Quando li O Hobbit pela primeira vez, o que mais me impressionou foi o cheiro da relva que senti quando soube do Condado. Fato que se repetiu nas histórias do Senhor dos Anéis e outras de natureza fantasiosa, capa e espada ou medievais, como quiserem.
Em nenhum momento eu senti o futum do Gollum, ou o fedor dos Uruck-Hai ou dos Naz'Guls. Era sempre o cheiro de relva, o olor de madeira odorífica queimando na lareira enquanto lá fora era uma noite fria, e a toca tinha um calor aconchegante. Quase como se a toca fosse minha própria casa.
Que capacidade é essa de alterar a realidade, de criar uma nova, de mudar o tempo, de mudar os sentimentos, de fazer chover quando necessário e de nascer o dia quando imprescindível? É a de toda uma vida.
O que eu devo aos contadores de boas histórias? Devo tudo, devo a graça de minha vida e a alegria de minha existência. Agradeço o suflar de esperança em meu peito. O que devo a estes calhamaços de papel, envelhecidos, amarelecidos, tão convidativos quanto gratificantes? Devo a riqueza de minha história e a profundidade de meus sentimentos.
Devo minhas próprias histórias, umas poucas e boas histórias.
As outras relíquias foram encontradas facilmente. Uma reunião extraordinária da Confraria foi convocada para informar os demais Confrades dos recentes acontecimentos.
- Porra, bicho! Grendel é foda! – depois de um instante Martelo se completou – Ê fedor!
- E agora? – perguntou Frank.
- Todo o material está separado. Temos equipamento de camuflagem para nos esconder dos demônios, granadas de mão, explosivos em geral e armas de fogo. Será o suficiente para acabar com eles numa bela tarde de inverno. Inclusive há um par de botas-esquis iguais às relatadas por Dan Brown em Impacto Profundo. Fuzis de longa distância, pistolas, e submetralhadoras. Ah, e uma giratória para Wolverine. Eu vou levando minha HK MP5 especial com carregador duplo, teleobjetiva, visor noturno e térmico.
E, depois de um silêncio constrangedor, terminei:
- Falta só achar os “outros dois integrantes”.
- Quem serão? Alguém de fora? – quis saber Frank.
- Será que não é apenas um número cabalístico? – supôs João.
- Cabalístico ou não, tem que ser completado. - redargui.
- Vamos chamar Frank, o Outro? E um dos Irmãos do Caos? – perguntou Martelo.
- Não acho que seja uma boa. – eu respondi, diante da careta de todos os outros.
- Então quem?
- Ããã... - fez João, naquela sua expressão bem conhecida. - Eu conheço alguém que pode...
- Quem? - eu perguntei apressado.
- Padmé.
- Sim, e a outra pessoa? - Wolverine quis saber.
- Yvaine.
- Eita! - gritou Martelo sem querer. - Logo as duas?
- Isso não vai dar certo. - disse Frank.
- Tss! - chisteou João.
- É o jeito. - Martelo respirou fundo. - Como a gente faz para falar com as duas? - Deixa comigo. - respondeu João 8.
Dois dias depois eu estacionava a Sahara (sabe aquela minha caminhonete D-20 cabine dupla preta e tunada? Essa mesmo) numa bifurcação da estrada de Juazeiro para Caririaçu. Uns cem metros à frente ficava a gruta.
Imaginem um silêncio sepulcral. Era isso mesmo dentro da caminhonete. Desde a saída da casa de Yvaine, que a foi a última a embarcar, ninguém deu uma palavra. Nem um pio. Eu conseguia ouvir todos os grilos da suspensão traseira da Sahara.
Martelo vinha sentado à minha direita. Eu tão nervoso com a situação, e a aventura em si, que ainda acertei seu joelho com a barra da marcha umas vinte vezes. Ele também não dizia nada. Padmé ia na extrema direita, apesar de não estar com a cara fechada, não consegui segurar nem por dois segundos um sorriso quando a cumprimentei.
Yvaine ia sentada no banco traseiro atrás de mim, com João 8 logo a seu lado. Ele vinha batendo nas próprias pernas, acho que era para espantar o nervosismo, embora o ato o tornasse mais evidente. Ela só olhava pela janela. Wolverine vinha ao lado dele cofiando a barba estilizada com aquele jeito de quem está aparando as unhas numa lixa. Mais desconfiado impossível.
Frank vinha no bagageiro lendo um livro de xadrez, para variar. Uma magnífica e especificíssima obra sobre o xeque-pastor. Uma farândula. Aparentemente nem atinava para a tensão dentro do veículo.
