terça-feira, 28 de abril de 2009

Capítulo Ocho: A história que jamais deveria ser contada

Por falar em histórias que não deveriam ser contadas, acho que agora cabe uma que nunca contei a ninguém. Como este é um livro de memórias, não posso deixar que a minha me falhe nem que eu falte com a verdade.


Eu tenho o sono atribulado dos culpados. Murmuro desesperações durante o sono. E realmente não deveria contar uma história como essa. Sento aqui diante do computador e me pergunto se realmente quero, ou se preciso, fazer este relato.


De onde vem o horror? Que sentimento é este de arrepio e gelo na espinha? Qual o poder do horror? É possível morrer de horror? Considerando que susto é uma coisa, mas ver ou ouvir algo horrendo é outra.


Há coisas que não devem ser ditas, outras muito menos sussurradas. Como o nome do Cavaleiro Negro, no livro Mio, Meu Mio da escritora dinamarquesa Astrid Lindgren, tão impregnado de ódio que o simples ato de o protagonista mencioná-lo em voz baixa desfolha os álamos de prata de seu pai, o Rei.


Sabe, como coisas sussurradas atrás de uma porta na véspera de Natal, na casa da avó. Como o personagem de Joseph Conrad em O Coração das Trevas: “O horror, o horror!”.


Bem, havia uma divindade Tolteca cujo nome foi apagado de todos os registros daquela civilização dada sua bestialidade. Eu sei seu nome, era Paterasan. Assim, simples. Não lhe causará terrores noturnos nem lhe fará perder um bom sono. Não falarei das atrocidades por ele cometidas neste planeta. Não comentarei nem superficialmente as exigências feitas àquele povo. Se chegaram a adorá-lo como um deus, deve ter sido por um exíguo espaço de tempo.


Não se admite que uma divindade exija o sacrifício de toda uma civilização. É impensável uma deidade cuja satisfação seja alcançada com poeira, ruínas e silêncio. Passando antes, é claro, por um intenso e indizível processo de incêndios, dolorosos rituais de mutilação, sacrifícios animais, humanos e de outros deuses, elaborados suicídios coletivos, mães torturando filhos de colo, etc.


Paterasan não é considerado um deus da loucura, afinal a insanidade afasta o horror. Não é, também, dedicado à morte pura e simples, tampouco se dedica só a destruição. É o mestre da horripilação.


Foi adorado no cerco a Jerusalém pelos romanos em 70 depois de Cristo, quando mães, que resistiam bravamente ao cerco, estavam desesperadas de fome, matavam e comiam seus filhos recém-nascidos. Ele estendeu suas asas retorcidas sobre os campos de concentração de Treblinka e Büchenwald. Era regiamente adulado e atendido de joelhos por altos oficiais nazistas que lhe serviam seres humanos vivos para alimentação. Alimentação, não, porque, depois de morder lentamente, ele os cuspia de seu longo bico de pelicano.


Não chega a ser o demônio. Aliás, o diabo não chega a ser um Paterasan. Há limites até mesmo para inimigos e honra entre velhos adversários. Você sabe, há regras que devem ser seguidas e cegamente obedecidas. Paterasan não seguia regras e não era inimigo de ninguém. Ele dizia, com aqueles engrolados e ensurdecedores roncos que lhe eram tão peculiares, que só gostava do silêncio que seguia o pandemônio.


Não se sabe como surgiu. Ele não dizia a seus seguidores. Só posso crer que foi de algum aborto cósmico. Ele era maldade concentrada sem saber que era maldade. A malignidade inocente, como crianças amarrando e acendendo bombas no rabo dos gatos ou na boca dos sapos.


Eu disse era? Sim. Exato. Houve uma noite em que eu estava tendo um sonho estranho, nesse sonho um menininho de cabelo louro e olhos claros se deteve diante de mim e me olhava com tanta intensidade que tive de me curvar para olhá-lo mais de perto, então ele estendeu a mãozinha e tirou a tampa do turíbulo de meu peito, e desde esse dia que eu não fui mais o mesmo: comecei a derrubar bêbados inconvenientes às cotoveladas e pegar rãs com as mãos nuas. Vai saber o que há comigo.


