Dia desses, meu celular tocou um número suprimido. Atendi:
- Alô?
Ninguém respondeu. Um barulho, muito baixo, de quem cobre o bocal do fone com a mão. Ao longe o som de respiração.
- Diga.
Ainda silêncio.
- Fale comigo. Vamos.
E nada.
- É você? Olha, essa história de... Ei, fale comigo. Eu preciso ouvir tua voz novamente. Ainda que seja só para saber que estou vivo. Eu necessito escutar de novo essa tua voz clara e límpida, carregada de alegria, que tanto encantou o meu viver.
Olha... não houve um dia, desde quando as trilhas de nossas vidas tomaram rumos diferentes, que eu não tenha pensado em ti. Não houve uma manhã, um caminhar, um respirar sem lembrar-me de ti.
É cruel viver assim, um quase inexistir. Eu vivo da lembrança dos teus abraços, do aconchego de teu calor em meus braços e do sorver de teu cheiro como um elixir.
Diz que tu te lembras de todos os momentos. Diz que não me esqueces um só segundo, diz que, morra o mundo, eu serei a melhor lembrança da tua vida. Diz que eu sou a tua mais querida, inefável, concreta alma dividida.
Nesse momento alguém murmura: “Ai, meu Deus!”
- Silvia? É você?
- Desculpe, Dr. Allan. Aqui é do celular da Padaria Santista. Estou ligando para confirmar a encomenda de salgadinhos...
- Ah...
Que desgraça.
Nunca mais comprei nada naquela bendita padaria.
AXB
