terça-feira, 31 de março de 2009
Capítulo Quintus: A Casa que Não Existia.
Mas a casa está lá, perdida em seu mimetismo naquela rua, por isso ninguém jamais prestou atenção nela, nem no fato de nunca se ver ninguém entrar ou sair dela. Apesar de o portão estar sempre aberto.
Se você medir o quarteirão inteiro, não sobrará um centímetro, nem mais nem menos que o que consta nos livros. Mas a casa tem três metros de largura e eu não sei como isso não aparece nos cálculos. Acho que a trena dá uma endoidada. Pra vocês deve parecer o “Quadrado das Bermudas” no centro de Juazeiro do Norte, não?
Nada disso. É um aparelho. Aparelho é o termo dado ao local de apoio a espiões. Mas lá também é uma embaixada. De Cima. É mais um aparato na guerra do Bem contra o Mal.
A aparência é de uma garagem comprida na qual caberiam três ou quatro carros. O portão é de um azul escuro descascado em muitos pontos. A cerâmica branca que reveste o piso e metade da parede é antiga e já viu dias melhores. Lá dentro há uma porta pequena e estreita, vê-se na parede contígua, branca de cal, escrita a seguinte frase em azul: “Deus é o Senhor”.
Você sequer pode imaginar o que acontece lá. As decisões que...
(...)
Essa parte foi suprimida por ordem do Excelentíssimo Doutor Juiz de Direito da 3ª Vara de Justiça da Comarca de Juazeiro do Norte, em sede de liminar requerida pela Associação das Congregações Religiosas Secretas concedida por ocasião da apreciação de Ação de Encobrimento das Verdades Ocultas.
(...)
O que me lembra outra ocasião em que me ti numa encrenca da grossa, mas não tanto como essa.
Continua...
terça-feira, 24 de março de 2009
Capítulo Pentâmero: Aqui jaz o homem.
Mas quem acha dias chuvosos tristes? Vocês? Porque eu mesmo adoro um dia chuvoso. E, para quem vive no nordeste, mora em casa que não tem goteira e não tem alergia à água, é realmente adorável.
Dias ensolarados em um cemitério me passam a sensação da estonteante alegria dos mortos.
Bom, fomos dar uma olhada no jazigo do homem.
Lá estava escrito: “Eu conseguia dormir em dias de chuva. Hoje não, pois me sinto culpado como se eu fosse uma goteira de maldade no teto do mundo”.
- Rapaz, que porra ele quis dizer com isso? – Perguntou João 8.
- Não sei. Só sei que me lembra ago que li na Casa que não Existia. Bota logo essas flores aí e vamos embora. – eu disse. – Acredito sinceramente que não havia maldição alguma. Foi tudo uma pantomima das bruxas. Tudo aconteceu com Frank para nos colocar no caminho da Machina. E para que eu esquecesse meu passado e acreditasse num outro futuro.
Continua em: A Casa que Não Existia...
quarta-feira, 18 de março de 2009
Mudança de BLOG!
Venho informar minha intenção de mudar o blog para um provedor que tenha melhores condições de publicação.
Como ainda estou na fase da experimentação, não exijam demais do novo:
http://allanxenofonte.wordpress.com/
Um abraço.
A Turma
Meu Deus, éramos tão jovens! Tão perfeitos, imortais e sonhadores. Tão inocentes das verdades do mundo, a cabeça plena de ideais e os bolsos cheios de nada. Éramos o futuro. Hoje somos o presente. A ponta de lança da elite profissional. Os “bam-bam-bans”. É interessante perceber que a passagem do tempo é diametralmente oposta a nossa existência, já que eu percebo que amanhã seremos o passado.
Por quê? Porque eu vejo a minha face risonha de há cinco anos no vídeo e, refletido no monitor, na penumbra do meu escritório, meu rosto grave de agora. Da mesma forma que vejo os neófitos formandos de agora com todo o frescor de sua juventude estampada no peito. A mesma ingenuidade que tínhamos.