Pois bem, mal terminou esse sonho, eu ouvi, ao longe, um silvo bastante agudo. Esse ao longe que digo é mais ou menos como se fosse numa galáxia a vinte ou trinta galáxias de distância. Depois, veio aquele zunido de algo que se move tão rápido que parece deixar parte de seus átomos pelo caminho. Por fim, senti uma lufada tão forte, mas tão forte, que deve ter como evento análogo o choque entre a lua e a Terra.


Eu sabia que era ele. Perceba, eu não sabia quem ele era, nunca havia ouvido falar sobre ele. Ninguém sabe sobre ele! Mas tive a noção de sua existência, não sei como, mas acho que aprendi sobre ele na mais tenra idade, quando aprendi para que servem as mãos ou que diacho são os pés.


Mas percebi que estava chegando. Afastei as cobertas, calcei o chinelo e, antes que abrisse a janela da varanda, ele chegou roncando. Os vizinhos detestaram. Um é surdo até hoje.


Outro adquiriu um tipo de mal de Alzheimer extremamente potencializado. Perdeu o emprego de operador de máquinas. Hoje ele é liquidificador: colocam um copo em cada mão e ele prepara dois sucos ao mesmo tempo. Ele não possui mais, aliás, não dorme mais em uma cama. Ele dorme no emprego que tem na Petrobrás. No segundo emprego, pra ser exato, ele é uma perfuratriz. Já foi escalado para o pré-sal, vão economizar dezesseis milhões em brocas e sistemas de perfuração.


Todos os gatos da rua morreram de susto. Passamos meses procurando os corpos, os filhos da mãe se escondiam em cada canto... Bom, quando abri a janela, subiu aquele bafo. Sei lá, parece que no caminho ele tinha comido um asteróide cheio de enxofre. E não escovou os dentes depois.


Eu parei, olhei, cocei um olho e disse: “O que é?”. Aí ele roncou de novo. E eu, rapidinho: Ei. Ei! Sh-sh-sh! – assim mesmo, entre os dentes. – E aí, mermão, o que é que você quer? Ele ficou me encarando com aqueles olhos miúdos de massa negra do cosmos, como quem assunta ter encontrado uma coisa realmente porreta.


Deve ter visto em mim um potencial da porra. Pena pra ele que eu não sou dado a crueldades. Na verdade eu tenho ojeriza a crueldade. Mas quando pisam nos meus calos...


- Não, joinha, tenho interesse, não.


Ele grunhiu.


- Baixinho. Ronca baixinho. Eu disse baixinho, caralho!


Aí ele grunhiu bem baixo.


- Não, não sou disso. Detesto quem faz isso. E você é muito filho-da-puta vindo aqui uma hora dessas com uma proposta dessa. (sic). Cara, eu não agüento caba folgado (sic).


Ele quis aumentar o ronco, eu mandei logo ele ir tomar no cu e não sei-o-que-mais. Ele quis dar uma de valente e aí foi uma merda só. Eu só fico furioso e descambo pra crueldade pura e simples quando vêm folgar comigo. Folgar no sentido de frescar. Frescar no sentido de tirar onda. Tirar onda no sentido de burlar. Burlar no sentido de zombar, que era o sinônimo de expressão idiomática que eu deveria ter usado no início. Expressão idiomática no sentido de gíria. Gíria esta que complica, apesar de embelezar e enriquecer, nosso idioma.


Bom, sentei-lhe uma mãozada pra início de conversa e depois fiz um bocado de coisa que, decididamente, não vou relatar, mas que permanece em meus pesadelos até hoje. Às vezes gosto de pensar que ele merecia, afinal ele era o Primado do Horror, o Mestre do Pesadelo, etc e etc, essas besteiras, enfim.


Acordei gritando. Ainda hoje me arrepio lembrando o que fiz. Não sabia que eu podia ser tão ruim desse jeito. Cruel. Tão cruel.


Mas cara, sabe como é: detesto essas divindades espaciais metidas a besta. Rapaz, elas dão no saco!




Continua...

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Capítulo Septimus: A merda da verdade.

Vejam vocês, a merda da verdade aparece nas condições mais inoportunas e em comentários inocentes e casuais. É o seguinte: eu tinha uma casa de herança que estava alugada e tinha umas filhas da puta de umas goteiras desgraçadas, o locatário, ou melhor, o filho dele, que estava morando na casa, já estava comendo meu juízo como esmeril em lâmina ruim de faca.


