quinta-feira, 30 de julho de 2009

Telefone Mudo

Dia desses, meu celular tocou um número suprimido. Atendi:

- Alô?

Ninguém respondeu. Um barulho, muito baixo, de quem cobre o bocal do fone com a mão. Ao longe o som de respiração.

- Diga.

Ainda silêncio.

- Fale comigo. Vamos.

E nada.

- É você? Olha, essa história de... Ei, fale comigo. Eu preciso ouvir tua voz novamente. Ainda que seja só para saber que estou vivo. Eu necessito escutar de novo essa tua voz clara e límpida, carregada de alegria, que tanto encantou o meu viver.

Olha... não houve um dia, desde quando as trilhas de nossas vidas tomaram rumos diferentes, que eu não tenha pensado em ti. Não houve uma manhã, um caminhar, um respirar sem lembrar-me de ti.

É cruel viver assim, um quase inexistir. Eu vivo da lembrança dos teus abraços, do aconchego de teu calor em meus braços e do sorver de teu cheiro como um elixir.

Diz que tu te lembras de todos os momentos. Diz que não me esqueces um só segundo, diz que, morra o mundo, eu serei a melhor lembrança da tua vida. Diz que eu sou a tua mais querida, inefável, concreta alma dividida.

Nesse momento alguém murmura: “Ai, meu Deus!”

- Silvia? É você?

- Desculpe, Dr. Allan. Aqui é do celular da Padaria Santista. Estou ligando para confirmar a encomenda de salgadinhos...

- Ah...


Que desgraça.


Nunca mais comprei nada naquela bendita padaria.



AXB

sábado, 25 de julho de 2009

Noite de Fortal

Ah, Fortal! Que banquete é esse que nos permite ousar provar de todos os prazeres?

Que folia é essa que nos faz esbaldar no desmantelo, na falta de zelo, na loucura?

Não há palavras que definam o impacto do som e da alegria quase palpável que nos bafeja a face.


Ah, Fortal tu és delírio, tu és um esbaldar sem limites, tu és a própria festa de Baco.


Mas tu também trazes lembranças que eu queria esquecer. Porque em cada rosto jovem e belo das moças me faz recordar, porque todo o frescor das mulheres só me faz lembrar o frescor e a juvenil beleza dela.


Em cada face maquiada, eu vejo a face dela. Em cada risco de longos cabelos escuros, eu vejo os cabelos dela.


E sinto a mesma ternura que antes, nem lembro que recebi suas cartas e não respondi.


Ah, Fortal, tu és impossível! Tudo é permitido, cada excesso, os sonhos devassos, a luxúria, desejo posto nas faces.


E era só a face dela que eu via. Em cada rosto e em cada risca de longos cabelos escuros.


O sorriso dela, que não há outro igual,

mas que eu vi em cada rosto de mulher nesta noite de Fortal.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Amigos Ausentes

Já disse Elvis Costello:

"And I'm up while the dawn is breaking
Even though my heart is aching
I should be drinking a toast to absent friends
Instead of these comedians
".

"E eu estou desperto enquanto irrompe a aurora
Ainda que meu coração doa
Eu deveria estar brindando aos amigos ausentes
e não a esses comediantes".

O Vislumbrar de um Sonho Antigo

Será que o meu desejo representava apenas o vislumbrar de um sonho antigo?
O que eu desejava? Um outro “poderia ser”? Uma realidade alternativa?
Talvez.

E novamente eu só... queria algo diferente.
Novamente, eu só. Queria algo diferente?

Sim, só queria que fosse a verdade absoluta num mundo, numa terra, numa vida, minha vida ,de verdades relativas. Nada supremo, nada absoluto.

Não falo do seu sofrimento, minha linda. Não falo da minha tristeza, minha Flor. Falo do meu amor, de toda a adoração que pus aos pés de tua imagem de deusa indiana idealizada. Falo da imagem diferente da realidade. Falo dos pequenos gestos. Da eterna sensação de algo ainda a esclarecer, da minha imperfeição, da minha censurável e célebre idiossincrasia.

Falo do meu nascimento de cordeiro que foi depois criado em meio aos lobos. Então sou, pois tenho a necessidade de ser, também, um lobo. Embora aqui dentro ritme um pulsar de cordeiro.



E toda a minha culpa, culpa do meu fracasso, estampada em minha face é julgada impiedosamente no espelho pelo aço dos meus olhos.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

The Tyger

Tiger! Tiger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?

And what shoulder, and what art,
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand? and what dread feet?

What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?

When the stars threw down their spears,
And watered heaven with their tears,
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?

Tiger! Tiger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?

-William Blake
(* 1757, + 1827)

A Day

A day


A day,

a day

I will wake up

In the lake of torments

Under a dark cloud and razor wings


I know


One day

Or other day

I woke up and saw

Mighty miles of surrender

I saw the forfeit of thunders,

I remember,

At the sea of sorrows.


I’ve been waiting


Oh, a day

someday

My breath will cast away

And I’ll smile through my tears

Seeing towards the storm the beauty of live

At the sea of sorrows.


- Steve Harris