Eu tenho o sono atribulado dos culpados. Murmuro desesperações durante o sono. E realmente não deveria contar uma história como essa. Sento aqui diante do computador e me pergunto se realmente quero, ou se preciso, fazer este relato.
De onde vem o horror? Que sentimento é este de arrepio e gelo na espinha? Qual o poder do horror? É possível morrer de horror? Considerando que susto é uma coisa, mas ver ou ouvir algo horrendo é outra.
Há coisas que não devem ser ditas, outras muito menos sussurradas. Como o nome do Cavaleiro Negro, no livro Mio, Meu Mio da escritora dinamarquesa Astrid Lindgren, tão impregnado de ódio que o simples ato de o protagonista mencioná-lo em voz baixa desfolha os álamos de prata de seu pai, o Rei.
Sabe, como coisas sussurradas atrás de uma porta na véspera de Natal, na casa da avó. Como o personagem de Joseph Conrad em O Coração das Trevas: “O horror, o horror!”.
Bem, havia uma divindade Tolteca cujo nome foi apagado de todos os registros daquela civilização dada sua bestialidade. Eu sei seu nome, era Paterasan. Assim, simples. Não lhe causará terrores noturnos nem lhe fará perder um bom sono. Não falarei das atrocidades por ele cometidas neste planeta. Não comentarei nem superficialmente as exigências feitas àquele povo. Se chegaram a adorá-lo como um deus, deve ter sido por um exíguo espaço de tempo.
Não se admite que uma divindade exija o sacrifício de toda uma civilização. É impensável uma deidade cuja satisfação seja alcançada com poeira, ruínas e silêncio. Passando antes, é claro, por um intenso e indizível processo de incêndios, dolorosos rituais de mutilação, sacrifícios animais, humanos e de outros deuses, elaborados suicídios coletivos, mães torturando filhos de colo, etc.
Paterasan não é considerado um deus da loucura, afinal a insanidade afasta o horror. Não é, também, dedicado à morte pura e simples, tampouco se dedica só a destruição. É o mestre da horripilação.
Foi adorado no cerco a Jerusalém pelos romanos em 70 depois de Cristo, quando mães, que resistiam bravamente ao cerco, estavam desesperadas de fome, matavam e comiam seus filhos recém-nascidos. Ele estendeu suas asas retorcidas sobre os campos de concentração de Treblinka e Büchenwald. Era regiamente adulado e atendido de joelhos por altos oficiais nazistas que lhe serviam seres humanos vivos para alimentação. Alimentação, não, porque, depois de morder lentamente, ele os cuspia de seu longo bico de pelicano.
Não chega a ser o demônio. Aliás, o diabo não chega a ser um Paterasan. Há limites até mesmo para inimigos e honra entre velhos adversários. Você sabe, há regras que devem ser seguidas e cegamente obedecidas. Paterasan não seguia regras e não era inimigo de ninguém. Ele dizia, com aqueles engrolados e ensurdecedores roncos que lhe eram tão peculiares, que só gostava do silêncio que seguia o pandemônio.
Não se sabe como surgiu. Ele não dizia a seus seguidores. Só posso crer que foi de algum aborto cósmico. Ele era maldade concentrada sem saber que era maldade. A malignidade inocente, como crianças amarrando e acendendo bombas no rabo dos gatos ou na boca dos sapos.
Eu disse era? Sim. Exato. Houve uma noite em que eu estava tendo um sonho estranho, nesse sonho um menininho de cabelo louro e olhos claros se deteve diante de mim e me olhava com tanta intensidade que tive de me curvar para olhá-lo mais de perto, então ele estendeu a mãozinha e tirou a tampa do turíbulo de meu peito, e desde esse dia que eu não fui mais o mesmo: comecei a derrubar bêbados inconvenientes às cotoveladas e pegar rãs com as mãos nuas. Vai saber o que há comigo.