Descemos do carro no mesmo silêncio. Distribuí os equipamentos entre o pessoal. Wolverine, como sempre, levando 4/3 de tudo, na moral. As duas heroínas sempre se mantendo à distância.
Vou pular a parte dos rituais de abertura do portal, que é chata. Só comunico que quando a luz esgazeada do portal mostrou o que parecia ser uma caverna-gêmea do mundo da fantasia, mais à frente se estendendo uma campina de grama esverdeada até perder de vista, todos estavam ansiosos para atravessar.
Uma sensação de congelamento cobriu minha pele quando passei depois de Martelo que ia como batedor. Meus olhos ficaram cegos por alguns instantes, o suficiente para perceber que todos havia ultrapassado o portal. Quando voltei a enxergar, a parede de rochas havia substituído o portal. Só restavam as imagens pintadas sobre a pedra.
Senti um peso anormal sobre as roupas. Mas o mais estranho foi perceber Wolverine usando uma cota de malha de aço e segurando um machado de guerra.
Se não queres que eu compartilhe esta noite contigo, simplesmente me diga.
Se não queres esta brisa de eterno frescor, nem este cheiro de dias gloriosos por virem, simplesmente me diga.
Não ficarei me apegando a este sonho, ao sonho desta noite.
Pois posso muito bem percorrer as ruas desertas e me deslumbrar com a beleza das luzes amareladas e o jogo de sombras aos pés dos postes. Posso dançar ao som do profundo e absoluto silêncio. Posso admirar e beijar as estrelas como se fossem meus únicos amores possíveis. Posso até uivar para a lua.
Mas se quiseres que eu compartilhe esta noite contigo, não fales nada. Deixa-me encarregado de ti e de teus desejos. Deixa-me silenciar teus anseios, sufocar teus medos e extinguir tua solidão que dói nos olhos só de te ver. Deixa minhas mãos tocarem as tuas, deixa meu corpo aquecer o teu, deita teus pensamentos em meu peito e esqueça que o mundo existe, esqueça as horas, as convenções, a história humana, os meus gostos e os teus desgostos.
Esqueça tudo.
Lembra-te apenas que tu és uma mulher e que eu sou o homem que podes te chamar de teu, por hoje, apenas. Por hoje apenas. Pois que eu sou cigano no pensar e no amar. O amanhecer me leva a outros passos e a lembrança de um sorriso que nunca vi nesta vida me leva para outros caminhos.
Mas esta noite eu sou teu porque Deus me deu a chave do tempo e do espaço para fazer uma noite perpétua. Que pode ser hoje ou amanhã. É só deixar-te levar por meus poucos encantos em alguns cantos. Ouvir as palavras por mim sussurradas em teus ouvidos e permitir que a magia da noite encante teus sentidos. E, quem sabe, selados alguns beijos, se realizarão teus desejos.
Um dia desses fomos, o João, Wolverine e eu, ao Fulerage Burgues que fica na Rua Vaqueiro José Jacó, que na verdade é oficialmente a Rua Vaqueiro Raimundo Jacó. História complicada. Eu explico qualquer dia desses.
Antes de sairmos da casa do João 8, o filme “Gênio Indomável” estava terminando. Eu bem sentado no sofá clássico, totalmente refestelado, quando o Frajuto, gato de estimação da Matriarca do clã Trindade, sentou-se diante de mim, tranqüilo, piscou os olhos bem devagarzinho, e, quando ninguém estava prestando atenção, me disse:
- Então é você.
Eu arregalei os olhos e respondi:
- Aí depende... – diante de seu silêncio sábio, continuei – do que você está falando.
Ele lambeu sua pata de forma lenta e cerimoniosa, depois falou:
- Apesar de não se deixar assustar facilmente, você é um tanto obtuso.
- É o que minha mãe me diz todo dia. – eu respondi vagamente, com a atenção presa ao filme.
- Ela não diz isso, diz? – olhou-se com curiosidade e moveu os finos bigodes.
- Agora o obtuso foi você. – ri na cara dele.
- Oras, voltemos ao assunto. É para você que eles mandaram a missão. Você e seus “Confrades”.
- Quem são “eles” e qual é a missão?
- Eles são os Lordes da Ascensão. A missão é eliminar a nova ameaça Grendel.- um vento frio desagradável e de odor fétido passou pela sala deixando na atmosfera uma tensão palpável. Fungando para afastar o incômodo fedor, respondi:
- Nunca ouvi falar...
- Isto é axiomático. Surpreender-me-ia o contrário. No entanto... – fez um instante de silêncio e ronronou num riso desdenhoso – Não importa. Ouça-me bem, Guerreiro, na estrada para Caririaçu há uma caverna onde está escondido o portal que liga esta realidade às Terras Médias. Metade da chave do portal está guardada na gruta do Arajara, a outra metade está no Cruzeiro de Santana do Cariri.