Houve algo que passou nestes anos que eu não entendi. Ou não percebi. Eu era mais leve naquele tempo. E caminhava como se não houvesse pressa. Percebam meu deslize, agora: eu disse “como se não houvesse pressa”. E isso não existe. Fomos nós que criamos a pressa. Nós nos obrigamos a uma maratona de compromissos dentro de uma agenda lotada, Deus sabe lá por quê.
O mundo, a vida, o trabalho, nossas ocupações e decisões fazem uma cirurgia bárbara em nossas faces. Antes éramos uma Turma. Hoje somos individualidades de brilhos diversos que quando se encontram falam no passado, quando possível, quando dá tempo, no intervalo entre um “despacho” e outro com os juízes dos fóruns da vida.
Hoje eu não consigo descansar. Nessa noite de 05 de março de 2009, eu não consigo relaxar como dantes fazia. Era só chegar a casa, assistir um filme, ler um livro, jogar um pouco no computador e, logo, logo, vagava pelo reino de Morfeu.
Hoje permito que minhas obrigações me dominem mesmo fora do horário de expediente. Hoje autorizo que minhas preocupações como profissional, no interesse de meus clientes, suplantem as preocupações de minha vida pessoal.
Então me pergunto se a juventude é realmente a passagem do tempo ou se é o acúmulo de deveres e as conseqüências do peso das responsabilidades sobre nossos ombros.
Mais assustador foi perceber, quando deixamos o “ninho” da universidade, que o mundo não era tão atemorizante quanto parecia e que a vitória veio bem mais fácil do que imaginávamos. Mais vergonhoso foi perceber que nos tornamos tudo aquilo que juramos não nos tornar, quando ainda tínhamos sonhos.
O que havia de mais sublime e profundo em nós se perdeu, como um sonho que chega a fim. Eu não recordo mais o que queria quando saí da faculdade, porque agora aqueles ideais estão tão distantes quanto os resquícios de minha infância.
Hoje temos contas. Que pagamos. E trabalhamos para ter mais contas. Que pagaremos. Nossa vida se resumirá nessas contas. No que compramos e pagamos. Então fico triste, mortalmente triste, porque meus sonhos estão aqui na tela deste vídeo que minhas mãos tocam, mas distam meia década de agora, perdidos no abismo do tempo e da vida.
Entretanto, apesar dessa mudança drástica, agradeço a Deus por cada segundo desses cinco anos.
Carrego no peito cada momento, bom ou ruim, as pessoas que conheci, as coisas que aprendi e o quanto eu cresci. Foram os anos mais fantásticos da minha vida, responsáveis por tornar o rapaz que vejo neste vídeo, no homem de olhar profundo e ar grave que vejo hoje no espelho. Triste seria a vida se acontecesse o contrário.
Allan Xenofonte de Brito
05 de março de 2009.
Capítulo Quadrino II
Depois das operações, quando todos os convalescentes cuidavam de seus “documentos”:
Depois de uns instantes de silêncio, Junior Wolverine pegou uma barra de aço num canto da rua e o envergou como se fosse um arame para estender roupa. Depois cruzou os braços e disse:
Continua na próxima semana...
domingo, 8 de março de 2009
NO LONGO CAMINHO DA VIDA
Há quem pense que é uma trilha sombria,
Há quem veja somente uma senda vazia.
Mas se desejais saber a verdadeira verdade
O rumo certo passa no amor e na liberdade.
Na realidade, é uma jornada só de ida.
Há quem encha de calos os artelhos,
Há quem cruze o caminho de joelhos.
Já eu faço com que não seja perdida.
Melhor na vida é o “agora” que não se reforma,
Ainda que o mundo diga “não” a esmo
Coisa que ele não faz. É isso mesmo!
Ele somente diz “sim” de outra forma.
-x-x-x-
Capítulo Quadrino: Era uma vez...
A Tuareg era minha caminhonete D-20, cabine dupla, preta, tunada e turbinada, ar-condicionado central e com quatro faróis de milha. Cabia todo mundo, menos o Frank, que ia no bagageiro.
Parei em frente da antiga casa de Martelo.