Então chamei o meu amigão gente fina, o Célio Come-Casadas, que era o melhor especialista da região em calhas e bicas (e outras coisas mais), para resolver o problema. Bom, cheguei no referido local, a empregada enfezada estava virada num traque e o Célio já tinha arregaçado o telhado de ponta a ponta da casa. Ele não alisava, literalmente.


Aí tive que subir no telhado. E olha que detesto escada. E detesto altura. E hoje detesto telhado, também. Aí cumprimentei-o. O cara era realmente gente fina. Falou que precisaria de um pedreiro. Detesto pedreiros. Detesto cimento e detesto ter de pagar serviços sem saber de antemão quando vai terminar e por quanto vai sair a obra, que pode, ainda por cima, terminar igualzinho a expressão cagada da palavra.


Aí, como quem não queria, ele fez uma observação casual sobre uma ripa, mas a conversa descambou para uma doidinha que ele tinha traçado na semana anterior: Wanessa, do Crato, deixa que ela era de Nova Acopiara. Sendo que eu estava namorando, pelo menos por aquele fim de semana, uma Wanessa, do Crato, que era de Nova Acopiara.


E eu estiquei os ouvidos: “como é que é?”. Aí ele falou que tinha faturado a menina, sem dó nem piedade numa festa em Iguatu. E deu a ficha completa, não deu pra ter dúvidas: era a “minha” Wanessa. Que bandida! E posando de apaixonada. Nesse momento ele passou para todos os detalhes: e “não-sei-que-lá”, e “na frente e atrás”, “e ela dizia não sei o quê” e “gemia não sei como”. Essas merdas que o cara ouve e acha muito bom quando não é mulher dele.


Terminou dizendo que saiu todo apertado, a mulher parecia um alicate. Ou uma chave de grifo, que era como ele chamava uma chave inglesa, que é como alguns chamam uma torquês, embora esta não tenha nada a ver com os outros dois nomes, porque é uma ferramenta totalmente diferente.


Desgraçada. E na noite anterior disse que não podia fazer comigo porque estava menstruada. Tava era toda doída. O apelido de Célio também era “Tripé”.


- Mas só fiz isso porque a piranha é ex de um amigão meu, o Nelsão. Cara gente fina. Tão gente fina que tá ajeitando a atual namorada pros amigos. Ele gosta de fazer esquema com ela, às vezes deixa o amigo sozinho com ela no carro, às vezes faz os três juntos... e ainda teve uma vez que ele levou dois amigos, aí foi aquela lambança! Você precisava ver o tipo da namorada dele, menina bonitinha, loirinha do cabelo curtinho, bem delicada, docinha mesmo, toda rosadinha, e nós lá, metendo na frente e atrás. Você precisava conhecer. Aliás, será que você não conhece...?


É claro que eu conhecia, embora tenha dito que não. Era uma ex-namorada minha. Já fazia tempo, mas aquela por quem eu tinha muita consideração.


Rapaz, eu não sei: pensei em matar o Célio da forma mais requintadamente dolorida e vagarosa possível, depois queria sair e matar o Nelsão, fosse quem porra fodida fosse. Pensei em enfiar-lhe uma telha boca adentro. Depois em meter-lhe um caibro em outro canto.


- E aí, vai fazer o serviço? – perguntou ele.


- Nada. Vendo a casa por sessenta mil, quer?


- Pago cinqüenta.


- Fechado.


- Vou falar com papai, ele disse que ia me ajudar a comprar uma casa nova. A mulher tá me enchendo o saco. Tem como financiar?




Resumindo, meus caros: por conta de um comentário besta do Célio, a merda da verdade apareceu, e em conseqüência eu:

01) fiquei sem namorada (não ia continuar com ela depois daquela putaria);

02) fiquei sem amigo (agora não queria ver o Célio de jeito nenhum, mas que merda!);

03) fiquei desgostoso com minha ex (sem comentários);

04) fiquei sem a casa (vendi barato demais);


Isso é o que acontece quando a merda da verdade vem à tona. Principalmente quando você fala histórias que não deveriam ser contadas.


