demasiado limitada para que ele diminua ainda mais seus horizontes por causa do medo.


A terceira é: Faça com que sua vida valha a pena. Eu mesmo cheguei a pensar que minha existência não teve significado e que eu não fiz nada para ajudar o mundo ou tornar mais alegre a vidas das pessoas. Então eu olho para você e me vejo como num espelho de juventude. Você é a centelha da minha vida que permanecerá. Você é meu presente para o mundo e meu legado para o futuro. Você, seu irmão e seus primos, além de seu pai e suas tias, são o que resta de mim. O que continuará.


No mais, você decide.


Não vou ficar enchendo sua cabeça com as ruminações de um ancião. E não fique assim, tão triste. Tudo tem a sua hora. Eu mesmo já enterrei a mulher que amava, meus pais, irmãos e irmãs. Nada mais justo que me reúna a eles agora.


Meu filho, não te deixo fortuna ou fama assim tão grandiosa. Esse velho aqui só te deixa as lições que aprendeu com os próprios erros. Você herda todo o meu amor incondicional. Porque o vi nascer, crescer e se tornar o bom homem que você é hoje. Eu mesmo ensinei uma coisa ou outra que espero terem tido valia. Diga a seus filhos quem eu fui e o que fiz.


Agora vamos que sua tia está chamando para lanchar.


E bateu nas minhas costas, naquele seu jeito rápido e de leve, como de quem está envergonhado, e seguiu pelo corredor no seu passo lento. Lá dentro seus pássaros cantavam.


(xxx)


Meu avô Cirilo Cardoso de Oliveira faleceu aos bem vividos 78 anos de idade, em 10 de janeiro de 2008, numa bela e ensolarada tarde de sábado. Foi um dos homens que eu mais amei nessa vida, foi meu pai e amigo. Professor e conselheiro. Tinha um sorriso luminoso e uma ponderação sem tamanho. Vocês poderiam reconhecê-lo de longe: era um homem afável que caminhava devagar pelas ruas do Crato, assim, meio curvado, com um pé hesitante. E batia compassadamente o dedo no seu molho de chaves.


Eu absorvi a essência dos atos e palavras do meu avô, que sempre me ensinou a fazer a coisa certa, ainda que fosse a mais difícil. A sempre dizer a verdade, não importando o quão dura fosse. E respeitar as pessoas, quem quer que fossem, como pensassem ou agissem. Sou, graças a ele, um reflexo de seu caráter.


Ele foi um irmão muito querido por seus oito irmãos e irmãs, pai amado por seus três filhos e idolatrado por seus quatro netos. Foi estrela do rádio, galã e boêmio. Sogro denodado e um tio profundamente estimado por seus sobrinhos. Serviu ao Município do Crato, e a seu povo, com absolutos desprendimento e integridade durante todos os anos em que trabalhou como tesoureiro.


O mundo ficou mais triste sem o seu sorriso e eu menos sábio sem os seus conselhos. Não tenho mais sua voz acolhedora para consolar minhas agruras, nem seus olhos bondosos que, ao me verem, já diziam: “Eu já vivi isso e já sofri como você. Sei como se sente. O que posso dizer é que vai passar, meu filho. Porque Deus dá a lição necessária para que cada um de nós aprenda a viver. Depois nos cabe aplicar na vida o que aprendemos”.


Assim, direi aos meus filhos quem foi o meu avô: foi um bom homem, gentil e charmoso, de opinião e atitudes firmes, que na vida tropeçou e caiu, mas, como só fazem os mais fortes e valorosos, se reergueu e se manteve de pé com dignidade até o dia em que morreu.


Foi o ser mais maravilhoso que conheci e o exemplo de homem de bem que quero ser.


Allan Xenofonte de Brito

11 de janeiro de 2009.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Dos Amores

Aviso aos leitores: este é um diálogo travado numa linguagem coloquial e cotidiana. Queiram perdoar os erros de português.

- É sério, Aline! – Allan disse – Eu realmente casaria com você na igreja matriz de Araripe. Você aceita casar comigo?


A moça gargalhou diante os olhos divertidos do rapaz.

- Ah, Allan, você...

- Eu o quê?

- Você é tão brincalhão que nem sei quando está falando a verdade. Cá pra nós, você bem sabe que não te levo a sério. Além do que, você também é muito safado. E minha família é do Potengi. Não se esqueça.

- Em algumas culturas, e momentos, ser safado é até uma qualidade.

- Não, você é sem-vergonha, mesmo, está sempre atrás da próxima e não é fiel a nenhuma.