- Oxi, e o que é que a gente veio fazer aqui, mesmo? – perguntou ele. Eu fiquei um instante olhando a fachada do prédio que construíram depois que derrubaram a casa dela. Bonito pra caralho. Mas não vale a beleza que tinha o Castelo do Martel que só faltava ter uma catacumba! Vejam só.
Aí comecei a história:
“Você lembra, Martel, naquela festa de aniversário de quinze anos da tua irmã...”
- Debutante.
- É o quê, rapaz?
- Festa de debutante é o nome.
- Eu sei o nome.
- Então pra que você fala “festa de quinze anos”? Coisa de matuto, doido.
- Vai te foder e não enche meu saco. Eu sei o caralho do nome da porra da festa.
- Rapaz, é melhor tu ficar quieto, Martelo. Quando S fala mais de dois palavrões em cada frase é porque já tá muito puto. – atalhou João 8.
- He, he! Esses caras são foda, bicho! – riu Martelo.
- Continuando:
“Na... festa de debutante tinha um doido, parente teu...”
- Não!
- Não, o quê, homi!?
- Parente meu, não. É primo do meu pai!
Depois de um instante tenso de silêncio.
- Você se lembra desse doido?
- Lembro...
- Pronto: Tinha um doido, certa vez, numa festa. Não sei de quem ele era parente, nem sei de quem era a festa. Só sei que foi! E eu, como tenho um ‘chama’ desgraçado para bêbado e doido, esse homem veio direto falar comigo.
E eu, como quis dar uma de educado, e coisa e tal, pro pai da aniversariante, que eu não sei de quem é parente, fui todo solícito com ele. Depois que vi que o cara era meio pinel, mesmo, tirei-o de tempo e fugi dele por quase a festa inteira. Uma vez no Berro Cariri, lá no Crato, ele passou a noite me enchendo o saco, dizendo que eu era filho de um deputado não-sei-quem aí. Cara chato da porra.
Bom, só que lá pra meia-noite o indigitado me descobriu no terraço (e que terraço era aquele, hein, Martelo!) quase me agarrando com... uma moça que agora não vem ao caso contar, porque o namorado dela é muito gente fina e eu não gostaria que ele ficasse sabendo que leva chifre. Aí a menina correu. Mas, em vez de pular na minha frente estendendo a mão suja, as unhas todas roídas e pretas, ele caminhou calmamente para a bancada do terraço, apoiou as mãos (com certa elegância, poderia dizer) e disse calmamente.
- Bela noite, não? Ela até me lembra uma história que ouvi falar, certa feita. Uma história muito interessante. Deseja saber como era?
Eu, assustado com aquela transformação, só movi a cabeça afirmativamente.
- Há muito, muito tempo atrás, numa galáxia não muito distante, vivia um povo muito avançado e curioso. Curioso porque eles realmente queriam saber de tudo, absolutamente tudo, em termos de conhecimento científicos, históricos e informações inúteis. Embora, para eles, todo conhecimento tinha utilidade.
Crianças, do que aqui seria a primeira série do ensino fundamental, tinham como tarefas, e passatempos, catalogar quantos espirros ouviam no dia, quantos tropeços os adultos davam pelas passarelas magnéticas (embora fossem raríssimos tropeços). Os registros eletrônicos (deles) eram vendidos (no sistema de comércio singular deles) a peso de ouro (deles) na internet (deles!).
Com o tempo as crianças acrescentavam mais dados: Causas do espirro; se doença, qual; se mortal, qual a expectativa de vida, etc. É, eles sempre foram suscetíveis às doenças respiratórias. Os pulmões (deles, se é que aquilo pode ser chamado de pulmão) são muito sensíveis, as narinas super-desenvolvidas... enfim, seu sistema respiratório era mais um milagre entre os maiores milagres do universo. E, então... Desculpe-me, devaneio e o enfastio. Falarei com maior brevidade, afinal o tempo é curto... curto, essa é boa!
Curiosos, deveras. Descobriram um planetinha, admiraram-se de seus habitantes, uma vera e inexaurível fonte de informações, e resolveram ficar para assistir. Assistir no sentido de “só olhar”. E não “auxiliar”. Mas de vez em quando, “mexer” ou “cutucar”. Colonizaram o satélite natural do planetinha, um “sofá” bastante confortável e arregalaram os olhos (deles, se aqueles troços são olhos, mesmo) com tanta novidade.