Mas a forma como agi no caso do telhado foi uma boa. Não tive que fazer a merda do serviço de pedreiro. E isso não tem preço.



Continua...

terça-feira, 14 de abril de 2009

Capítulo Sexto: Uma batalha.

Foi uma vez em que me meti em encrenca da grossa. Resolvi apelar para Frank, o Outro. Frank, o Dilacerador e sua turma de cupinchas: os Irmãos do Caos, como se autodenominavam.

Serviço caro, mas o melhor. Armamento pesado e de primeira qualidade. Já tinha comprovado a qualidade e eficiência dos serviços de Frank, o Outro: mandíbulas quebradas, ossos fraturados, tendões desligados, contusões das mais variadas formas e tamanhos, até tapinhas que só causavam rubefação.

Uns porretas, aqueles caras. Fico muito feliz e satisfeito que exista gente no mundo que fique feliz e satisfeita dando porrada em gente escrota.


Bom, mas contando do início:

Num domingo desses eu estava deitado na rede de Tia Maroly debaixo do pé de cajarana lá no sítio do meu avô. Tranquilão, tinha tomado umas doses de cachaça com o Capitão, que é como os netos chamam “seu” Bernardo, meu avô materno.

Aí calha de eu ouvir aquele barulhinho de ventilador à distância. e eu: “Lá vem.” O som foi aumentando e logo, logo, o helicóptero da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos da América pousava na roça de arroz do meu avô. Eu fiquei logo puto.

O Coronel Willis me chega ao pé da rede todo desconfiado e os pés melados de lama até as canelas. O helicóptero lá, assustando o gado e os três porcos de vovô. Eu, que estava com o lençol cobrindo o rosto, disse:

- Diga.

Como ele me conhecia bem, foi direto ao assunto, do jeito que eu gosto: A NSA, ou ASN, caso queira, estava precisando que eu montasse uma operação negra aqui no Brasil. Willis disse que havia uma autorização do Lula para aquela ação em particular. Eu nem olhei o dossiê. Só pra ver Presidente Obama zelando pela Paz e Segurança do Mundo, olha só.


“Operação Negra” é um tipo de missão clandestina. Quem autoriza não pode aparecer de forma alguma. Tanto que nem existe autorização. Só a ordem e o cumprimento. A ordem era: localizar e eliminar uma comunidade de vampiros que se instalou na cidade de Granjeiro, CE, substituindo os moradores. E só.


O cumprimento:

Toda boa missão de espionagem envolvendo “Seek and Destroy” (Localizar e Destruir), que dá um bom enredo e é a cara do Frederick Forsyth, começa com o levantamento do local.

Granjeiro é uma cidade fantasma, mesmo antes dos vampiros. Segundo os dados possui cinco mil almas dentro de suas fronteiras. Paupérrima e desconhecida. O melhor acesso para lá é indo do Juazeiro, passando pelo Crato, indo até Várzea Alegre, por dentro desta cidade, pegando a rodovia CE sei-lá-que-número, e daí até Grangeiro. Muitas subidas, curvas fechadas, meu tipo de pista predileto.

Se você for por Caririaçu terá uma bela surpresa: mais de trinta quilômetros de estrada de carroça, trilhas de barro, pedras, pontes antiqüíssimas, alguns abismos e muita poeira. Eu voltei por este trecho me sentindo num rali.

O prédio da Justiça fica num ponto alto, donde se pode divisar as casinhas, a igreja-matriz, o açude que banha os pés da cidade e, do outro lado de uma depressão no terreno, o hospital municipal.

No meu disfarce mais batido, que é o de advogado-descolado-vestido-de-terno-creme -com-camisa-rosa-e-e-sapatos-caramelo, passei no Fórum de Granjeiro: só havia uma funcionária, mas essa não tinha cara de vampira. Informou-me que todos os processos estavam na vizinha comarca de Caririaçu, à qual Granjeiro é vinculada.

Pois bem, agradeci a informação, entrei no Uno Mille vermelhinho da família e aproveitei para conhecer a cidade. Uma rua corta o povoado ao meio. Só uma. Só tem essa.