Pois bem, mal terminou esse sonho, eu ouvi, ao longe, um silvo bastante agudo. Esse ao longe que digo é mais ou menos como se fosse numa galáxia a vinte ou trinta galáxias de distância. Depois, veio aquele zunido de algo que se move tão rápido que parece deixar parte de seus átomos pelo caminho. Por fim, senti uma lufada tão forte, mas tão forte, que deve ter como evento análogo o choque entre a lua e a Terra.
Eu sabia que era ele. Perceba, eu não sabia quem ele era, nunca havia ouvido falar sobre ele. Ninguém sabe sobre ele! Mas tive a noção de sua existência, não sei como, mas acho que aprendi sobre ele na mais tenra idade, quando aprendi para que servem as mãos ou que diacho são os pés.
Mas percebi que estava chegando. Afastei as cobertas, calcei o chinelo e, antes que abrisse a janela da varanda, ele chegou roncando. Os vizinhos detestaram. Um é surdo até hoje.
Outro adquiriu um tipo de mal de Alzheimer extremamente potencializado. Perdeu o emprego de operador de máquinas. Hoje ele é liquidificador: colocam um copo em cada mão e ele prepara dois sucos ao mesmo tempo. Ele não possui mais, aliás, não dorme mais em uma cama. Ele dorme no emprego que tem na Petrobrás. No segundo emprego, pra ser exato, ele é uma perfuratriz. Já foi escalado para o pré-sal, vão economizar dezesseis milhões em brocas e sistemas de perfuração.
Todos os gatos da rua morreram de susto. Passamos meses procurando os corpos, os filhos da mãe se escondiam em cada canto... Bom, quando abri a janela, subiu aquele bafo. Sei lá, parece que no caminho ele tinha comido um asteróide cheio de enxofre. E não escovou os dentes depois.
Eu parei, olhei, cocei um olho e disse: “O que é?”. Aí ele roncou de novo. E eu, rapidinho: Ei. Ei! Sh-sh-sh! – assim mesmo, entre os dentes. – E aí, mermão, o que é que você quer? Ele ficou me encarando com aqueles olhos miúdos de massa negra do cosmos, como quem assunta ter encontrado uma coisa realmente porreta.
Deve ter visto em mim um potencial da porra. Pena pra ele que eu não sou dado a crueldades. Na verdade eu tenho ojeriza a crueldade. Mas quando pisam nos meus calos...
- Não, joinha, tenho interesse, não.
Ele grunhiu.
- Baixinho. Ronca baixinho. Eu disse baixinho, caralho!
Aí ele grunhiu bem baixo.
- Não, não sou disso. Detesto quem faz isso. E você é muito filho-da-puta vindo aqui uma hora dessas com uma proposta dessa. (sic). Cara, eu não agüento caba folgado (sic).
Ele quis aumentar o ronco, eu mandei logo ele ir tomar no cu e não sei-o-que-mais. Ele quis dar uma de valente e aí foi uma merda só. Eu só fico furioso e descambo pra crueldade pura e simples quando vêm folgar comigo. Folgar no sentido de frescar. Frescar no sentido de tirar onda. Tirar onda no sentido de burlar. Burlar no sentido de zombar, que era o sinônimo de expressão idiomática que eu deveria ter usado no início. Expressão idiomática no sentido de gíria. Gíria esta que complica, apesar de embelezar e enriquecer, nosso idioma.
Bom, sentei-lhe uma mãozada pra início de conversa e depois fiz um bocado de coisa que, decididamente, não vou relatar, mas que permanece em meus pesadelos até hoje. Às vezes gosto de pensar que ele merecia, afinal ele era o Primado do Horror, o Mestre do Pesadelo, etc e etc, essas besteiras, enfim.
Acordei gritando. Ainda hoje me arrepio lembrando o que fiz. Não sabia que eu podia ser tão ruim desse jeito. Cruel. Tão cruel.
Mas cara, sabe como é: detesto essas divindades espaciais metidas a besta. Rapaz, elas dão no saco!
Continua...