Eles amaram o seriado “Babilônia” e a saga de todos os seus reis. Os documentários “Os Egípcios” e “Os Incas” foram reprisados durante anos. Tratavam, entre outras coisas, das adaptações culturais dos conhecimentos científicos que, vez por outra, forneciam ao povo do planetinha.
Choraram com “A paixão de Iesus Hristus” que foi um estrondoso sucesso interplanetário. Seus admiradores, quase noventa por cento da população, eram tão fanáticos que seguiam no dia-a-dia a sua filosofia de vida. Só perdendo em número, e ainda assim só recentemente, para a Aliança dos Novos Cavaleiros Jedis.
Sobre o Hristus havia uma piada famosa:
“Depois que o Filho do Homem foi tentado pelo diabo no deserto, este desistiu e voltou para seu laguinho de enxofre. Logo em seguida uma comitiva de Espectadores foi encontrá-lo para enaltecê-lo. Iesus voltou o rosto molhado pelas lágrimas dos anjos que o banhavam e disse: depois do diabo vêm vocês?” Ele realmente era dotado de um senso de humor divino.
Eles perceberam, especialmente nos últimos cem anos, que a função daquela raça do planetinha era, maravilhosamente, gerar informação. E como a função deles era procurar, catalogar, processar e armazenar informações, ocorreu uma simbiose secreta entre as duas raças. Sem interferências. Às vezes havia uma ajudinha aqui, uma visitinha acolá, nada demais. Um ônibus de turismo extraviado uma vez a cada quinhentos anos. Tiveram que eliminar os dragões alados da primeira vez. Da última, não podiam derrubar os jatos sem levantar suspeitas.
Houve um caso extremamente interessante: foi um alvoroço quando os seres do planetinha mandaram uma nave ao satélite natural. Tiveram que remodelar tudo: passar uma vassoura, recolocar umas pedras, transferir algumas colônias de nudismo para os subterrâneos, etc. Mas nada pagou a emoção que sentiram com os primeiros passos e a frase de Neil Armstrong. Pessoas choravam nas ruas. Uma senhora disse: “Nunca vi nada tão tocante, até parecia nossa história”.
É nessa parte que a história fica boa. Há trinta anos surgiu uma promoção de uma empresa produtora de desentupidor nasal que premiou os ganhadores com “Uma Vida no Planetinha”. Os 4400 ganhadores tiveram o DNA modificado e foram inseridos naquela sociedade, em substituição aos filhos verdadeiros. Eles foram chamados de: “Os que Foram”. Ou: “Os Trocados”. E ainda houve quem idiotamente os chamasse de “Changelings”, desvirtuando uma lenda terráquea.
Nessa hora eu o interrompi e disse: “Mas o que é que você quer dizer com essa história?”
“Espere um pouco, Senhor S. É agora que esta história fica realmente interessante. Não era uma promoção real, era um projeto secreto do Governo. Uma pesquisa com dois objetivos: saber como influir nos rumos da vida do planetinha e como seus cidadãos reagiriam se realmente fossem do planetinha.
Pondere, Senhor S, os seres do referido planetinha estão se matando, envenenando o meio ambiente e sempre criando outras formas inventivas de se eliminarem individualmente e em massa. Há muita gente ganhando muito dinheiro com as transmissões intergalácticas dos campeonatos de softball e os conflitos armados do planetinha, meu caro. Imagine só as cifras relativas aos bonequinhos e miniaturas sem ter de pagar royalties e direitos autorais!”
- Um absurdo. – respondi. – Isso tudo é absurdo.
- Exacto. – disse, como se falasse por um dicionário do tempo da Velha Reppublica. – Eles estão por aqui, queira acreditar. As questões técnicas são muito poucas e bobas: Reengenharia genética, memória molecular, nano-bionicismo, liga ósseo-muscular sintética, renovação e reestruturação celular por ativação telecinética, etc, etc e etc. Seria enfadonho terminar de enumerar.