Sentindo uma pontada na consciência e a necessidade de desabafar, Allan ficou sério, baixou os olhos e disse naquele inconfundível tom grave:

- Você tem razão.

- Ha, ha, ha! E você nem me respeita, mesmo! – atalhou Aline, rapidamente à guisa de mudar o rumo da conversa, que ela percebeu ter começado a ficar delicada.

- Você sabe que te respeito.

- Mas não tem sentimentos por mim!

- Tenho, sim: carinho.

- Só isso?

- A questão não é essa... olha, eu vou ser direto e, consequentemente, um pouco duro: não te amo, se é isso que você queria saber. Mas, como nunca amarei ninguém nesta vida, você resume o tipo de mulher que quero a meu lado. É bonita, inteligente, divertida, tem uma família maravilhosa, futuro profissional excepcionalmente promissor e é muito sexy.


Ela desandou a rir dessa última afirmação, apesar de seu jovem coração ter se confrangido das palavras do rapaz.

- Ora, Allan, quem disse que você não vai amar ninguém?

- Eu. Eu, mesmo. Bem sei que não.

- Mas você se apaixona tão fácil. E por todas as mulheres que cruzam contigo.

- Sim e não. É certo que me apaixono fácil, mas não por todas. Mas, sim, eu me apaixono de forma profunda, devotada e arrebatada. Que posso dizer? A paixão é um fogo bravo, nos consome. E nesse fogo adoramos nos meter nesse fogo. Mas não é o amor. Paixão é um amor em parte. E a algumas partes!

Já o amor, ah, o amor! Esse é uma brasa pequena, mas de incandescência inexorável e inquestionável. Vai queimando lentamente, nos incendiando aos poucos, e, ao mesmo tempo, como uma goteira em nossas cabeças, vai pingando sobre nossos corações até nos enlouquecer.

É como o ar que nos insufla o espírito, sem o qual parece que nos roubam a alma. É como o despencar, sobre nós, de rocha do tamanho de uma montanha. Afinal, qual é a matéria do amor? Fogo, água, ar ou terra?


- Allan você é um paradoxo: parece conhecer tão bem o amor, mas diz que nunca o conheceu, ou seja, que nunca amou. Se não conhece, como sabe que não amou?

- Amo a vida. Amo meus pais, meus irmãos, amigos e amigas. Amo uma manhã de chuva. Amo o sol na minha pele. Amo a mata da caatinga ressequida pelo sol, embora tal visão também traga consigo um tanto de dor, a imposição de respeito das unhas-de-gato, o amarelecer das acácias e o verde perene dos juazeiros.

Amo tanto a vida que abriria mão dela se preciso fosse para fazê-la valer a pena. Porque na vida é necessário ter dignidade, respeito, liberdade, responsabilidade e esforço.

E, sobretudo, amo o Criador, por tudo. Por ter inventado tudo isso dentro e fora de mim.

Mas fui ensinado, desde a mais tenra idade, a amar uma mulher. E que minha vida só estaria completa assim. Fui estimulado pelas propagandas de chocolate, batom e xampus. Tive meu discernimento entorpecido por filmes e mais filmes românticos pregando a existência da “alma-gêmea” e sua busca.

Hoje me sinto incompleto. Diferentemente do que sentia quando era criança, quando eu estava completo só pelo existir, só por viver aquele momento e pela esperança do que viria no amanhã. Realmente, nós não deveríamos esquecer o passado. Sabíamos tanto mais do que hoje!

E hoje procuro. Procuro alguém que sei que não existe. Porque não tem a expressão dos olhos igual a dos meus, nem o rosto angelical, nem os lábios de mel, nem olor das flores, nem o corpo que me acolha e me embale o sono.

Porque não existe nenhuma mulher que agüente meus arroubos de grandeza intercalados a meus acessos de melancolia e surtos de auto-indulgência. Nem que possua gostos parecidos com os meus, ou que estes não sejam tão diferentes a ponto de causarem conflitos irreversíveis ou contínuos aborrecimentos.

E, ainda, que ela me deixe decidida e profundamente apaixonado, até agir como um tolo.


- Não, Allan. Você quer demais. Por que não pede só uma pessoa para passar o tempo, sentar e conversar, beber café na cozinha, olhando a chuva no quintal, fazer compras, dormir abraçado, dizer piadas bobas, criar os filhos...


- É. – e ficou sorrindo, batendo na perna de vez em quando. Após um instante de silêncio, continuou: - Adorei seu conselho. E aí, aceita meu pedido?


Ela riu e disse:

- Só se for na igreja do Potengi!




AXB