Nunca, em toda minha vida, vi tantas mulheres lindíssimas, de cabelos lisos e compridos, olhares faceiros, mas um tanto pálidas, a me olharem voluptuosamente e lamberem, com línguas enormes, os dentes pontiagudos por trás das meias-portas dos casebres mal-ajambrados.

Achei o lugar lindo. Mas voltei intrigado. Terminei o mapa e tracei o plano de ataque. Isso foi o “onde”. O Coronel Willis me liga e diz o “quando”:

- À noite.

- É o quê? – perguntei e fiz uma careta.

- Eles estarão mais expostos.

- E nós, não?

- Vocês terão um blindado...

- Pra eles partirem no meio com um golpe de caratê? Não, obrigado.

- Soro do super-soldado?

- Tá me achando com cara de “Capitão-América do Sul”?

- Uma micro bomba atômica? – perguntou numa careta.

- Jesus, Maria e José!

- Então o quê?

- Da velha maneira.

- All right. Old fashioned way...


Dia D, doze horas para Hora H:

- E aí, chefia, como vai ser? – Perguntou Frank, o Dilacerador.

- Na marra e no tapa.

- Então tá bom.


A versão oficial foi uma epidemia de dengue hemorrágica. Era sangue por toda parte. Por fim, tocaram fogo na cidade. E nós dissemos a nossas famílias que estávamos pescando, viajando, jogando sinuca, essas coisa.

Tivemos duas baixas, nada demais. Um aleijado, levou um soco de um chupa-sangue mesmo na base da coluna. Outro, surdo devido a um tiro perto do ouvido de uma Ithaca calibre 12, com balas-bentas especiais do Vaticano, e cujos projéteis atravessaram a casa de ponta a ponta.


Tudo estava tranqüilo, todos felizes, dinheiro no bolso. Só que aí apareceu a merda da verdade e a mulher de Frank ficou sabendo que eu o contratei, sob os auspícios da NSA e dinheiro sujo do Governo, para matar uma cidade de vampiros.

Ainda hoje tem raiva de mim porque eu o coloquei em perigo. Ela deveria ter acreditado na história do chifre, que era a falsa, mas que todo bom corno gosta de acreditar.


Bom, sobre isto, a merda da verdade, tenho algumas considerações a fazer.



Continua...

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Lembranças

Eu lembro de uma vez que dormi na casa do meu avô em tempos de São João. A casa ficava nas terras do meu avô paterno, que eram um meio termo entre sítio e fazenda. Lembro do vento que assobiava no telhado. Lembro do casaco jeans que eu usava. E do arrastar das chinelas de couro de meu avô.

E eu me sentia feliz. Só por aquilo. Só por aquela sensação, que hoje eu defino como “sensação de estar vivo”. E estar ali. Ouvir a conversa das pessoas sentadas ao redor do fogo. Uma vez ou outra o barulho das botas remexendo o cascalho. A vida era, então, uma grande brincadeira e cada dia guardava algo de novo para ser descoberto. Eu não cansava de ver a luz do amanhecer pelas frestas das telhas. Parecia que o teto estava recoberto de luminosas pontas de lanças passando em revoada.
Havia sempre uma dádiva no amanhã. E o amanhã, maravilhoso por não se alcançar.

Hoje me sinto mais velho que minha própria idade em umas dez vezes. Sinto que alcancei meu amanhã. Como se tivesse achado a resposta para todas as perguntas e o jogo no grande tabuleiro da vida já houvesse perdido a graça. Eu, que era um menino com tantos porquês na ponta da língua, hoje fico calado como quem vai embora depois de cometer uma gafe.

As pessoas se tornaram tão repetidamente enfadonhas a cada geração que se segue. E nem as palavras me trazem mais calmaria ou alento. Tudo é tão rápido: o que desejamos, de ser satisfeito, e o que gostamos, de desgostar.

Hoje todos os tetos são de laje ou de telhas suprimidas a gesso. Não há nada de interessante nas aventuras que escrevo. Sigo mortalmente cansado na rotina à qual estou preso. Até o dia em que eu largar tudo e correr o mundo. Que não se cansa de ser novo e sempre renovado.

Aí será como aquelas madrugadas de São João, em que a vida era maravilhosa em cada instante, o futuro era cheio de possibilidades, e a felicidade era simples como o arrastar das alpercatas de couro de meu avô.



XXX