- Como? – foi a única coisa que saiu de tão estupefato que estava.
- A real questão não é “como”, mas, sim: Porquê?
- Porque, o quê?
- “Porque eles ainda não apareceram entre nós?”.
- Por quê?
- Exacto.
- Sim, por quê?
- Ah, por isso...
Com um movimento ágil, o doido me derrubou com uma rasteira, me imobilizou e abriu o fecho da minha calça. Quando finalmente dei por mim, ele tinha meus bagos na mão e uma faca na outra.
- Não, pelo amor de Deus! Solte meus ovos! – pedi desesperado.
Antes que eu pudesse pensar, ele fez uma incisão bem curta e, de dentro dela, puxou algo que se espalhava por dentro de mim, da cabeça aos pés.
- Ca-ra-lho, bicho! Ele arrancou teus ovos? – perguntou Martelo, aflito.
- Não. A sensação que tive era como se um arame viesse se arrastando de cada parte do meu corpo. Depois me soltou. Aí, guardei as jóias da família de forma bem segura dentro da cueca e me levantei devidamente ultrajado.
Em sua mão havia uma diminuta fita negra, com um quarto da largura de uma fita durex e pouco mais comprida que a largura de seu dedo indicador.
- Que diabo é isso? – perguntei.
- Esse era seu Bloqueador. Misto de ser vivo e máquina. Impedia-o de ser quem você realmente é. Controlava parte de seus movimentos e, realmente em parte, controlava você. Evitava seus verdadeiros reflexos. Impedia-o de virar carros com um simples chute, desses que manda uma bola canarinho vermelha para o terreno do vizinho por cima do muro.
Quando ele a apertou entre os dedos, uma extremidade se arredondou e aumentou de tamanho, a extremidade inferior se dividiu em vários filetes. O troço se debatia na mão do doido como um minúsculo polvo negro. Era um bicho feio de se ver, ainda mais sabendo que tinha saído... de onde havia saído.
Então apertou novamente, no mesmo lugar, e ele voltou a ser o pedaço de fita isolante menos assustador de antes.
- Tome. – disse o doido estendendo a mão. – Guarde na carteira como souvenir.
- Não tem perigo de esse troço voltar a ser um polvo de novo?
- Não.
- E querer voltar pro... aos...
- Hum-hum. Não.
- Nem se ele for apertado por acidente...
- De forma alguma.
- Sabe, né? A carteira... fica perto... do... dos...
- Na dúvida, guarde dentro de um cofre, bem longe de você. – diante de meu olhar de horror, disse: - Brincadeira! Vocês não têm senso de humor, mesmo. – e mais sério:
- Tenho que ir, meu tempo está acabando. Ouça-me, você precisa saber que há um mecanismo chamada Retorno, pelos termos do Contrato. Mas alguns na terra deram outro nome para ela: Pedra Filosofal.
- Assim com a inicial maiúscula?
- É, assim mesmo. Com ela você pode retornar à sua vida real. Não deixará de ganhar os brindes, está no contrato. Se não me engano o atomizador de asteróides vem com bateria extra incluída. E depois, nesses quase trinta anos, a poupança que você fez deve ter rendido uma quantia considerável. – e começou a descer as escadas.
- Escute, isso tudo é loucura. Nem sei como pude acreditar que você realmente retirou esse troço de mim e que ele realmente é um Bloqueador.
- Você sabe. Você lembra. Olhe o céu que a Lembrança das Estrelas virá. Procure os outros. Você os achará se souber como olhar. – e sumiu de vista.
Ergui o olhar. Foi como se estivesse vendo as estrelas pela primeira vez e, ao mesmo tempo, é como se eu sempre estivesse lá, nadando entre elas, o manto negro da noite escorregando pela minha pele, junto com a miríade de pontos de brilho vivo, como se fosse uma piscina de gelatina.
Nem sei quanto tempo fiquei naquele deleite, quando fui acordado por um convidado que me perguntava algo. Pedi licença e saí.
- Foi há um ano, quando você se mudou às pressas para Fortaleza e não avisou ninguém? – perguntou João 8. – Sabia.