- E agora é uma viagem turística, também?
- Cale-se e ouça... – e passou uns bons minutos falando dos esconderijos dos citados objetos, mais alguns tesouros e relíquias. Não sabia que havia tantas espalhadas de forma oculta pelo Cariri! Falou da Lâmpada do Tempo, um objeto ancestral que permitia a seu portador viajar em segurança pelo tempo através de portais mágicos. Ensinou alguns códigos, senhas e outras informações úteis em caçadas a objetos secretos.
- Ufa! – eu suspirei.
- Memorizou tudo? – perguntou Frajuto.
- Sim. – respondi.
- Essa será uma aventura cheia de perigos, Guerreiro. As coisas nunca serão o que parecem. Bem, agora junte seus seis companheiros e parta para a aventura.
- Seis? Mas só somos cinco ao todo! O João 8, Wolverine, Frank Z, Martelo e eu. – eu disse, contando nos dedos de forma bem acentuada.
- Isso é problema de vocês. – e sumiu pela porta do quarto da Matriarca.
- E aí, S, vamos? – perguntou Wolverine que, aparentemente, não havia percebido a minha conversa com o gato.
- Vamos.
Eu fiquei tão concentrado na “missão” que mal falei durante o percurso até o Fulerage Burges. Logo os dois perceberam algo errado e me perguntaram o que acontecia.
- Não, é que o Frajuto acabou de me dizer que nós temos que juntar sete homens para eliminar uma nova ameaça Grendel. - Novamente o ar infecto sobreveio.
- Ô seu Zé, tem alguma coisa estragada aí na cozinha! – gritou Wolverine e se virando para nós, disse – Tomara que não seja meu X-Doidão.
- Não, - intervi – é essa palavra.
- Frajuto? – perguntou João 8.
- Não.
- Homens? – foi a vez de Wolverine.
- Grendel – eu disse, dampando odabiz.
- Eita, Júnior! Vê se não peida aí! – gritou seu Zé, o dono do Fulerage Burges.
- Hômi, seu Zé...! – respondeu Wolverine.
Então eu falei de toda a conversa que tive com o sábio, ou sabido, Gato.
- S, como você pode acreditar nessas coisas? Ainda mais imaginar que nós sete, e olha que não somos nem sete, vamos enfrentar uma ameaça inventada por Michael Crichton em “Devoradores de Mortos”. Ainda mais, pelas palavras do Frajuto! Ele nunca nem falou comigo... – relutou João.
- Aí é que está. Vamos tirar a prova procurando os tesouros: as duas partes da chave que abre o portal e a Lanterna do Tempo.
Realmente eles existiam. Coberto de lama da gruta do Arajara, Wolverine se ergueu com uma peça dourada na mão. Parecida com uma argola dourada com uma extremidade pontuda e runas gravadas em sua extensão, que apareceram depois que limpamos a sujeira.
Wolverine esbugalhou os olhos num esgar de fúria e gritou:
Montamos o QG da Cruzada pela Máquina das Puras Possibilidades com o dinheiro que tomamos de um traficante. Uma maleta com quinhentas notas de cem reais. Depois eu conto essa história.
O local escolhido para instalá-lo foi o segundo andar secreto da Pop Star locadora, onde Frank Z trabalhava. Secreto porque só umas poucas pessoas sabiam que havia outro pavimento, além do primeiro andar, acima da locadora. A entrada da escada ficava por trás da prateleira dos filmes pornográficos que eu passava o dia olhando.
O João 8 disse que foi o próprio Frank quem construiu. Uma banda de tijolo a cada dia, e um saco de pão, para disfarçar, contendo cimento. Tudo feito de forma muito discreta porque o dono do prédio, que também era o dono da locadora e chefe de Frank, não podia saber. O Frank se ria dessa história e comentava que o dia mais divertido foi quando teve que montar o telhado.
Eu fico arrepiado toda vez que vejo o prédio por fora. Não há nenhum sinal de segundo piso. Não sei como esses magos fazem isso.
Montamos uma central de ar-condicionado com o motor de uma geladeira Brastemp antiga. Instalamos a Directv. Na verdade foi um “gato” que fizemos da casa vizinha. Compramos uma tevê LCD de quarenta polegadas junto com o home-theater da Sony. É uma porrada de som e imagem, você precisa ver.
Por fim, a batizamos de “A Capela”. Wolverine preferia “o inferninho”, mas ninguém mais aprovou.