- Passei oito meses pesquisando. Mas não encontrei nada, até ler sobre a Pedra Filosofal. – Foi quando voltei, há exatos dois meses.
- A que transforma tudo em ouro? – perguntou Martelo.
- A Máquina das Puras Possibilidades? – perguntou Frank.
- Sim. Pelo menos é o que eu acho. Haveria duas fontes de energia assim tão poderosas neste planeta? – eu comentei.
- E como é o nome desse povo, desses alienígenas? –perguntou João.
- Isso eu não sei, ele não disse.
- Não pode. História com aliens tem que ter o nome da raça. – retrucou.
- No filme Alien, mesmo, não tem. Nem no Predador. – Eu argumentei.
- É, bom argumento. – concordou ele.
- Bicho, isso é sério? – perguntou Martelo.
- É. – respondi.
- Isso é loucura! Olhe só você, você nem parece um alienígena. Bem, um pouco, só. E em algumas ocasiões, na verdade. - comentou
- E isso não é tudo. Hoje eu percebi que vocês quatro também são como eu.
Continua...
segunda-feira, 2 de março de 2009
Meu pé de Jacarandá
Ah, homem vil e ignaro,
Lenhou meu pé de jacarandá.
Lamento que deixaste claro
Que em teu peito piedade não há.
Na beira da estrada para o Potengi,
À direita de quem vai para ali,
Havia um frondoso e nobre tronco
Que foi arrancado por um bronco.
Não era um simples coité,
Tinha a florada de um azul intenso
Humano tosco, não tiveste o senso
De deixar este caule de pé.
A falta de sua sombra muito me desagrada
Pois Jacarandá era seu famoso nome
Homem, nem para matar a tua fome,
Tu podias derrubar esta planta sagrada.
Encerro meu protesto lamentoso
Contra o que me causou tanto mal.
E tudo só por que um homem odioso
Quis aumentar o seu curral.
AXB
Capítulo Experimental II: O que não se faz num antro de bruxas.
Entramos no Secos e Molhados e passamos direto para o covil. Ninguém perguntou nada. Sequer olharam para nós.
A bruxa-porteira do covil pediu quinze reais de cada um. Já começou ruim. Fomos levados a uma recepcionista zarolha sentada diante de um computador coberto de teias.
João contou o caso à zarolha que simplesmente balançava a cabeça e murmurava algumas afirmações. Computou alguma coisa no aparelho e ficou aguardando. Em seguida pediu que aguardássemos a bruxa-mãe.
A sala da recepção tinha o teto baixo, as paredes escuras carcomidas e um cheiro de urina de gato simplesmente insuportável.
A bruxa-mãe chegou depois do que pareceu ser um século para mim. Vinha com seu séquito de lambe-cus. Lembrava um pouco a antiga, e finada, Célia Rasga-Lata, e me olhou com um olhar tão maligno que eu tremi.
Diante de nossa espera silenciosa, a bruxa-mãe disse que só poderia fazer o ritual se oferecêssemos um objeto que tenha sido recebido como presente, ao mesmo tempo dado com amor e que representasse fé.
Enquanto todo mundo quebrava a cabeça para entender o fraseado, meu coração deu um pinote. Eu já sabia o que elas queriam: o meu meio-relicário do Imaculado Coração de Maria.
Dele eu não abriria mão nem a pau. E já fui logo bolando uma presepada.
Se vocês estão pensando que eu meti bala nos bolsos e estava preparado para a pancadaria, se acharam que eu ia dar uns pulinhos kung-fu, e meia dúzia de mãozadas: estão enganados.
Até pensei em derrubar o pau da barraca, mas daria muita confusão para os caras. Wolverine talvez até gostasse de arengar pra cima das sirenes, mas não era caso pra isso. Era caso para: “O que não se faz num antro de bruxas” da Glória Kalil.
- Aqui está. – puxei a camisa pra frente e tirei o cordão do pescoço. E para a bruxa que estendeu avidamente a mão para pegá-lo:
- Cuidado, dona. Esse objeto é único em minha estima. Queimaria meus livros para recuperá-lo.
Fizeram, com seus devidos bricabraques de feitiçaria, os hocus-pocus e parangarico-tirimíruaru aparente necessários para libertar Frank da maldição do homem. Foi um ritual muito chato em sua tosca tentativa de ser assustador. Como encerramento, disseram:
- Como última parte do encantamento para desfazer a maldição. Você deve colocar flores no túmulo do homem para acalmá-lo. Para que ele volte a acreditar na gentileza e bondade humana.
Fora toda a idiotice daquela conversa, houve algo que estranhei demais. Como nosso assessor para assuntos mágicos, perguntei a Johnie Oct:
- Encantamentos realmente desfazem maldições?
- Bom, depende... Se for uma maldição arcana... há certos rituais de encantamento... mas se for uma maldição divina, no sentido de... bom, pelo ritual que elas fizeram, acho que...
- Ora, você está parecendo comigo atendendo alguém no tempo em que eu era advogado. Vamos embora. Já cansei-me disso.
- “Já me cansei” – corrigiu Martelo.
- Não enche o saco, Marcelo!
- Esse S é foda, bicho! He, He!
Bom, continuando, lembro que na saída eu disse: “Quero meu relicário”. E elas: “Não”. E eu: “Por que não?”. E elas: “Porque não pode”. E coisa e tal do tipo: “Porque esse tipo de objeto sagrado dado por um herói para saber de não-sei-o-quê...”.
Aí deu merda.
Tava apertado, arriei as calças e obrei no pé da porta. Aquele montão. E no dia anterior o menu foi peixe, afinal foi uma sexta-feira e eu ainda sou bastante católico. Ao primeiro grito histérico da bruxa-chefe-que-segura-os-relicários-numa-caixa-de-chumbo, abriram a porta, mal me dando tempo de sair da frente. Foi aquela talagada espalhada no carpete da sala-de-cerimônias-para-otários.
Urinei em cima de um ídolo de pedra em outra sala. Taquei fogo na sala de torturas. Brinquei de bila com as runas. Joguei os búzios no aquário das piranhas. O funaré foi tão grande que eu já andava sem as calças que era para arejar minhas “coisas”.
As bruxas quiseram engrossar com a gente. E nessa hora eu me orgulhei da hombridade, vulgarmente chamada macheza, dos meus confrades.
João 8 deu um chute tão bem dado na bunda de uma bruxa anã que se aproximava com uma escopeta na mão que a dita atravessou a janela e caiu de cabeça no corredor da casa.
Wolverine agarrou um tambor que estava num canto imundo daquela casa que já era suja e arremessou de borco sobre quatro feiticeiras-ninjas, ou que pelo menos estavam enfaixadas como tal. O tal tambor tinha piranhas dentro. Daí você imagina a cena: piranhas voadoras esfomeadas mordendo outras. Mordendo as bruxas, quero dizer.
Frank rebolou um livro tão grande em cima de umas Encantadoras de alta estirpe, que pareciam muito com madres-superioras, que elas caíram com estrépito no chão, ficando lá até o momento em que saímos.
Martelo mereceu a alcunha, como valente filho da tribo Kariry, arranjou um martelo de bigorna e um tacape e, com um em cada mão, derrubou uma dúzia de ranzinzas que tentava me atacar. Devo a eles minha vida.
Foi nesse instante que percebi o que parecia ser destinado a acontecer, como o vislumbre de uma profecia muito antiga na iminência de ser cumprida. Tranqüilos e infalíveis. Exatos e poderosos. Homens assim eram chamados de “Filhos dos deuses” na antiguidade. Mas isso eu revelarei futuramente.
Por enquanto basta saber que quando vi, ao longe, alguém se aproximar com meu meio-relicário na mão, aquietei-me. Peguei, coloquei no pescoço e agradeci.
Chamaram-me com tantos nomes feios que eu quase esqueço o meu. Rogaram tantas e tão variadas pragas que, se eu não tivesse o corpo fechado, teriam os vermes me roído até as pregas.
Foi por uma boa causa. Eu não teria me desfeito daquele relicário por nada deste mundo.
Continua...
